8/02/18

A economia portuguesa tem sido “periférica ao longo de décadas e décadas”

O livro do docente da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), José Reis, “A Economia Portuguesa – Formas de Economia Política numa periferia persistente (1960-2017)” apresentou-se à cidade, na quinta-feira, dia 8 de fevereiro, na livraria Almedina do Estádio Cidade de Coimbra. Dois dias antes foi lançado em Lisboa.

O jornalista Nicolau Santos e o docente da FEUC, João Rodrigues foram os oradores convidados a apresentar a obra, perante uma sala cheia, com muita gente a ter de ficar de pé.

Os anos de 2011 a 2015 em Portugal foram um período de ajustamento “muito duro para a generalidade das pessoas e para as empresas também”, afirmou Nicolau Santos. Mas, para além disso, na opinião do jornalista, o discurso “dominante na União Europeia” seguido “em dose reforçada”, pelo governo de então, do PSD-CDS, ajudou em muito a aceitar “com resignação” aquilo que estava a acontecer em Portugal.

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Nicolau Santos prefaciou a obra de José Reis, ao público presente explicou que uma das razões que o levaram a aceitar passou por na escola de Coimbra, na FEUC, se ter promovido o debate e contrariado o discurso dominante, seguido por outras universidade e “colegas jornalistas” de que “não havia alternativa”. O autor do livro, José Reis, foi dos que “mais batalhou contra essa orientação”, disse.

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A obra: a economia portuguesa nunca deixou de ser periférica de 1960 até hoje

O livro dá uma visão económica de Portugal desde 1960 até ao ano passado. Segundo o autor, a economia portuguesa tem sido de forma consistente “periférica ao longo de décadas e décadas”, revelou o orador. Desde 1960 até agora o país esteve sempre na periferia dos grandes centros de decisão europeus, embora “houvesse alguns momentos em que tenha parecido possível” deixar de estar  na periferia dos centros de decisão, informou Nicolau Santos.

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Segundo o jornalista, José Reis define no livro “quatro períodos diferentes de crescimento”: a industrialização limitada de 1960 a 1974, a fase da democracia entre 1975 e 1983, a integração na União Europeia entre 1984 e 1992 e o ciclo do euro entre 1993 e 2002.

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A partir da nossa adesão à União Económica e Monetária romperam-se “vários equilíbrios internos” e perderam-se instrumentos para os corrigir como a desvalorização do escudo, lembrou Nicolau Santos que destacou a tendência descendente quer do investimento quer do crescimento económico.

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O orador louvou o crescimento da economia nos últimos anos, ainda assim considerou que apesar do crescimento (ver gráfico I) a curva tem um declive descendente. Na opinião do autor do livro e também na de Nicolau Santos a crise pela qual temos vindo a passar “é de natureza diferente”, a partir de 2001 Portugal entrou num ciclo de “recessões sucessivas” enquando em períodos anteriores a seguir a uma recessão se seguia um período de crescimento.

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Gráfico I

Uma visão dos últimos quatro anos 

O crescimento económico, nos últimos anos tem sido “anémico”, embora positivo não permite confirmar se a tendência é de subida, no futuro, na opinião do jornalista.

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À RUC o jornalista diria à margem do evento que o crescimento da economia portuguesa nos últimos quatro anos é “bom” mas que não devemos criar “ilusões” porque também a Europa está a crescer e a economia portuguesa também “beneficia disso”.

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Nicolau Santos reconhece que o crescimento tem sido acompanhado pelo aumento do emprego, no entanto as áreas em que a economia se tem desenvolvido, turismo, imobiliário e construção civil não são as que promovem o emprego qualificado, mencionou.

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As regras para pertencer ao clube Europa mudaram 

O livro de José Reis também refere que na altura em que Portugal aderiu à UE para a adesão os “pressupostos” passavam por os países terem uma democracia parlamentar, não terem censura nem um estado policial. Havia ainda uma ideia clara de haver um alargamento solidário por parte dos seis países fundadores, com o apoio de fundos estruturais comunitários.

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Portugal beneficiou de fundos vindos da Europa para a indústria, para a agricultura, para construir a rede de comunicações, estas regras de solidariedade eram regras do “clube” dos seis. “Só que o clube mudou” de forma radical e as regras de hoje para um país “permanecer” na UE passam por “equilíbrios orçamentais” e as preocupações maiores vão para questões da área financeira”, destacou Nicolau Santos aludindo a uma das referências essenciais da obra de José Reis.

