14/06/17

RUC @ NOS Primavera Sound – Dia 2

© Hugo Lima

Numa programação sem nomes sonantes para o grande público, o único dia com um cabeça de cartaz suficientemente popular – Bon Iver – esgotou o recinto do NOS Primavera Sound na maior enchente da história do festival. Já com todos os palcos em pleno funcionamento, o recinto compôs-se desde cedo, com um relvado pleno a enfrentar os First Breath After Coma. Depois de uma crescente popularidade europeia, a banda de Leiria merece o estatuto e o público a que teve direito naquela sexta-feira, fazendo acompanhar o post-rock que os caracteriza por um conjunto de metais e Noiserv como convidado surpresa em “Umbrae”

O rock continuou a marcar o início de tarde, com os Pond e Angel Olsen a encher o mesmo Palco NOS. Regressados depois da estreia em 2014, num dos melhores concertos dessa edição, a banda spin-off dos Tame Impala vem mais crescida e com The Weather acabado de editar. Se a expectativa era alta, avivada pelas memórias desse concerto que nos roubou a Slowdive, Nick Albrook e seus companheiros acabaram por dissipar-se no grande palco mais solarengo, desbotando o psicadelismo projectado. A mesma dissolvência nesse calor intenso de fim de tarde acaba por fazer-se sentir também em Angel Olsen. A menina bonita do rock é competente no desfilar das suas canções, com a maioria de My Woman a fazer-se ouvir, mas ou o Palco é demasiado grande e a luz demasiado brilhante para o intimismo que necessita, ou a sua adaptação rock da herança Beach House não acaba mesmo por convencer.

Angel Olsen © Hugo Lima

Já a noite caía quando, em pleno rescaldo da confusão eleitoral britânica, os Sleaford Mods subiram ao Palco. (lido Palco ponto, doravante referido como ATP). Britânicos de gema, em sotaque e atitude, constroem em palco aquilo a que, pela experiência, talvez possamos chamar “hip hop de pub”. À direita, Andrew Fearn carrega no play do seu portátil e deixa as batidas soar, enquanto abana a cabeça, bebe uma lata de cerveja, mexe no telemóvel ou fuma um cigarro – sempre com a maior das dignidades. À esquerda, Williamson parece o irmão alcoólico de Sam Herring, cuspindo com uma cadência perfeita as suas rimas sujas e de dura crítica. Representando o Reino Unido profundo, sem barreiras de british politeness, repetem sem problemas “Fuck England”. Autênticos Daniel Blakes da música, são voz de um sistema corrompido, dos “jobseekers” e dos que “caem como a BHS”, e dos simultaneamente vitoriosos e derrotados eleitores de um Labour renovado. Inglaterra está morta, segundo eles, terminando o concerto com um convite às “boas pessoas do Porto” a render-lhe homenagem no dia do seu funeral.

Não é por acaso que, numa das suas intervenções, Bon Iver tenha dito que o Primavera é o “festival com mais classe do mundo”. O entorno do parque da cidade, com o mar de um lado e as frondosas árvores a ladear o recinto, de lago atrás do palco e verde colina a formar o auditório natural, já foi crucial em experiências anteriores, de Antony & The Johnsons a Godspeed You! Black Emperor. Distinto dos gigantes descampados de alcatrão que acolhem os palcos principais da edição catalã (e semelhantes a tantos outros por Portugal fora) o medo de um concerto intimista a céu aberto transforma-se no gosto de poder assistir àquela música, com aquela calma, naquela paisagem. Na segunda vez de Justin Vernon no Porto, depois de subir ao Coliseu em 2012, o parque foi o recinto perfeito para o receber, com o maior público registado no festival.

Desse primeiro concerto restavam memórias bem acesas de uma actuação arrebatadora, com o segundo disco ainda fresco e uma setlist centrada nesses ambientes florestais onde gravou For Emma, Forever Ago. Cinco anos volvidos ainda arrepia pensar no quase mantra de “Wolves” ou num frágil Justin Vernon, sozinho com a guitarra, a entregar-nos “re: stacks”. Com a edição de 22, A Million no ano passado, e depois de um longo hiato, Bon Iver surge de cara lavada, noutros preparos, com uma sonoridade que, mantendo a identidade original, se soube transformar e evoluir, amadurecendo uma vertente mais exploratória, com sonoridades electrónicas e a roçar muitas vezes o RnB.

