19/08/16

RUC @ Bons Sons 2016

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Viver bons sons na aldeia da música portuguesa

Fomos viver a aldeia e “tomar” o pulso à música portuguesa. Foram quatro dias em Cem Soldos, uma aldeia que se une em torno de uma causa, “oferecendo” a quem por lá passa em agosto o festival mais original do país.
Aqui tudo é possível, desde que feito por portugueses. A música que por aqui se escutou nestes quatro dias (12, 13, 14 e 15 de agosto)  não olha a estilos e agrada a todos, independentemente do género. Cada um dos que por ali passou, tem obviamente bandas mais do seu agrado, mas ao deixar Cem Soldos, vai trazer com certeza mais algumas na bagagem. E quem está disposto a vir ao Bons Sons, vem na certeza de que vai lá para ouvir, por exemplo, fado, pós rock, pop, tradicional, ou electrónica, entre muitos outros géneros musicais. E sabe que por estas bandas tudo o que se escuta é feito aqui neste país, independentemente de ser cantado em português e de ter  mais ou menos afinidade com a nossa tradição.
Este foi o ano da décima edição do festival. Repetiram-se 10 bandas. Foi o ano de afirmação para o Bons Sons,  provando que é possível sonhar e fazer acontecer magia numa aldeia que não estranha a musica, nem as suas gentes se incomodam com os flashes que são disparados. E ano após ano, todos se unem, preparando a casa para receber em comunhão quem a visita.
Se quando tudo começou, dúvidas haveria quanto à viabilidade de fazer um festival apenas com bandas nacionais, ficou mais uma vez provado por a + b que o sonho tem pernas para andar e o festival que é agora anual até já inspirou alguns outros  que  entretanto nasceram.
Música – é disso que vive essencialmente o Bons Sons. Dos concertos que acontecem na igreja, no coreto, na eira, no auditório e em mais alguns palcos espalhados pela aldeia. Por aqui passaram grandes artistas, dos mais consagrados aos que estão em fase de se afirmar. Todos eles brilharam. Uns mais do que outros. Não assistimos a maus concertos. Saímos foi de alguns deles de coração mais cheio.
Vamos então desbravar a matéria  musical que  nos no fez viajar a Cem Soldos. Das restantes ativides, e elas são muitas, fica apenas a certeza de todas elas terem corrido pelo melhor.

Indignu

Indignu

Dia 1

Arranque na igreja, com as escolhas da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. Os primeiros a subir ao altar foram os Alentejo Cantado. Trazem na alma o cante alentejano e a espaços juntam-lhe uma guitarra campaniça. De seguida o pop simples e aconchegante de João e a Sombra. Duas guitarras acústicas,  uma bateria simplificada e letras cantadas em português, cativam as almas. Já fora da igreja no palco Giacometti as manas Pega Monstro. As meninas trazem na carteira uma musica já mais limada e menos gritada, para guitarra e bateria. O seu rock de amor e ódios passou um pouco despercebido nesta primeira tarde de festival. Quem gosta aplaudiu, os restantes foram saindo para outras paragens. Neste primeiro dia de cartaz, passagem pelo palco Lopes Graça dos Danças Ocultas e da Filarmonia das Beiras. Pena que as concertinas se tenham perdido no meio da orquestra, fazendo o concerto oscilar. Contudo, uma agradável mistura entre o som mais tradicional das concertinas e o lado mais clássico da orquestra. A destacar a animadíssima atuação, no mesmo palco, dos repetentes Kumpania Algazarra, que com um som que nos remete para filmes de Kusturica, deram um belíssimo  e empolgante concerto. A apresentar o segundo disco passaram pelo palco eira os Sensible Soccers, ofertando a todos um som que mistura, pós rock, krautrock e psicadelismo. Prestação sem espinhas.

Birds Are Indie

Birds Are Indie

Neste primeiro dias os destaques vão para as actuações de Birds Are Indie, Indignu e Best Youth. Os primeiros, voltaram a Cem Soldos para apresentar o mais recente disco. A sua pop de contornos mais intimistas, agarra-se à nossa alma e faz-nos  levitar. Em frente ao coreto uma imensa plateia, deixa-se evolver de tal maneira, que se levanta do chão para cantar e dançar os temas mais abertos dos Birds Are Indie. A banda comove-se. O povo aplaude. Cresceram os Birds are Indie.
De Barcelos chega o pós rock dos Indignu.  A banda prima pela diferença ao juntar ao  o som  de dois violinos à densa camada musical que constrói. Passam a matéria dada em revista e mostram dois temas do próximo Ophelia a sair em outubro. Concerto feito de grandes momentos. Um lado mais intenso trazido pelas guitarras. E um lado mais apaziguador trazido pelos instrumentos mais clássicos. Um belo e feliz casamento que deixa marcas na plateia.
O synthpop dos Best Youth, foi servido na eira. Sons a ritmarem o corpo, numa prestação contagiante, que prova que  a música delicodoce da banda tem já inúmeros admiradores. O grupo agarrou a multidão e  presenteou todos com uma prestação em que se entregaram de corpo e alma.

