14/10/16

RUC @ Out Fest 2016

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“Com a vida nocturna dominada pela ‘movement agenda’, já não se fala em música” – confessava-nos Jamal Moss. “Era na pista que os marginados encontravam o seu lugar, fora da loucura do mundo exterior, onde a música albergava todos e era o essencial. Agora que essa loucura invadiu a pista, para onde vão eles agora?” O Out Fest pode ser uma boa resposta.

À 13ª edição, o festival de música exploratória solidifica um confiante lugar cimeiro na agenda nacional, com uma programação transversal entre novas apostas e velhos clássicos. No singular Barreiro, mostra que o Sul do Tejo está longe de ser um deserto. A cidade industrial acolhe-nos de braços abertos, com concertos que passam por um club de jazz, um convento, um auditório municipal e culminam na ADAO – Associação para o Desenvolvimento das Artes e Ofícios. Esta última, monumental ruína fabril e filho da tradição corporativista, paredes meias com a linha de comboio, assume-se como autêntico caldeirão artístico. Se em baixo, além do jardim de esculturas metálicas, a Sala da Oficina e a Sala Grande acolhem os concertos principais. O andar de cima é um submarino amarelo onde cada sala contém um universo próprio. Cada espaço decorado de sua forma, entre instalações e pinturas, do clássico decadente ao futurismo incandescente, espreitavam concertos pontuais, da electrónica hinagógica do Ondness ao jazz sem fronteiras dos Gume.

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Ondness – © Vera Marmelo

Festival de Música Exploratória. Num mundo saturado de som e informação, com a produção musical a transbordar, o que há ainda por explorar? O veterano Jaki Liebezeit, fundador dos Can, não pára de procurar “aquilo que há de comum em todas as culturas, que nos é estrutural como humanos”. Hans Joachim Imler diz-nos que o que falta é “confiança”. Em paralelo, Jamal Moss tenta cruzar a última fronteira da “música como terapia, como cura”. Sem limites de género, cada espaço e concertos comunga este espírito, unindo-se em torno da música e dela só.

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Peter Kember – © Vera Marmelo

“Walking… and falling… at the same time” – repetia perdido em sons Pete Kember. Como Experimental Audio Research abria o caminho simultaneamente queda no buraco do coelho da Alice. Puxados por essa estranha gravidade seguimos o psicadelismo hipnotizante projectado na tela. Numa complexidade de sons tão grande, o ouvinte vê-se também como criador, seleccionando as camadas e planos por onde caminha, e cai, neste labirinto sónico. “EAR é onde os géneros deixam de existir, onde encontramos música clássica ao lado dos My Bloody Valentine” – e cruza sagrações da primavera com distorções sintetizadas, lullabies infantis e rasgos rock a remontar aos Spacemen 3. Kember, na sua calma e serenidade, perdido entre as máquinas, concentra em palco todo esse mundo auditivo que o levou através das portas da percepção, da garagem onde com Jason Pierce começava a brincar com o fogo, ao estúdio onde levou Panda Bear ao encontro da morte.

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Irmler/Liebezeit – © Vera Marmelo

No velho Jamboree, numa Barcelona industrial franquista dos anos 60, um “tipo freak” chegou ao pé do jovem baterista alemão que há 5 anos ali tocava free jazz. “Deixa de tocar isso. Tens de tocar ritmos monótonos”. Mais de cinquenta anos passados, a busca pela monotonia continua a ser a força motora de Jaki Liebezeit. “É como um rosário, um mantra”. Este ritmo constante, galopante, base dos Can, alia-se a outro monumento da Kosmische Musik – Hans Joachim Irmler. O dono das teclas dos Faust, criador da dimensão espacial e harmónica que conhecemos dos fundadores do krautrock.  “Mais amante da musique concrète e do grande maestro Stockhausen que dos minimalistas americanos” – é também ele maestro por trás da máquina que construiu, mais que um simples sintetizador. Enquanto Jaki nesse rosário de percussão, Joachim constrói telas e texturas, numa experiência que roça a cinestesia. Embalados pela bateria, há muito que descolámos do Barreiro. Muito além da figura histórica, em palco vemos a prova viva do que moveu toda uma geração de juventude alemã na década de 70, e com o poder de revolucionar muitas mais.

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Acid Mothers Temple – © Vera Marmelo

Na senda da música exploratória, continua a fazer sentido recuar e a perceber que é muitas vezes no passado que encontramos o que faz sentido seguir, e explorar, ainda hoje. A loucura em combustão dos Acid Mothers Temple é exemplo disso. Décadas depois de encabeçarem a revolução psicadélica japonesa dos anos XX ainda aterram alienígenas em palco. Kawabata Makoto, com os seus cabelos e barba branca, é autêntico xamã, quase em dança samurai entre as teclas e o theremin, à frente de um exércio nipónico, sempre sorridente, com direito a sideman transformista de peruca rosa e corpo de 50 anos a contagiar a euforia. Entre a festa à la Rock n Roll Circus e a imersão em densas paisagens sónicas, o riff das guitarras leva-nos na crista do tsunami de Kanagawa. A aventura é descontrolável, em crescendo explosivos, enrolando uma Pink Lady Lemonade com a OM Riff From the Cosmic Inferno. Em pleno séc XXI a nave espacial comandada por Kawabata continua a derreter paraísos espaciais.

Coube a Jamal Moss, aka Hieroglyphic Being, encerrar a noite. Consigo trazia “The Disco’s of Imhotep”, último disco do seu infindável catálogo onde é médico, arquitecto e governador – tudo aquilo a que Imhotep compete. Num bypass directo entre a pista e esses espíritos ancestrais onde navega Sun Ra, mergulha os corpos num transe contínuo. Entre a base de Chicago, divagações em piano e batidas mais ácidas, mostrou atrás da mesa o que dizia ser “música como terapia, como cura”. O Out Fest fechou mais um ano “centrado na música”, com muitos caminhos ainda por explorar.

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Hieroglyphic Being – © Vera Marmelo

Texto por Guilherme Queiroz

Fotografias por Vera Marmelo

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