28/08/16

RUC @ Vodafone Paredes de Coura 2016

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Nas vésperas do festival propriamente dito, foram 4 os dias em que este subiu à Vila, numa espécie de aquecimento para os muitos que, como é habitual, vão ocupando a agradável zona de campismo. Em 4 espaços diferentes passaram maioritariamente nomes emergentes portugueses (como Pega Monstro, Galgo, Duquesa e Quelle Dead Gazelle), sendo a excepção os históricos do soul-rock americano, The Bellrays e os ingleses, ainda que liderados por um português, Time For T. As noites eram sempre fechadas por um DJ, dos quais é de destacar, na última noite, o conimbricense A Boy Named Sue.

A primeira impressão aquando da chegada ao recinto no dia 17 ficou marcada por dois olhos mecânicos gigantes, um de cada lado do palco principal, em baixo dos quais se encontravam dois ecrãs não tão gigantes assim. Para quem prefere ou apenas consegue ver os concertos longe do palco (como o próprio terreno convida) esta foi claramente uma má solução. Mesmo a boa ideia de projectar a filmagem em directo na tela gigante que serve de fundo ao próprio palco, foi demasiadas vezes sabotada pelo irritante desfasamento entre som e imagem.

Como já se percebe, o primeiro no recinto da Praia Fluvial do Tabuão, começou a meio gás. Se, por um lado, já se contava com isso devido a estar em actividade apenas um palco, por outro, o que não se esperava era a qualidade de som que muito deixou a desejar. É um facto que aos músicos não se pode imputar falta de empenho e entusiasmo, mas quem queria ver Best Youth, Minor Victories e Unknown Mortal Orchestra sofreu bastante com as deficiências sonoras. Nos portuenses, a definição das vozes ficou aquém, no super-grupo de Justin Lockey (Editors), Rachel Goswell (Slowdive, Mojave 3) e Stuart Braithwaite (Mogwai), a guitarra não se ouviu durante os primeiros 3 temas e o quarteto americano resultou demasiado confuso, com a voz de Ruban Nielson a variar constantemente de volume e as teclas a sobreporem-se demasiado. Enfim, foi pena porque eram concertos bastante aguardados por um público que, ainda assim, se mostrou agradecido.

Ainda acerca deste dia inicial, infelizmente só chegámos a tempo de ver o final de We Trust ft. Coura All Stars, uma óptima ideia da organização que encomendou a André Tentúgal a missão de encabeçar uma orquestra de 100 jovens de Paredes de Coura em palco. Palco esse que foi encerrado pela minuciosa amálgama estilística e sonora dos Orelha Negra.

No dia 18 estreou-se o Palco Secundário e, por lá, muito bem o trio da espanhola Joana Serrat, com a sua folk cantada em inglês e um semi-acanhado e semi-descontraído contacto com a audiência. Em grande contraste, os explosivos Bed Legs, com um rock bem musculado e de peito aberto para o muito público que os acolheu em festa. Nem uma repentina tendinite no baixista travou o impulso dos bracarenses. Por este palco passou ainda o subversivo gospel e blues dos americanos Algiers e ainda a pop electrónica da londrina Shura que teve o ingrato papel de substituir Sharon Jones & The Dap-Kings, arredados do festival pela doença da sua líder e vocalista.

Já no grande auditório natural, este foi, a grande distância, o dia mais sólido e forte de todo o cartaz. O cantor e virtuoso guitarrista Riley Walker abriu o palco, trazendo de Chicago uma folk de grande componente instrumental, onde se destacou também a mestria e sensibilidade do baterista português Gabriel Ferrandini. Um excelente concerto para ver com o sol a pôr-se por detrás da verdejante colina. Seguiram-se Whitney, também eles de Chicago. Confessaram estar há 24 horas sem dormir mas talvez isso tenha até ajudado à libertação para um ambiente descontraído que transportaram do palco para o público. A voz de falsete de Julien Ehrlich enquadra-se perfeitamente nesta espécie de lounge-pop, ideal para quele cenário e aquela hora.

