20/07/16

RUC @NOS Alive ’16

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O festival NOS Alive chega à sua décima edição como um dos festivais obrigatórios em Portugal. Desde 2007 foram muitos os nomes grandes (e muitos outros que se foram tornando maiores) que pisaram os vários palcos instalados no Passeio Marítimo de Algés. Nesta edição houve regressos, estreias e a consagração de artistas que mereceriam outros horários. O festival cresceu, num processo que nem sempre beneficiou o principal motivo que leva a dias esgotados: a música. Se é verdade que o cartaz era um dos mais apelativos dos últimos anos, as escolhas que as sobreposições obrigavam a fazer deixaram a sensação de que mesmo no melhor concerto se estaria a perder algo ainda melhor, enquanto o excesso de público (e algum particularmente ruidoso) fazia temer não apreciar nas melhores condições a música debitada num volume um pouco abaixo daquele que este e outros festivais já nos habituaram.

Aquele que é hoje o festival mais internacional dos que se realizam por cá (com cerca de 32 mil bilhetes vendidos para 82 países diferentes e 106 jornalistas estrangeiros acreditados) e considerado como um dos 10 melhores festivais de música do mundo pelo canal norte-americano CNN, o ALIVE atingiu um ponto que pode ser considerado como uma espécie de “não retorno”, no sentido da dimensão qualitativa (com um alinhamento de fazer inveja a qualquer festival em qualquer sítio) e, em especial, quantitativa (com uma média de 55 mil espectadores diários, convém referir que em determinadas alturas e em certos palcos, conseguir circular foi uma tarefa pouco menos que impossível). Para a posteridade, ficam alguns momentos memoráveis, daqueles de fazer inveja a quem não esteve lá, mas também alguns nomes para preencher espaço no cartaz.

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Dia 1

Ainda que fosse o único dia do festival que não se encontrava esgotado, foram muitos os que acorreram ao Passeio Marítimo de Algés no primeiro dia do festival, certamente atraídos pelo regresso dos Pixies e de Robert Plant.

O dia abriu com o maiorquino L.A. (Lluis Albert Segura) no Palco Heineken (um dos seis onde decorreram concertos), que aproveitou para apresentar alguns temas do seu mais recente álbum «From The City To The Ocean Side», caracterizado por toadas pop-rock sem laivos de frescura num fim de tarde marcado pelo calor intenso.

À mesma hora, no Palco NOS Clubbing e em (aparente) substituição dos espanhóis Nudozurdo, actuavam os Baywaves, cuja pop electrónica sem sal não cativou por aí além o público presente.

Seguiu-se o alter-ego de Bruno Cardoso (do colectivo Discotexas e dos extintos The Vicious Five), Xinobi em regime “live act”, na companhia sempre respeitável de Ana Miró (Sequin) e de Jibóia, a transmitirem muita energia (através de uma máquina de electro-rock bem oleada) para o público que a devolvia em doses assinaláveis para os músicos.

Um dos nomes que mais curiosidade havia em (re)ver em palco era o dos norte-americanos Vintage Trouble (após uma elogiada estreia em 2014 no Meco). Movidos com uma energia tremenda de soul, funk e rock, tudo muito “suado” em palco, os Vintage Trouble, liderados por um carismático Ty Taylor, retribuem à mole humana (que preenchia abundantemente o Palco Heineken num fim de tarde solarengo a condizer com a música que se fazia ouvir) com uma entrega inexcedível, só ao alcance dos grandes nomes dos géneros citados. «1 Hopeful Rd.», o último disco do quarteto de Los Angeles, serviu de mote a uma actuação que teve em “Pelvis Pusher” (recuperado de «The Bomb Shelter Sessions») um momento de antologia.

De passagem, em trânsito para o palco principal, ainda deu para ver e ouvir um par de músicas debitadas pela dupla canadiana Bob Moses no Clubbing, com uma electrónica lenta assente no registo «Days Gone By» que se arrastava sem grandes atenções entre os presentes.