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O jornalista considera que a economia portuguesa produz pouco emprego qualificado o que leva as novas gerações em idade ativa a emigrar, para além disso há pouco investimento em Portugal, quer nacional quer estrangeiro (ver gráficoII). 

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Implicações da queda do Muro de Berlim e da entrada do euro na economia portuguesa

Antes de terminar o jornalista considerou ainda elementos que na sua opinião “mudaram de forma clara a economia portuguesa”, uma delas a queda do mundo de Berlim em 1989, a partir daí o investimento Alemão começou a deslocar-se dos países do Sul da Europa para os países de Leste. O último grande investimento em Portugal, da Alemanha realizou-se na Autoeuropa, lembrou.

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A entrada do euro, no início trouxe vantagens no acesso ao crédito mas provocou segundo Nicolau Santos uma perda de competitividade da economia portuguesa, hoje Portugal está no lugar 39 do IMD World Competitiveness Center entre 63 países.

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A entrada da China no Organização Mundial do Comércio

Com a entrada da Republica Popular da China na Organização Mundial do Comércio a industria têxtil portuguesa foi afetada por forte desemprego. O jornalista chamou a atenção aos que olham para a China “como um salvador de países” que a compra pela China de capital das grandes empresas de energia, saúde, de comunicação social, o banco BCP e seguros em Portugal devia ser vista com mais cautela.

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A representação da China nos conselhos de administração das empresas que tutela em Portugal “está lá para defender os interesses estratégicos” do Estado Chinês uma vez que a maioria do investimento chinês em Portugal vem de empresas públicas,  e não para defender o ponto de vista empresarial, na convição de Nicolau Santos.

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O discurso económico da Europa sobre o trabalho “é ideológico” e não tem “relação com a realidade”

“A Europa condiciona tudo e os nossos graus de liberdade”, esta semana a Comissão Europeia insistiu na necessidade da “flexibilização das relações laborais em Portugal”, um discurso recorrente para Portugal e para Espanha, um discurso “ideológico” e que não tem “nada a ver com a realidade”, na apreciação do jornalista e justificou.

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Se as recomendações da comissão são por razões de crescimento económico, a legislação em vigor em Portugal não impediu o crescimento económico dos últimos dois anos, afirmou Nicolau Santos.

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O jornalista destacou que quanto ao emprego, o país está a aumentar os postos de trabalho, podemos discutir “se é o emprego que queremos”, disse. No entanto acrescentou que a legislação que já existe “não impediu” a diminuição do desemprego.

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Algumas conclusões

A primeira forma de dependência portuguesa na economia portuguesa face ao exterior foi pelo “trabalho”, o ajustamento feito nos anos 50 e 60 do século passado passou pela emigração, e o ajustamento durante a crise recente foi também pela emigração de pessoas em idade ativa mais qualificadas e com a possibilidade de virem a ter filhos o que agrava a demografia e coloca problemas no futuro.

O orador apontou também na obra de José Reis, a necessidade de um outro olhar sobre as exportações, “não interessa tanto o que exportamos mas o valor acrescentado bruto que fica na economia portuguesa”, e dá o exemplo da Autoeuropa, “um caso de sucesso” mas em que o “valor acrescentado bruto que nasce em Portugal é relativamente baixo em relação a outros setores”, Quem está à frente são “onze ramos do setor terciário” se formos à procura do valor acrescentado bruto que fica no país.

Nicolau Santos concluiu com uma mensagem de esperança em relação ao que está a acontecer na economia portuguesa deixada pela obra que prefaciou. Para José Reis nos últimos anos com a solução política encontrada (PS, PCP e BE) tem sido possível uma recuperação centrada na “Economia Política”, que consiste na “ativação de uma politica de rendimentos que revaloriza o trabalho e dinamiza a procura interna”, sem esquecer o papel do Estado e da Administração Pública que inclui os serviços coletivos” e por fim o relacionamento “muito prudente” com a Europa.

Em momentos futuros vamos disponibilizar a análise “mais técnica” do docente da FEUC, João Rodrigues. A palestra de Nicolau Santos pode ser escutada aqui.

Isabel Simões 

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2018-12-15T10:13:08+00:00
Sat, 15 Dec 2018 10:13:08 +0000