Foi com esta nova roupagem que Bon Iver se apresentou no palco NOS, mestre de uma orquestra complexa, entre um conjunto de cordas, vários conjuntos de sintetizadores e os metais divergentes deixando fugir laivos de saxofone num fundo constante. A orquestração foi sublime, numa construção delicada, sobrepondo plano sobre plano, nessa renda detalhada dos novos temas. Naquilo que podia ter sido um concerto fácil de desfile de temas da vida de muitos, Bon Iver arrisca e lança-se na sua versão de 2017, pertinente e mais actual do que nunca. Exceptuando uma recta final de velhos clássicos, de “Holocene” a “Skinny Love”, estamos já no passo à frente e sem grande vontade de reviver o passado. Justin Vernon não é mais o coração partido isolado na cabana de campo, mas parte da estrutura frenética da música de hoje, e absorvendo tudo isso, continua a impor-se com a imensa beleza a que sempre nos habituou.

Skepta © Hugo Lima

O resultado eleitoral da noite anterior voltou com a subida de Skepta ao palco. Depois de ter cancelado a sua presença há dois anos no Festival Zona Não Vigiada, o britânico cresceu consideravelmente e afirma-se hoje como merecido representante do Grime, depois de coroar o género com um Mercury Prize pelo seu Konnichiwa. Do público ouviu-se “Jeremy Corbin”, mas ouviu-se também uma massa sólida a acompanhar as rimas de Skepta, a “energy crew” que entre mosh e aplausos mantinha a actuação explosiva. Se nos Estados Unidos o sotaque britânico do grime ainda se mistura a custo com o hip hop, em solo europeu as crews fundem-se num só grito brutal, fruto das periferias e numa evicção do politicamente correcto longe de populismos. A batida, bem diferente da constante que ouvíramos em RTJ, altera-se de tema para tema numa produção que deve tanto à música quanto a qualidade das rimas. Sem misericórdia, voltando a incendiar as vozes e os braços no ar, o hip hop voltou a marcar posição no parque da cidade, preparando o palco para a coroação definitiva no dia seguinte.

Nicolas Jaar © Hugo Lima

O dia terminou com mais um encerramento electrónico de grande produção de palco. Nicolas Jaar é um nome conhecido do público português. Com várias presenças em nome próprio e em festival, incluindo uma passagem pelo Primavera 2014 como Darkside. Em 2016 lançou Sirens, o esperado segundo álbum, e pelo caminho vários apontamentos como Nymphs ou Pomegranates. Mantendo a figura carismática, de inegável elegância e charme, sempre permaneceu fora do círculo pop da electrónica graças ao background intelectual – desde o estudo de literatura comparada a ser filho do artista visual Alfredo Jaar e da bailarina Evelyn Meynard, pupila de Merce Cunningham.

Se em disco a exploração electrónica cria malhas intrincadas e harmonias delicadas, de onde subtilmente emergem as batidas de dança, em pista conhecíamos-lhe a faceta mais soul e jazzística. Acompanhado de guitarra, saxofone e marimbas na sua primeira passagem pelo SBSR em 2011, ou de Carminho e Gisela João no Lux, o seu lugar atrás da mesa tendia sempre para as batidas de “Mi Mujer”, e para esse filtro de batida latina com que temperava a sua música. Desta vez, quando sobe ao imenso palco do NOS Primavera Sound, fá-lo sozinho, de lado, como alquimista perante as máquinas.

Em escuridão profunda, apenas com os LEDs a dançaram muito levemente em gotas de luz, os primeiros 15 minutos testam a audiência numa progressiva construção experimental, por vezes mais abrasiva, por outras mais harmoniosa, sempre belíssima. Quando o ecrã se enche com a sua figura invertida, num jogo de filmagens quase lo-fi, as batidas de “Governor” já se conseguiam escutar. Ao longo de uma hora e meia recebemos uma lição musical como poucas, com direito a divagações mais exploratórias, batidas mais pungentes e mesmo Nico sozinho de microfone na mão e na frente de palco a cantar “Three Sides of Nazareth”. Arriscando num registo longe do habitual, transporta pela primeira vez essa frágil matéria preciosa tão palpável nos seus discos, mas antes perdida no meio das batidas. Nunca vimos Nicolas Jaar tão bem, num pico merecido de carreira que o coloca lado a lado com os grandes nomes da electrónica, de Brian Eno ao sucessor Aphex Twin.

Texto: Guilherme Queiroz

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