Chegados ao Palco NOS, o rock musculado do trio escocês Biffy Clyro era uma clara atracção para os compatriotas britânicos e não só. Em modo de avanço/apresentação de «Ellipsis», sétimo álbum da banda dos irmãos James e Ben Johnston e Simon Neil, a actuação pautou-se pela coesão sonora (por vezes algo repetitiva) onde se ouviram as novas canções do grupo, como o primeiro single “Wolves Of Winter” (logo no início), cuja velocidade sonora é bem representativa do trio, recuperando ainda canções dos registos anteriores «Opposites» e «Only Revolutions» (com destaque para “Bubbles”, “Mountains” e “The Captain”).

Mais uma volta, mais uma viagem, de regresso ao Palco Heineken para assistir à enorme voz delicodoce e ao talento na escrita de canções de John Grant, ex-vocalista dos The Czars. Com o terceiro disco «Grey Tickles, Black Pressure» ainda bem fresco nos ouvidos dos fãs, o autor do mui aclamado «Queen Of Denmark» (editado já lá vão seis anos) é dono de uma voz de veludo que irrompe, pontualmente, em devaneios mais dançáveis, resultando numa actuação portentosa, onde temas já clássicos como “GMF” e a canção que dá nome ao álbum “Queen Of Denmark” são um bálsamo para a alma e mel para os ouvidos para os milhares de espectadores que enchiam a tenda.

Quase à mesma hora, no palco principal evoluía uma verdadeira instituição da história da música em geral e do rock em particular, Robert Plant, que se fez acompanhar em palco pelos competentes The Sensational Space Shifters. A voz icónica de sempre dos Led Zeppelin, com mais de quarenta anos de carreira (mas que não se fazem notar quase nada nos momentos mais agudos das letras) revisitou um legado mais do que obrigatório nos manuais básicos de qualquer introdução à história da música. É verdade que temas como “Rock ‘N’ Roll” e “Whole Lotta Love” já não têm a pujança de outrora (ou, pelo menos, a falta da presença do companheiro de luta Jimmy Page faz-se notar demasiado), mas a grandiosidade daqueles riffs é verdadeiramente intemporal. E isso é mais do que razão suficiente para ver este senhor (qual lenda viva) onde quer que ele toque!

Antes de voltarmos ao Palco NOS para os principais cabeças de cartaz do primeiro dia de festival, houve tempo ainda para “picar” o “live” de Branko (patrão da editora Enchufada e mentor dos Buraka Som Sistema, cujo legado precisa de continuidade), que apresentou o resultado de «Atlas», verdadeiro compêndio das sonoridades electrónicas sem fronteiras feitas um pouco por todo o globo.

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E eis que sobe ao palco a banda da adolescência de muitos dos presentes, aguardada com a expectativa natural de (re)ver um dos nomes seminais na cultura musical indie, os norte-americanos Pixies. Longe da estreia em Portugal, corria o ano de 1991, o quarteto agora composto pelo vocalista e guitarrista Black Francis, Joey Santiago (guitarra), David Lovering (bateria) e a ex-Zwan e A Perfect Circle, Paz Lenchantin (baixo) apresentou-se em modo de quase “piloto automático”, disparando tema atrás de tema, apresentando um cardápio de canções marcantes ao longo de quase duas horas, percorrendo um legado iniciado em 1986, mas que só em 1988 se materializou em disco com o memorável «Surfer Rosa», do qual ouvimos “Bone Machine” (logo a abrir), “Gigantic”, “Where Is My Mind?” (momento de partilha colectiva) e “Vamos”, só para citar as principais. Como segundo tema, foi servida a versão habitual dos The Jesus and Mary Chain “Head On”, tema que já o ouvimos por aqui quando os escoceses tocaram na íntegra o clássico «Psychocandy» e mais um punhado de canções. Os momentos de «Indie Cindy» também foram revisitados, mas foi já na recta final com a já referida “Where Is My Mind?”, “Here Comes Your Man” e “Debaser” (momento de êxtase geral) que o público despertou mais para o que se passava em palco.

Tudo temas que valem por si mesmos, sem qualquer outro tipo de comunicação para além das letras e riffs directos, mas desta vez soaram algo monocórdicos, sem muito fulgor em palco, com um som que também não ajudou muito ao resultado final, apesar de terem cumprido, ao longo de vinte e nove (29!) temas, uma prestação para qualquer melómano ficar razoavelmente satisfeito.