Best Youth - 1º dia

Best Youth

Dia 2

Na igreja de Cem Soldos, os dois elementos de Os Tunos, trazem o momento mais kitch do festival. Som anos 60, tipo Shadows ou Conjunto Mistério, para guitarra e teclado. Entre originais, versões de Toni Carreira e Delfins, que a plateia a canta. De Leiria vieram para o palco Tarde Ao Sol os Few Fingers, liderados por Nuno Rancho. Concerto certinho, onde mostraram o seu indie folk.

Adufeiras do Paul - 2º dia

Adufeiras do Paul

Os Lavoisier debitaram um dos mais  belos momentos do festival no palco Giacometti. Com apenas uma guitarra elétrica e voz,  o duo consegui encher o espaço soltando originais e recriando de forma peculiar alguma da nossa musica tradicional. Valeu a pena terem voltado à aldeia. No palco eira ao inicio da noite, os Lodo, que jogavam em casa, desiludiram pelo facto de deles se esperar, e a julgar pelo EP de estreia, serem uma banda de pós rock. Afinal têm temas cantados que ficam uns furos abaixo dos outros. A prestação contudo não teve falhas a apontar. O primeiro momento de fado coube a Cristina Branco, que ladeada por músicos alguns deles ligados ao  jazz, faz a o seu fado voar para outras paragens. Foi um enorme momento, que só  se estranhou, aqui e ali,  por alguns dos temas  apresentados serem do próximo disco. Mas a provar  pelo que se escutou o  disco que está para chegar  vai ser cinco estrelas. Para os lados da Eira, Da Chick oferece ao povo canções em formato funk. Concerto com agradáveis momentos, que o  público agarra quando a artista  canta os singles ou injeta versões de temas mais conhecidos. A menina em palco é frenética e isso faz toda a diferença. A fechar a noite os Deolinda sobem ao palco Lopes Graça, para apresentarem os seus melhores temas, que são entoados por rapaziada mais nova, e gente mais entradota. Concerto ao nível do que nos habituaram. Portando, uma boa prestação.

Grutera

Grutera

Os três destaque do dia para os concertos das Adufeiras do Paul, Grutera e  Tiago Pereira. As Adufeiras provam que a tradição ainda é o que era. Grupo de senhoras,  que traz a tradição no avental. Canções acompanhadas essencialmente por adufes, trazendo o canto popular à igreja. A assistência aplaude de pé.
No coreto Grutera manuseais com excelência a sua guitarra acústica. Abraça-se a ela e nesta tarde toca com uma raiava que embeleza a prestação. As poucas palavras que diz ente temas deixam antever uma paragem no percurso musical. E a comoção engrandece a prestação.
Em frente à igreja Tiago Pereira dos Roncos do Diabo, cativa uma enorme moldura humana apenas com o bombo que toca freneticamente até lhe faltar o fôlego. Dirige-se  a quem assiste, pede para cantarem e fazer ritmos com o copo. É correspodido. Um catraio sobe ao palco e dança ao rimo das bombadas. Tão simples, tão genuíno e tão belo.

Tiago Pereira

Tiago Pereira

Dia 3

Na igreja de Cem Soldos a tarde começa com a pop enxertada de fok de Madalena Palmeirim, que conhecemos dos Senso Comum. Foi um belo arranque para este terceiro dia. No Palco Giacometti os Dear Telephone trazem um som indie com laivos de eletrónica, ofertando canções belas, mas por vezes deificais de absorver à primeira. Foi um concerto perfeito, servido por músicos de elevada qualidade. Seguimos para o auditório para concerto de piano e violino. Momento mais clássico do festival, com André Barros a apresentar temas compostos para bandas sonoras. De novo no coreto para assistir à prestação de Isaura, que teve à sua frente a maior plateia de todas naquele espaço. Belo momento de cruzamento entre a pop e a eletrónica, com a multidão a reagir de forma afável à música de Isaura. Carminho, foi a segunda voz de fado do festival, deixando  ecoar pelo palco Lopes Graça muitos dos seus maiores sucessos. Belíssimo momento que agradou  a todas as gerações. 

Tim Tim Por Tim Tum

Tim Tim Por Tim Tum

Na Eira, White Haus não deixaram os créditos por mãos alheias. João Vieira (esse mesmo, o dos X-Wife) e seus pares, numa belíssima actuação  espalharam eletrónica misturada com rock pelo ar. Um dos momentos altos deste ano. Antes dos Djs,  passagem pelo Lopes Graça dos Fandango, de Gabriel Gomes e Luís Varatojo. Deviam ter tocado a outra hora. Entraram de forma lenta e talvez por algum desconhecimento o público não agarrou um som que mistura o tradicional do acordeão e da guitarra portuguesa com ritmos bem dançáveis..
E ao terceiro dia destacamos Bonecos & Campaniça, Tim Tim Por Tim Tum e Keep Razors Sharp. Na igreja, uma guitarra Campaniça é tocada e bonecos são manuseados ao ritmo da música. Um resultado surpreendente e original, que deixa todos extasiados. No fim o aplauso ecoa pela igreja, como forma de agradecer aos Bonecos e Campaniça um momento que junta várias formas da nossa tradição.