Os sons mais pulsantes e esmagadores estavam ainda para vir. Primeiro com Sleaford Mods e a sua formação anti-festival: um MC e um comparsa que se limitava a disparar as faixas de um pequeno computador portátil. Sim, apenas isso, nenhum cenário, nenhumas luzes, nenhum instrumento, nada. Mas a verdade é que Jason Williamson chegou e sobrou, numa mistura de Mark E. Smith, Jello Biafra e Henry Rollins, debitando compulsivamente palavras anti-sistema e aproveitando até para pedir desculpa pelo Brexit da sua “Little Britain”. Seguiu-se o regresso a Paredes de Coura dos Thee Oh Sees, desta vez no palco grande. E grande foi o concerto deste quarteto americano liderado por John Dwyer e brilhantemente secundado por uma secção rítmica composta por 1 baixista e 2 bateristas. Uma locomotiva imparável e impecavelmente sincronizada que, ainda assim, deixou espaço para os mais diversos devaneios sónicos e manobras arriscadas com a já característica Gibson SG transparente de Dwyer. Finalmente, o enormemente aguardado regresso dos LCD Soundsystem. O colectivo nova-iorquino encabeçado pelo “maestro” James Murphy deixou bem claro, desde o início, ao que vinha: transformar o recinto numa enorme pista de dança. Para tal muniu-se de uma igualmente enorme bola de espelhos e de uma parafernália de instrumentos que os 7 elementos em palco iam conduzindo durante longas sequências de combinação perfeita entre a pulsão da electrónica e a personalidade orgânica dos instrumentos e das vozes. Público ao rubro, com LCD e Paredes no seu melhor.

E como depois de uma festa como esta é obrigatória uma after-party, os canadianos Suuns tomaram conta do serviço, juntamente com Branko e Rastronaut, a celebrarem 10 anos da editora Enchufada.

O dia 19 começou com a notícia de uma intoxicação de dezenas de pessoas, transportadas para o hospital. Num evento onde as fontes de intoxicação podem ser claramente outras, não deixa de ser irónico que esta tenha vindo de uma fonte de água presente no campismo e, ao que parece, sinalizada como imprópria para consumo.

Mais do que própria foi a escolha de Kevin Morby para abrir o palco principal neste penúltimo dia. O indie-rock contemplativo do americano e dos seus 3 músicos assentou que nem uma luva naquele contexto, ele que revisitou a sua discografia e que avisou que voltaria em breve ao nosso país, onde talvez possa apresentar um dos temas novos que desta vez já não teve tempo de tocar. Os Crocodiles tentaram entusiasmar a assistência com o seu garage-shoegaze-powerpop, mas o concerto revelou-se algo morno, apesar de o público ter até alegremente acedido ao convite para cantar o Parabéns A Você ao baterista da banda.

Por esta altura tinham já tocado no Palco Secundário os leirienses First Breath After Coma a mostrarem um pós-rock cada vez mais maduro e apelativo, bem como os representantes do eixo Coimbra-Leiria-Lisboa, Sean Riley que muito sentiram a amarga ausência do Slowrider Bruno Simões naquele sítio de que tanto gostava. Entregaram-se com grande intensidade e fazendo uso do seu multi-instrumentalismno, tendo também ajudado a participação do amigo Paulo “Tigerman” Furtado. Seguiram-se os Psychic Ills, num dos concertos menos cativantes de todo o festival, o que só facilitou a decisão de regressar ao anfiteatro para ver o que nos reservavam os King Gizzard & The Lizard Wizard.

O septeto australiano, também ele com dois bateristas impecavelmente sincronizados, não deixou ninguém indiferente. Os muito seguidores, já previamente convencidos, aglomeraram-se à frente, naquele que foi o maior mosh pit do festival, ao qual se somaram dezenas e dezenas de crowd surfers. Mas o restante público, que não os conhecia ou que estava apenas curioso, rendeu-se ao misto de psicadelismo, heavy metal e math rock: imagine-se um cocktail de Mr Bungle, Battles, Megadeth, Jethro Tull e não andaremos longe do resultado final. Ainda meio atordoado, o público voltava-se de novo para o palco secundário para assistir ao regresso a Portugal do holandês Jacco Gardner. A sua dream pop com laivos psicadélicos foi o contraste perfeito para recarregar forças através de melodias doces e orquestralmente construídas pelos 5 músicos em palco.