No palco com mais electrónica(s) do festival, tempo para mais um regresso dos irmãos Dewaele, primeiro com a banda Soulwax e, pouco tempo depois, em modo dj como 2ManyDJs. No projecto que os deu a conhecer, mais orgânico, onde os ritmos electrónicos ganham um cunho mais humano através das batidas tonitruantes de três baterias constantes em palco, o resultado é francamente mais positivo do que na faceta de autênticos (des)constructores de canções feitas à base da mistura entre o electro e o rock, afinal de contas as duas forças motrizes dos seus sets.

Entre as duas actuações dos irmãos belgas, passagem pela prestação da dupla de Jeremy Greenspan e de Matt Didemus, os Junior Boys; mais um regresso dos canadianos com uma prestação algo morna, salvando-se uma componente visual bastante agradável. A electrónica com alma assente no mais recente «Big Black Coat» que se ouviu não foi suficiente para cativar os muitos presentes que se encaminhavam para o início dos segundos cabeças de cartaz do dia, os The Chemical Brothers.

chemical brothers

Tom Rowlands e Ed Simons são uma das duplas que mais consistência tem demonstrado ao longo dos cerca de vinte e sete anos de carreira que levam já, apesar de terem editado apenas oito discos de estúdio, o último dos quais «Born In The Echoes», lançado no passado mês de Julho. Já perdi a conta aos regressos que este ano houve no ALIVE, mas o da dupla de Manchester era sem dúvida dos mais aguardados, após terem fechado uma das noites da edição de 2011. A fórmula mais do que experimentada nunca falha, onde as batidas pulsantes se aliam na perfeição a um jogo de luzes e imagens nada menos do que fantástico, resultando numa experiência audio/visual avassaladora. Após uma versão inicial de uma versão algo obscura de Junior Parker (“Tomorrow Never Knows”) – o original é da dupla Lennon/McCartney, a quem os The Chemical Brothers “agradecem” no tema “Setting Sun” do registo de 1996 «Dig Your Own Hole», tema que ficou de fora deste alinhamento –, seguiu-se o primeiro estrondo da noite com “Hey Boy Hey Girl”, mas foi com “Chemical Beats” (resgatado ao primeiro e marcante «Exit Planet Dust») e a tripla “ácida” de seguida “It Doesn’t Matter”, “Saturate” e “Elektrobank” que o nirvana da sua actuação aconteceu. Receita ganhadora, apesar de começar a ser algo repetitiva, mas ainda sem adversários à altura.

A primeira noite terminaria em grande clima de festa, com a simbiose entre o rock e o kuduro, numa fórmula única que os Throes + The Shine têm vindo a apurar nos últimos tempos, provocando uma festa generalizada.

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Dia 8 de Julho

Há muito que se sabia que o segundo dia do festival se encontrava esgotado. Mas na chegada à estação de comboio de Algés, horas antes da multidão que se concentraria no concerto dos Radiohead, tinha-se essa confirmação com os vários cartazes que perguntavam por bilhetes para o festival. E apesar do calor que convidava a outras actividades, foram muitos aqueles que decidiram marcar lugar no recinto ainda bastante cedo.

Os Years & Years começaram no palco principal, e aos primeiros instantes percebia-se que não seria uma actuação particularmente memorável. Hora de mudar de palco e deixar de lado bandas para inglês ver. Ao mesmo tempo, o Palco NOS Clubbing, que nesse dia tinha a curadoria de DJ Kamala, contava com NBC, Sir Scratch e Bob Da Rage Sense. A actuarem em casa, passaram por alguns temas marcantes das suas carreiras (e alguns apontamentos do hip-hop nacional, como o medley onde se pôde escutar “W.O.M.B.”). Ninguém imaginava aos 41 anos estar a cantar hip-hop, já com alguma barba branca, diria NBC; o estilo cresceu e já é uma constante em praticamente todos os cartazes dos festivais portugueses. Quem assistiu deu-se por satisfeito, num concerto que não ficará na história principal do festival mas também não desiludiu quem vai acompanhando a carreira dos músicos ou simplesmente decidiu relaxar na sombra oferecida pelo Palco Clubbing. Mais tarde ainda, nota de destaque para a prestação conjunta de Mundo Segundo e Sam The Kid, dois nomes seguros do panorama a debitarem algumas das melhores rimas e com mais “flow”. Respect!

