8/06/18

RUC @ NOS Primavera Sound 2018

Dia 1

2018 já está a meio e é mesmo a meio que chega um dos maiores festivais do país –  o NOS Primavera Sound, no Parque da Cidade. Com um cartaz recheado de estreias nacionais, uma aposta em novos projetos e um ecletismo musical bastante notado já no primeiro dia. Esgotado quase inteiramente, sendo o dia 8 (sexta-feira) o único dia para o qual ainda restam bilhetes.

Um palco novo, imediatamente à esquerda da entrada, com bancadas nas laterais faz uma imensa diferença na disposição do festival e o trânsito de pessoas tornou-se evidentemente mais fácil e apesar da lotação do Palco PRIMAVERA BITS ser um pouco inconveniente, os mais tardios concertos do NPS’18 são uma experiência nova e peculiar para um festival em Portugal. A chuva não demorou a afastar-se do Porto – depois de uma manhã e um início de tarde que não prometiam um primeiro dia de festival minimamente calmo, pouco depois de abrirem as portas, às 16h, parou de chover. Aparentemente, São Pedro gosta de Father John Misty.

Apesar de uma sensação inicial de que estavam menos pessoas no recinto relativamente a anos passados, o Parque da Cidade encheu exponencialmente à medida que as horas passavam e, no último concerto do Palco NOS, Jamie XX, a encosta estava praticamente intransponível devido à quantidade brutal de pessoas a ver o concerto do inglês.

Começa-se o dia no Palco SEAT com Fogo Fogo, banda portuguesa de funaná e sonoridades africanas criado em Lisboa há 3 anos, que apesar do pouco público que tinham à sua frente não se acanharam de dar um concerto incrível e de seduzir os seus ouvintes a dançar durante a duração do concerto. Cantando canções do seu último EP, Nha Cutelo EP, ainda deste ano, e do seu primeiro EP, Fogo Fogo EP, desafiaram o mau tempo a fazer melhor que eles e deixaram um pouco de África no Porto, recebendo fortes aplausos inclusivamente das pessoas que já guardavam o seu lugar à frente para o concerto de Tyler, the Creator.

O primeiro concerto no Palco NOS é Waxahatchee, o projeto norte-americano da artista Karen Crutchfield, membro antiga dos P.S. Eliot. As nuvens ainda a ameaçarem uma noite miserável às 18h20, o indie doce e suave proveniente do Alabama acompanhou o tempo perfeitamente, embalando a cada vez maior multidão que chegava ao recinto do festival. Havendo tempo até para um par de faixas cantadas a solo, as Waxahatchee foram muito bem escolhidas para o NOS Primavera Sound, apresentando vocais e lírica fortíssimos em conjunto com instrumentais que complementam apropriadamente a melancolia habitual do indie folk.

Ficamos no maior palco do festival para vermos Rhye, alter-ego R&B do canadiano Mike Milosh. Vem tocar maioritariamente, Blood, o seu último longa-duração virtualmente escrito, produzido e gravado por ele próprio, com uma banda composta por 5 elementos fora ele mesmo: um violinista, um baixista, uma teclista, um guitarrista e um baterista. À medida que o concerto se desenvolve, a audiência cresce e bem antes do final do concerto tanto o artista como o seu público se sentem confortáveis onde estão – há pessoas a dançar, a cantar e a divertirem-se livremente enquanto a banda toca, sem falta de momentos de interação entre os dois. De baladas lentas e românticas a eletrónica mais animada, um concerto surpreendente pela positiva.

Em 8 edições, nunca o NOS Primavera Sound – numa linha claramente oposta ao seu irmão mais velho ou outros festivais bem menos sonicamente transversais como o Sonar – se tinha aberto tão escancaradamente à sonoridade Pop. Certo de que a Pop hoje em dia se revela como campo de excelência para o experimentalismo sónico (vide PC Music) colocá-la como cabeça de cartaz de um festival habitualmente conotado com sonoridades independentes deixa espaço para um número de interrogações – algo sem sentido se atendermos ao percurso de Lorde.

Neo-zelandesa de 21 anos, move-se com facilidade entre a pop aspiracional e o R´n´b mais introspetivo, dois polos que marcam a dupla de álbuns que lançou entre 2013 e 2017, “Pure Heroin” e “Melodrama”. Ora, se no Rock in Rio de 2014 testemunhámos o aparecimento de uma adolescente encantadoramente estranha, no NOS Primavera Sound atestámos o seu crescimento numa intérprete segura, personagem de um espetáculo estimulante que nunca cede à tentação de celebração oca e histriónica, como o glitter cor-de-rosa, o gigantesco vídeo wall e a trupe de bailarinos poderiam indiciar.

Entre a intimidade de temas como Liability, sozinha em palco, e a celebração de Tennis Courts e Green Light, a neo-zelandesa conseguiu dominar um público que notoriamente encheu o Parque da Cidade para a ver. Consciente disso mesmo, ofereceu o espetáculo da noite. E todos agradeceram.

Agitador nato, a estreia de Tyler, the Creator em Portugal pecou por tardia. Os mais (e menos) atentos certamente se recordam da dimensão apocalítica dos graves atrofiados de Goblin, álbum de estreia de 2011 e das suas narrativas de sociopatia e violência que abalaram meio mundo… a verdade é que Tyler cresceu, tornando-se num dos maiores nomes do universo hip-hop. Ora, que sentido fará, agora que encontrou fama e fortuna, continuar a comportar-se como um Bart Simpson mal-educado (seja lá o que isso for), histérico e provocador? Sem nada a provar, Tyler continua igual ao puto que encheu de fumo o programa de Jimmy Fallon, numa actuacção verdadeiramente “game-changing” na narrativa do hip-hop norte-americano. E o público agradece, respondendo através de um violentíssimo mosh pit e berros sentidos a cada rima de temas como Who dat boy, sem a colaboração de A$AP Rocky e I ain´t got time pontos altos de uma atuação sem momentos mortos, brutal e caótica.

Sem mazelas de maior e histeria apaziguada, fica no ar a sustentabilidade de um espetáculo-experiência num momento em que a sonoridade de Tyler the Creator caminha para uma notória normalização.

A cada DJ Set de Jamie xx, mais seguros ficamos de que este é um verdadeiro exercício de “Shazam Porn” numa já longa tradição de nomes como Four Tet, Dan Snaith (Caribou/Daphni) e Floating Points.

Generoso como poucos, momentos como os que se viveram ontem são raros numa pista de dança … muito se diz que a pista é um lugar de celebração e de partilha (fluidos, experiências, corpos, etc.), mas raramente se apela à capacidade, pelo menos nos dias de hoje, de um disc-jockey formar um público e transmitir uma já antiga narrativa, ao jeito de um 101 da música de dança… é nesta capacidade de partilha que reside o encanto de ouvir um selector como Jamie xx, que, sem pudor, alterna entre o Garage, UK Funky, Bass Music, mas também o Funk e Disco Sound, sem se esquecer do House e do Techno.  Entre remisturas da sua autoria para os The xx, temas a solo, estranhas passagens por Ellen Alien, a já habitual presença de Miguel Barros/Pional ou até mesmo o piscar de olhos a Tim Deluxe, muitos foram os pontos altos de um DJ Set que terminou com Psycho Killer, versão “Stop Making Sense” dos Talking Heads. Bravo!

Texto de Leonardo Pereira e Miguel Marques

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