Bonecos & Campaniça

Bonecos & Campaniça

O fim da tarde em Cem Soldos faz-se com o dialogo das baterias dos Tim Tim por Tim Tum, manuseadas por  quatro gigantes músicos. A saber: José Salgueiro, Bruno Pedroso, Marco Franco e Alexandre Frazão. Eles brincam, interagem entre eles, aproximam-se do jazz e da tradição, de uma forma muito própria, e até se  recriam  com os púcaros do festival. São enormes. Vai ficar na retina por muito tempo este concerto de percussão.
Em inicio de noite no palco Eira os Keep Razors Sharp, deixam cravado em nós seu rock psicadélico. Concerto curto e grosso, mas enérgico o suficiente para nos agarrar do principio ao fim. Som direto ao corpo, a deixar belas marcas.

Keep Razors Sharp

Keep Razors Sharp

Dia 4

O ultimo dia do festival abriu na igreja com Diego Armés. Concerto acústico, onde o artista misturou temas do primeiro disco com alguns novos. Neste formato  mais despido, a pop de Diego Armés, realça ainda mais as brilhantes letras que escreve. As manas Golden Slumber enfeitiçaram a aldeia com o seu folk intimista. Canções simples arrebataram o público, em frente ao coreto.  Rendidas à banda as gentes interagem com as meninas e o seus companheiros. No Auditório a improvisação ao piano de Joana Sá. Música e imagem numa sala escura e rendida às investidas que Joana fazia no piano.

Flak

Flak

Desbundixie é desbunda como o nome indica. Jazz tradicional de rua e que meteu todos a dançar no palco Tarde ao Sol. Sopa de Pedra calha bem à hora de jantar. Não a música tradicional à capela das Sopa de Pedra. Ficava tão bem este som ao final da tarde, e noutro palco que não o Lopes Graça. O trabalho de valor destas oito meninas merecia outra sorte. Les Crazy Coconuts, misturam o rock eléctrico e o sapateado. Já nos habituaram a grandes concertos Este foi mais um, em que a sensualidade, trazida pela Adriana, e a musica se aliaram de forma brilhante. Jorge Palma no Palco Lopes Graça em formato best of. Por isso mesmo a agarrar o povo, apesar de uma ou outra falha de voz. A seu lado um naipe de excelentes músicos a segurarem as pontas. Sabe sempre bem ouvir este senhor, a quem devemos dar todo o valor. O festival fechou com o baile metal dos Tochapestana no palco Aguardela. Som  para dançar, em apresentação kitch, eis a proposta deste duo.

Lula Pena

Lula Pena

No domingo grande destaque para Flak, Lula Pena e D’alva. Flak foi quem mais gente meteu na igreja. Com a sua forma de estar e de tocar cativou  todos. O seu gozo em estar ali, passou para quem via o concerto. Flak é um homem do rock com a devida pose, que contagia. Acabou a tocar Rádio Macau e levou a igreja ao delírio.
Lula Pena e a sua guitarra acústica são gigantes, no palco Giacometti. Sozinha, toca de forma diferente o seu instrumento, batendo nas cordas. Canta, igualmente, de forma singular, com uma voz que nos enche por inteiro. Entrelaça várias canções numa só. Do Brasil, de Portugal, da América Latina ou África. Lula Pena abraça a guitarra e respira a música que nos oferece. Todos se renderam e pediram mais.
O concerto do festival cabe aos D’Alva. Foi gigante esta prestação. Deixaram tudo em palco. Alex até ficou sem voz, e mesmo assim não se queria ir embora. Conseguiram agarrar o público, sem mais o largarem da mão até ao fim do concerto. Têm uma brilhante noção de palco e de plateia. São assumidamente uma banda pop, sem rodeios. Homenagearam o Bons Sons num tributo à pop, contando Lena D’Água, Dina e Linda Martini (genial versão de Amor Combate). Que pedir mais deles? Nada! Apenas agradecer a entrega total que tiveram e todo o suor que deixaram em Cem Soldos.

D'Alva

D’Alva

Assim nos despedimos de Cem Soldos e do Bons Sons. O calor foi muito, essencialmente o calor humano, de corpos que se uniram para ouvir música portuguesa. Estiveram na aldeia 32.000 pessoas para assistir a 50 concertos, e viver todo o resto que a aldeia tem para dar. E todos saíram com um sorriso estampado no rosto. Vale a pena viver um festival assim…. e acreditar nos talentos nacionais. Para o ano juramos voltar!

Texto e fotos de Nuno Ávila

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