Quase ao mesmo tempo, o trio vindo de Sidney Jagwar Ma trouxe consigo «Howlin», primeiro registo dos australianos (compatriotas dos Tame Impala que actuariam mais tarde, com quem se aprestam para partilhar palcos numa digressão europeia) assente em matizes electrónico-psicadélicas, conseguindo provocar a primeira grande ovação do dia no Palco Heineken. Mais um regresso que se saldou em festa.

Numa das passagens pelo palco mais pequeno do festival (mas nem por isso de menosprezar), ouvimos o duo Elotee andar à volta de uma electrónica trabalhada a filigrana, acompanhada de vozes algo etéreas, resultando tudo numa sonoridade agradável para um final de tarde que esperava ainda por muitas guitarras.

Guitarras essas que se começaram logo a ouvir pela mão de outra representante dos antípodas, Courtney Barnett, para apresentar o bem recebido pela crítica e público «Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit». Apresentando-se em formato trio, o rock bem esgalhado de Barnett, cuja voz rouca e segura lhe confere um estatuto de destaque no meio feminino do género, é a prova de que a causa está bem entregue. A artista convoca nomes como os de Patti Smith e de Courtney Love (Hole), por exemplo, para uma mistura vocal à altura da importância dos nomes citados. O single “Pedestrian At Best” é claramente o ponto alto, onde o verdadeiro âmago de Barnett vem ao de cima e é tudo aquilo que se pode querer num concerto de rock: guitarras sujas, suor, cerveja e muito crowdsurf entre o público. Perfeito!

Dos Foals, banda britânica liderada por Yannis Philippakis, não esperávamos menos do que uma prestação segura que, pese embora prejudicada pela fraca qualidade do som que teimava em “fugir” dos ouvidos do público (aspecto que foi notado em diversas actuações), serviu para confirmar o quinteto como uma das formações nos consistentes do rock alternativo. Com o registo editado há pouco menos de um ano «What Went Down» a servir de base, os britânicos não descuraram o anterior e aclamado «Holy Fire», com “Providence” e “My Number” e “Late Night” a destacarem-se, juntamente com o hino que é já “Spanish Sahara”, datado de 2010, ano de edição de «Total Life Forever», disco que os pôs na ribalta dos grandes palcos.

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Ainda com o enorme concerto dado o ano passado em Paredes de Coura na memória, assistimos e saudamos (a)o regresso da banda que melhor representa os antípodas na actualidade no que à música diz respeito, os Tame Impala. O psicadelismo aplicado à pop e ao rock tem nos australianos uns representantes à altura, que fazem gala de um naipe de canções dignas deste tipo de eventos: festivas, enérgicas e com alma q.b. Com três discos lançados até à data, o crescimento e afirmação tem sido uma constante na banda de Kevin Parker.

Nangs” teve honras de abertura, mas o quinteto de Perth não esperou pelo fim do concerto para apostar no peso-pesado “Let It Happen”, tema que parece não querer acabar nunca (e que apetece que não acabe mesmo), servido logo a seguir, com a primeira explosão de “confetti”. A actuação estava já ganha, mas havia ainda muito para celebrar (no palco e, sobretudo, entre o público). Até à recta final, com a segunda explosão de “confetti” ao som da já clássica “Feels Like We Only Go Backwards”, antes do epílogo com “New Person, Same Old Mistakes”, os Tame Impala confirmaram todo o seu crédito ganho junto do público através de uma simbiose perfeita, com alguns elementos do público mais despudorados a mostrarem o seu “ânimo” a todos os presentes sempre que as câmaras focavam as atenções [email protected] (bastava uma câmara apontar para o público que as jovens vistas nos ecrãs decidiam levantar as camisolas, para surpresa de Kevin Parker). Brincadeiras que não retiraram por muito tempo a atenção dos jogos de luzes e projecções que contribuíam eficazmente para a imersão naquilo que realmente interessa – a música. Houve tempo ainda para “Apocalypse Dreams” e também recriar a colaboração com Mark Ronson (“Daffodils”) e o regresso ao primeiro longa duração, «Innerspeaker», apenas com o tema “Why Won’t You Make Up Your Mind?”.

