14/06/17

RUC @ NOS Primavera Sound 2017 – Dia 1

© Hugo Lima

Como habitual a estreia do parque da cidade faz-se em ping pong entre os dois palcos principais, numa noite de cartaz aliviado e sem escolhas difíceis. Sendo quinta-feira, os relvados demoram a encher e é um modesto público que, sentado, recebe Samuel Úria e Cigarrettes After Sex, a quem compete abrir a tarde cinzenta. Num arranque lento e sem pressas, é só após a passagem (dolorosa) de uma dupla mal cozinhada de Rodrigo Leão com Scott Matthew que o cartaz se começa a revelar.

Miguel (que descobrimos ler-se com sotaque mexicano) encara o primeiro fim de tarde com um grande ecrã que se enche de chamas e ondas, num pouco de megalomania para começar a noite. Sempre de sorriso na cara, dança incessantemente pelo palco, contagiando o já composto público. Na primeira vez que o músico californiano se apresenta em terras portuguesas, num percurso pelos seus grandes temas, é recebido por uma multidão que canta a alta voz “Do you like drugs?” a “Let my love adorn you”. Se em disco se apresenta entre redes electrónicas e sintetizadas pop, no RnB que lhe conhecemos, em palco adapta-se a uma banda totalmente rock, com tudo a que tem direito. Num mundo musical cada vez mais dominado por este tipo de sonoridades, perguntamo-nos se continua a fazer sentido que a vanguarda da pop se renda ainda a formatos clássicos de concertos, onde se perde a delicadeza e brilho da pop em função do espectáculo. Os dias seguintes viriam a responder a essa pergunta.

Miguel © Hugo Lima

A noite estava já instalada e uma certa tensão habitava a colina cheia. Tudo estava a postos para o regresso de Run the Jewels, depois de um dos mais marcantes concertos da edição de 2015. “RTJ RTJ RTJ” – the crowd went – enquanto ao som de “We Are the Champions” Killer Mike e EL-P entram em palco. Não sabemos se as frases como “you are one of the best crowds we’ve ever seen” são ou não sinceras, mas poucos foram os nomes que, ao longo destes 6 anos, foram recebidos como estes dois naquela quinta-feira. Numa sintonia perfeita, público e Run The Jewels mantiveram-se sem parar durante uma hora, entre as piadas de Killer Mike, os gritos constantes de RTJ e a torrente de rimas que, quase inteligíveis, saiam da boca dos dois MCs. Killer Mike lidera as hostes como poucos, com um carisma de talk-show host, jogando com a maior simplicidade e bom sarcasmo de EL-P. Juntos, mesmo sem as grandes produções que veríamos nos concertos de encerramento, ou sem a originalidade ou genialidade de batidas de outros com quem partilharam o cartaz, marcaram a primeira noite e todo o festival pela força de uma performance sem falhas, pela celebração de um público fiel numa verdadeira coroação da nova vaga de hip hop norte-americano.

Run the Jewels © Hugo Lima

 

Regressamos à Costa Oeste, imersos no calor húmido à beira-mar, para um dos momentos mais esperados de todo o Primavera. Desde que Cosmogramma o estabeleceu como um dos mais relevantes artistas da actualidade, Flying Lotus cresceu de ano para ano, assumindo o estatuto de herdeiro dos grandes génios do jazz (da tia Alice Coltrane ao companheiro Herbie Hancock) na veia da comunidade negra californiana, marionetista nas entranhas do hip hop. Desde a sua esquecida passagem em 2012 pela tenda electónica do SBSR lançou dois álbuns aclamados, consolidou a sua editora Brainfeeder, criou uma dupla personalidade com Captain Murphy, produziu um filme, lançou Thundercat e ajudou a kitar a butterfly de Kendrick Lamar. Tudo isto longe de Portugal, aumentando a curiosidade dos que por cá acompanhavam o fervilhante percurso de Steve Ellison.

Finalmente, entre dois painéis de projecção 3D, já sem a sua caixinha mágica, Flying Lotus apresenta-se diante nós. Ciente da sua ausência, ciente também do sítio onde está, num Portugal amálgama de sons brasileiros e africanos, transporta-nos numa viagem que toca todos estes anos que nos separam. Das recém-lançadas remisturas de Angelo Badalamenti e Queen, aos arrepios que ainda causa o início de “Until the Quiet Comes”, há espaço para rap de Captain Murphy, remisturar Travis Scott, apresentar o tema de “Kuso”, saltar em “Pretty Boy Strut” e cantar “Do The Astral Plane” com ecos de Pharaoah Sanders. A partir daqui Ellison mostra-nos o que anda a ouvir, e em formato quase DJ set discorre sem pausas por apitos e berimbaus do samba brasileiro às batidas nas noites príncipes. Como que hipnotizados pelas projecções, ninguém acredita que está a pisar o chão. As palmas fazem-se ouvir e o público acompanha para “Never Catch Me”, que encerra com chave de ouro a actuação do mestre. Podemos não ter já Miles ou Sun Ra entre nós, mas em 2017 FlyLo sabe ainda o caminho das estrelas para nos levar até ao mesmo espaço de onde vieram.

Flying Lotus © Hugo Lima

A noite terminaria com Justice, a dupla francesa que em 2007 conquistou as pistas de dança e coloriu as juventudes de muitos dos que transformaram o encerramento da primeira noite num club a céu aberto. No ano passado lançaram Woman, pouco aclamado e criticado por se assemelhar a uns Daft Punk reciclados. Mas se estes últimos temas dominaram o set, num contínuo porque os aplausos atrapalham a dança, magistralmente deixavam-se intervalar pelos primeiros singles. “D.A.N.C.E” ou “We Are Your Friends” continuam a incendiar noites. No mais espectacular set de luzes que vimos passar por aquele palco, numa performance em modo quase rock star com coreografia perfeito e culto daquelas duas silhuetas que cortavam as luz, os Justice superaram todas as expectativas na entrega de uma festa sem precedentes.

Texto: Guilherme Queiroz

Justice © Hugo Lima

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