Para acabar a noite de concertos faltavam os The Vaccines e os Cage The Elephant. Os londrinos não desapontaram os seguidores fiéis que têm no nosso país, apesar de ter sido um concerto em que a energia da banda parece nunca ter passado a 100% para o público. Já os americanos não permitem, sob sua honra, que tal aconteça. Enquanto uma pessoa no recinto não estiver dentro do concerto eles não descansam, principalmente o vocalista Matt Shultz. Talvez por isso tenham sido convidados a regressar, 2 anos depois de pisarem pela primeira vez aquele palco.

Os The Vaccines tiveram uma segunda oportunidade de contagiar a audiência, mas com um DJset de fim de noite no palco secundário, onde esteve também o produtor, DJ e músico português Luís Clara Gomes, ou seja, Moullinex.

Finalmente, chegou o dia 20, a encerrar o festival. Pelo palco secundário passaram os bracarenses Grandfather’s House, os russos Motorama e ainda a combinação explosiva de guitarra e bateria de Filho da Mãe & Ricardo Martins. Mas o grande destaque da noite, talvez pela surpresa da imediata empatia entre banda e público, foram os ingleses Cigarettes After Sex. O seu slow-core transportou os mais velhos para o início dos anos 90 e os mais novos para um planar melancólico cujos resultados surpreenderam a banda e também aqueles que temiam o encaixe de sonoridades tão amenas naquele horário.

Já no palco principal, a tarde terminou com o punk rock dos The Last Internationale, de Delila Paz e Edgey Pires, e com o rock psicadélico-beatleiano dos lisboetas Capitão Fausto, que encaixou melhor naquele horário do que a energia genuína dos nova-iorquinos. Mas a grande parte do público aguardava pela noite e pelos últimos 3 concertos que iam acontecer no magnífico auditório natural: The Tallest Man On Earth, Portugal. The Man e Chvrches. Da Suécia chegou a música de influência folk, liderada por Kristian Matsson que conseguiu encher as medidas a quem aguardava pelo concerto, mas que não conseguiu conquistar muitos mais. Já dos Estados Unidos vieram os Portugal. The Man que não atingiram um patamar muito mais destacado, apesar da sua pujança mais ligada ao rock com alicerces nos 90’s (que até deu para incluir uma versão, um pouco deslocada, de Oasis).

Esse dia, que se revelou o menos interessante e forte de todo o festival, uma espécie de anti-clímax que serviu de espelho à falsa partida que a qualidade de som provocou no primeiro dia, terminou com os escoceses Chvrches. Se Glasgow nos habituou, ao longo das últimas duas décadas, a bandas lo-fi e introvertidas onde a grande excepção talvez sejam os Franz Ferdinand, soma-se agora o trio Martin Doherty, Ian Cook e Lauren Mayberry que, com a sua pop electrónica orelhuda que apela à dança sem complexos. Contudo, as suas músicas, apesar de enérgicas, revelam-se algo insossas e apenas serviram para ir acabando a noite e fazendo as pré-despedidas do festival.

O definitivo adeus esteve a cargo dos suecos Lust For Youth e os seus sons electro-pop, bem como do chileno Matias Aguayo radicado na Alemanha onde se introduziu nos meandros do techno que trouxe consigo até Paredes de Coura.

Em resumo, assistiu-se a um cartaz equilibrado mas não arrebatador, que deu origem a 2 dias bastante fortes e sólidos, contrabalançados por um primeiro que infelizmente apenas serviu para fazer o aquecimento e por um último que, à partida, já se suspeitava ser o menos cativante. Para o ano, aquele que é talvez o melhor dos grandes festivais portugueses celebra o seu 25º aniversário. E será certamente mais uma semana de couraíso.

Texto de Ricardo Jerónimo

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