Não fossem os principais senhores da noite chamar-se Radiohead, e teríamos aqui uns “headliners” à altura dos pergaminhos exigidos, aliando o psicadelismo a um cada vez mais apurado sentido pop, confirmando-se a cada concerto como uma das bandas nascidas nesta década capazes de merecer um grande palco e ter uma resposta tão efusiva do público. E sobretudo capaz de proporcionar um excelente concerto. Voltem sempre!

Depois da saída dos Fleet Foxes, Joshua Tillman dedicou-se ao seu alter-ego Father John Misty, qual reverendo que converte cada discípulo que tem à sua frente de forma absolutamente irreversível. É muito provável que, aos muitos e fiéis seguidores que enchiam o Palco Heineken, o norte-americano tenha conseguido mais uns convertidos à sua sonoridade folk-rock, com a veia americana omnipresente nas suas letras cheias de sentimento. O autor de “I Love You, Honeybear”, faixa que dá nome ao mais recente registo de 2015 e que foi servida quase no final de um concerto de verdadeira celebração e de comunhão, começou de forma desarmante com um belíssimo “Hollywood Forever Cemetery Sings” a dar o mote daquilo que se ouviria ao longo de onze momentos de autêntica reverência musical (estaremos perante o novo caso de fé e devoção a um artista estrangeiro? Apostamos que sim). A voz que canta uma certa América na sua vertente alt-country é um verdadeiro portento sonoro, como atesta “Bored In The USA” (servida a meio do concerto), onde aguenta o público num estado de quase êxtase e traz à memória (mais uma vez) a beleza indescritível que é o disco «I Love You, Honeybear». Quase mí(s)tico!

Representantes da miscelânea sonora que é o trap future bass & dubstep, o projecto nacional MGDRV demonstrou alguns dos caminhos que se podem vir a trilhar num futuro que está já aí. Mais um nome a evoluir no Clubbing dedicado a algumas sonoridades urbanas com carimbo nacional.

Enquanto no resto dos palcos não havia concertos (imposição da banda de Thom Yorke), o DJ A Boy Named Sue (aka Tiago André), nome ligado à Rádio Universidade de Coimbra e um dos dj’s com maior ascensão nos últimos tempos, serviu aos muitos estrangeiros que tinham preterido (pelo menos em parte) os cabeças de cartaz, uma selecção de muito bom gosto, assente em clássicos mais ou menos obscuros do rock ‘n’ roll. Uma verdadeira lição de uma parte importante da história da música.

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Se havia um regresso que era mais aguardado que todos os outros, muito provavelmente tinha um nome: Radiohead. Foram eles que provocaram uma das maiores enchentes de sempre nas dez edições que o ALIVE já tem em cima. Ao longo de mais de duas horas, a banda de Thom Yorke percorreu através de vinte e quatro temas (cada qual apontará este ou aquele que deviam ter tocado e que, por qualquer razão, ficou de fora de um alinhamento muito próximo da perfeição) um legado musical que é incontornável quando se fizer a história da música recente (desde 1985, pelo menos).

Depois de uma passagem em 2012 pelo mesmo palco, os Radiohead de 2016 traziam o mais recente «A Moon Shaped Pool» na mala, mas a prestação percorreu um legado que terminaria em êxtase para os mais puristas, com o tema de uma geração que é “Creep” (pertença da estreia «Pablo Honey», ouvida por estes lados passados doze anos da última vez, no Coliseu do Porto) e de “Karma Police” (do enorme «OK Computer»), com Thom Yorke de guitarra acústica, a fecharem o segundo encore. Do recente longa-duração, ouviu-se “Burn The Witch”, “Daydreaming”, “Decks Dark”, “Desert Island Disk” e “Full Stop” logo a abrir as hostilidades, ganhando músculo em relação ao som registado em disco. Mas foi com o ecoar de “My Iron Lung” que a primeira grande ovação ocorreu, com as memórias do longínquo ano musical de 1994 a baterem forte nos presentes. Antes do primeiro (e muito aguardado) “encore”, destaque particular para uma das canções mais emblemáticas e (des)construídas da banda: “Idioteque” soa tão bem que só nos apetece dar graças pelo brilhantismo que deve ter sido o processo criativo e de gravação do tema incluído em «Kid A». Até à primeira saída de palco, celebrou-se ainda ao som de “Bodysnatchers”, momento de vibração colectiva, e de “Street Spirit (Fade Out)” (mais uma recuperada ao clássico «The Bends»). Com o regresso da banda efusivamente celebrado pelo público, houve direito a mais uma sequência irrepreensível: “Bloom”, “Paranoid Android”, “Nude”, “2 + 2 = 5” e “There There”. Os títulos falam por si só. Para a celebração ser total, as já referidas “Creep” e “Karma Police” puseram até o espectador mais empedernido com os cinco de Oxford rendido à sua genialidade, goste-se ou não.

Após um concerto tão marcante pela simbologia associada, na passagem entre palcos (ou)viu-se um pouco de Rocky Marsiano e Meu Kamba Sound, projecto de (re)descoberta dos sons africanos revistos à luz do hip-hop e do afro-beat manipulados por D-Mars, com as vocalizações de Melo D a soarem adequadas.

Antes de assistirmos à última prestação da noite no Palco Heineken, houve tempo para a grande festa que foi o final da actuação dos Two Door Cinema Club, com o trio irlandês a brindar o público eufórico com “What You Know”, tema maior da banda incluído em «Tourist History».

Festa do princípio ao fim foi o que deram os “geeks” da electrónica que dão pelo nome de Hot Chip. Com direito a duas versões de luxo (“Erotic City” do malogrado Prince e de “Dancing In The Dark” de Bruce Springsteen) num alinhamento que percorreu treze excelentes temas da discografia que conta já com seis registos gravados (o último dos quais, «Why Make Sense?», representado com “Need You Now” e “Huarache Lights”). Com uma actuação a roçar a perfeição, onde coube a apresentação de um tema novo (“House Of Truth”) o grupo de Joe Goddard e de Alexis Taylor é uma das bandas que melhor sabe reinventar o seu som em palco, transformando autênticas pérolas da indietrónica em complexos de dança que parecem não querer ter fim. Exemplos são mais que muitos (e verdadeiros hinos da cena electrónica): “And I Was A Boy From School”, logo a abrir a prestação, “One Life Stand” quase a seguir, gingona até mais não, “Over And Over” com uma multidão que parecia estar possuída a dançar e, se tal ainda fosse preciso indagar, “Ready To The Floor”, absolutamente redentora. Concertos destes há poucos, mas os Hot Chip sabem como fazê-los. E de que maneira!

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Dia 3

Foi no último dia do festival que o espaço e horário ocupado pelas bandas granjeadoras de sucesso entre os teenagers estrangeiros recebeu o único artista português presente no palco principal. Agir, a representação nacional do fenómeno pop adolescente, disparava em todas as direcções: procurou a dada altura cantar fado para provar que esse género também é fixe e abusou no uso de “air horns” só porque sim. Mas o público estava receptivo, e enquanto se seguia em direcção ao Palco Heineken para o concerto dos Calexico era possível ver como praticamente todas e todos os promotores das marcas patrocinadores espalhados pelo recinto dançavam e cantavam os temas de cariz mais comercial.

A banda de Tucson confessou, já com o concerto a meio, sentir-se em casa. Sete músicos em palco que fundem a americana com ritmos latinos deram um dos melhores concertos do festival. Há a pujança das guitarras, solos de trompete e saxofone, num alinhamento que percorreu praticamente toda a discografia dos Calexico. Com direito a agradecimentos ao público em português, que replicava em coro os ritmos lançados pelo guitarrista.

A actuação seguinte estaria a cargo do sueco José Gonzalez. Com «Vestiges & Claws» a marcar o alinhamento, o artista arriscou algumas versões, com destaque para “Hand On Your Heart” (original de Kylie Minogue). Contudo, e como quem assistiu ao concerto mais atrás se apercebeu da pior maneira, a delicadeza das suas canções não se conseguiu impor perante todos aqueles que preferem conversar demasiado alto, bem como à passagem de espectadores rumo às bancas de cerveja ou comida. Embora a concentração de pessoas nessa zona fosse elevada, seria possível, mais à frente e com bastante espaço livre, apreciar melhor tudo aquilo que se passava em palco.

A banda norte-americana de Bred Bridwell regressou ao Alive (onde tão boa conta de si tinha dado em 2013) agora promovida ao palco dito principal. Mas nem sempre a subida de divisão é sinónimo de sucesso. Não necessariamente pela falta de qualidade das músicas apresentadas ou pelo empenho do quinteto de Seattle, mas neste caso, o efeito da ansiedade antes dos Arcade Fire subirem a palco fazia-se sentir sobremaneira nas filas da frente. Com um alinhamento inteligente, onde fizeram alinhar logo a abrir “Is There A Ghost”, portento musical em qualquer sítio, passando por “Casual Party”, demonstrando o equilíbrio entre qualidade e quantidade e, quase na recta final, “No One’s Gonna Love You” e “The Funeral”, canções que vão até ao âmago dos corações e ouvidos mais duros, os Band Of Horses confirmaram a qualidade que se esperava deles.

Uma das prestações mais bem conseguidas neste último dia de festival foi a do projecto pessoal de Rui Maia (elemento dos X-Wife) Mirror People. A electrónica mais orgânica que a música retirada de «Voyager», estreia em disco, ganha corpo e toda uma dimensão em palco, onde Maia se faz acompanhar de outros valores seguros da música nacional, Ana Miró (aka Sequin) e Jibóia (ele que também actuaria algum tempo antes no Palco Coreto). Afirmação plena de um valor seguro a merecer mais atenção ainda.

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Saber que os Arcade Fire elegeram este festival para darem um dos dois concertos em solo europeu era, por si só, razão de sobra para dar um salto ao Passeio Marítimo de Algés ver a banda do casal Win Butler e Régine Chassagne. Juntamente com os Radiohead foram, seguramente, um dos motivos dos passes gerais terem esgotado com bastante tempo de antecedência.

A banda de Montreal apresentou um alinhamento que percorreu de forma inteligente o cardápio incluído nos seus quatro discos lançados até à data (eles que se aprestam para entrar em estúdio para gravarem novo registo). O início não podia deixar de ser com “Ready To Start”, que abriu caminho a “The Suburbs” (funcionando como um arranque de uma corrida que se adivinhava vertiginosa). “Sprawl II (Mountains Beyond Montains)”, tema onde a voz de Régine é dona e senhora dos destinos do grupo, é uma delícia sonora indescritível e constituiu o primeiro grande momento de comunhão afectiva com o numeroso público que enchia quase por completo o recinto à frente do Palco NOS (quase tanto como no concerto de Radiohead). Mas, ao contrário da banda de Thom Yorke, Win Butler e companhia conseguem uma empatia extra (natural) que vai para além das músicas. Em “We Exist”, a introdução é feita ao som de “All Apologies” dos Nirvana num registo acapella, enquanto em “Normal Person” ouvimos a intro de “Heroes” (homenagem a Bowie, com quem a banda já partilhou palco). O andamento era já elevado, mas com “Keep The Car Running” as coisas prometiam acelerar ainda mais. Vimos como uma revisitação a “God Save The Queen” no final de “Intervention” trouxe um ar ainda mais profético ao tema. Seguiu-se “My Body Is A Cage”, espécie de exorcismo musical que Peter Gabriel decidiu homenagear no seu registo «Scratch My Back». “No Cars Go” tem aqueles coros que arrepiam ainda mais cantados por dezenas de milhares de vozes ao mesmo tempo. E os canadianos sabem muito bem para onde ir e levar a mole humana totalmente rendida. Já na recta final, começa uma sequência verdadeiramente demolidora: “Neighborhood #1 (Tunnels)” provoca um calafrio bom que traz as memórias do mí(s)tico concerto de estreia da banda no anfiteatro de Paredes de Coura; sem respirar, cola-se “Neighborhood #2 (Power Out)”, com Win Butler a ir ao encontro dos fãs da primeira fila e regressando com um cachecol da selecção portuguesa de futebol; com “Rebellion (Lies)”, música maior que o mundo, com a alma toda reunida na voz de Win Butler e nos coros do resto da banda e da multidão a plenos pulmões, a sequência deixa qualquer um à beira da histeria de sentimentos (este é um desfilar de canções que resultam só de ver os nomes). Absolutamente arrebatador e verdadeira imagem daquilo que é a sonoridade dos Arcade Fire, em que a simbiose entre a banda e o público é perfeita. A festa fez-se também com chuvas de confetti, contribuindo ainda mais para a alegria efusiva que transbordava plateia fora. Concerto inebriante, como não podia deixar de ser!

Ao mesmo tempo que os Arcade Fire celebravam a sua discografia, o palco Heineken recebia Four Tet. Cumpriu na perfeição o papel de DJ que lhe fora atribuído, numa actuação que se poderia ter prolongado durante o resto da noite. Despediu-se com um aceno e um sorriso, naquela que foi a única interacção com o público que vimos. Só a música escolhida foi suficiente para deixar todos os presentes satisfeitos.

Uma das actuações mais esperadas do festival estava marcada para as suas horas finais. Após Four Tet abandonar o palco e este começar a ser decorado com mais projectores e sintetizadores, o espaço reservado ao público começou rapidamente a encher. E foram muitas as pessoas que nas filas da frente envergavam as t-shirts da canadiana Grimes que se apresentaria pela primeira vez em solo nacional.

Escuta-se a gravação de “Laughing And Not Being Normal” enquanto surgem três bailarinas em palco. Claire Boucher junta-se no final do tema, para delírio da plateia. Mais que escutar as suas canções, o público compareceu no palco Heineken para uma outra celebração. Grimes é conhecida também pela sua faceta activista, seja na luta pelos direitos das mulheres e o seu reconhecimento artístico ou pela defesa dos direitos LGBT (e que a leva a surgir em palco com essa bandeira aos ombros). É, no entanto, difícil designar como concerto aquilo que Grimes ofereceu nesta noite. A sua voz encontrava-se no espaço ténue entre instrumentos pré-gravados e o playback. E o som demasiado alto, aliado ao entusiasmo da plateia, dificultou ainda mais a compreensão de qualquer palavra dita pela autora do celebrado «Art Angels» nos momentos entre canções.

A fechar as honras no palco principal, o projecto do francês Anthony Gonzalez M83. Longe do fulgor criativo demonstrado com «Hurry Up, We’re Dreaming» de 2011, os M83 parecem atravessar uma fase em que repetir fórmulas ganhadoras não parece ser caminho a seguir. E isso, em teoria, até poderia ser meritório, mas no caso em questão, as canções do último «Junk» (primeiro disco sem a teclista e vocalista Morgan Kibby), nomeadamente “Do It, Try It”, soam a uma pastilha já sem sabor, onde nem os arranjos de palco salvam o resultado final. A utilização em demasia de um saxofone que faz lembrar mais um Kenny G fechado num elevador que um Dana Coley em derivações electrónicas, provoca alguma apreensão em quem os viu na sua estreia por estes lados, há uns anos numa performance avassaladora no Hard-Club em Gaia. Salvam-se, contudo, temas onde a marca M83 se mantém intacta, como “Steve McQueen”, a epígrafe e o epílogo sonoros que constituem, respectivamente, “Intro“ e “Outro” e o aclamado “Midnight City”, momento de celebração para partilhar em conjunto.

Para o ano há mais ALIVE no Passeio Marítimo de Algés, com as datas de 6, 7 e 8 de Julho a serem reservadas para a sua 11ª edição.

Texto de Fernando Alves e Daniel Alves da Silva

Fotografias oficiais da organização

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