3/07/16

RUC @ Sónar by Day 2016

© Ariel Martini

© Ariel Martini

Dia 1

ACID ARAB

Abrimos a nossa presença no recinto diurno sob o sol tórrido do Sónar Village. A electrónica dançável entre tons árabes (Acid Arab levado à letra) cumpriu o papel num recinto já bem perto do lotado.

Em conversa com a RUC os parisienses falaram da influência que Baris K teve na sua sonoridade, do projecto para uma futura editora própria e a vontade de trilhar novas colaborações, nomeadamente no hip hip egípcio.

KING MIDAS SOUND + FENNESZ

Enquanto o SonarVillage ia mantendo o seu ambiente de festa ao som de Acid Arab, o belo SonarHall com as suas cortinas vermelhas a envolver as paredes, numa quase ausência de luz, criava o ambiente perfeito para o som introspectivo de King Midas Sound + Fennesz. Ao longo de uma hora apresentaram o trabalho editado em 2015, Edition 1. Com muito fumo e pouca luz ao longo de todo o concerto, conseguiram manter o seu ambiente flutuante/espacial, com os drones sacados da guitarra de Christian Fennesz, o universo dub de Kevin Martin (The Bug) e os poemas de Roger Robinson e Kiki Hitomi. Uma névoa de emoções/memórias que funciona melhor ao vivo, potenciada pela excelente qualidade de som que o Sonar Hall apresenta.

JAMIE WOON

Tido como uma das grandes revelações de 2010, o britâncio estabeleceu uma curiosa ligação entre o chamado “post-dubstep”, “trip-hop” e a “neo-soul”, numa época em que os beats eram algo estranho para a maioria dos ouvidos e a “neo-soul” ainda não possuía uma certa e determinada coolness que hoje em dia perdeu o factor “cool” – é dificil apelidar “Mirrorwriting” de game-changer, na mesma medida que os três EP´s made in R&S de James Blake agitaram, com a sua calma desconcertante, o panorama electróncio britânico. Todavia, à época, poucos temas fizeram sentido como “Night Air”, blues electrónico perdido entre beats fantasmagóricos de Burial, peça chave na construção de uma sonoridade tipicamente urbana e sofisticada, na linhagem do melhor que se fazia nas terras de sua majestade à época.

Renascido das cinzas em 2015, verdadeiro alienígena numa época de maximalismos duvidosos (Disclosure?) e electrónica em estado de decomposição (EDM?), Woon lançou o seu segundo longa duração em 2015, “Making Time” deixando de lado todas as pertinentes dúvidas que com o passar dos anos tantos admiradores do seu trabalho colocaram – que sentido ainda hoje faz uma sonoridade destas? Se o seu segundo álbum se revelou longe de entusiasmante, talvez um pouco datado, Jamie Woon demonstrou no palco do SonarDôme, lar da Red Bull Music Academy, um verdadeiro espectáculo e a razão pela qual a sua sonoridade dificilmente morrerá – acompanhado por um competente coro, bateria e baixo, Woon pouco fez para deixar uma plateia rendida, à medida que alternava entre o seu trabalho de estreia e “Making Time” – e ao som de Night Air pensámos: “Bem-Vindo de volta”

GAZZELE TWIN: KINGDOM COME

Herdeira de Fever Ray, a britânica Elizabeth Bernholz apresentou uma singular fusão de espectáculo multimédia, storytelling e arte performativa, uma alucinante viagem por ambiências distópicas, entre centros comerciais vazios e parques de estacionamento, uma reflexão sobre um futuro vazio marcado pelo alucinante ritmo cardíaco da modernidade. Pertinente na sua temática e no minimo bizarro na sua execução, Gazzele Twin apresentou-se, juntamente com o seu habitual colaborador  Jez Bernholz, ocupando cada um uma passadeira eléctrica e ofegantemente correndo contra as vertiginosas imagens projectadas no palco do SonarComplex. Quarenta e Cinco Minutos depois e caminhando por entre o público abandonaram o auditório, deixando no ar a dúvida “o que se passou aqui”?

65DAYSOFSTATIC present NO MAN´S SKY

Foi no anfiteatro do Sonar Complex que aconteceu o último concerto do primeiro dia do Sonar. Se Brian Eno estreou este palco com uma palestra com P grande, os 65daysofstatic deram um concerto com C grande. Os veteranos do post-rock foram apresentar pela primeira vez a banda sonora do videojogo No Man’s Sky, composta pelos próprios – camadas de drone densas por vezes rasgadas por guitarras e pesadas strobes, enquanto ao fundo desfilavam imagens do jogo a lançar no próximo dia 9 de Agosto.

© Ariel Martini

© Ariel Martini

DIA 2

ATA KAK

É impossível não falar da história de Ata Kak sem remeter para um dos heróis do underground norte-americano, Sixto Rodriguez. Com obra desaparecida durante décadas e bem longe do folk psicadélico de Rodriguez, Ata Kak construiu a sonoridade da diáspora, habilmente manejando uma qualquer mutação de highlife made in Ghana (hip-life) com funk electrónico e hip-hop. Apadrinhado pela Awesome Tapes from Africa, a reedição da sua cassete de estreia “Obaa Sima” de 1994 rapidamente se tornou num dos grandes fenómenos de 2015. Sob um sol abrasador, de taxista no Canadá a frontman de uma das mais electrizantes formações que pisou o SonarVillage, Ata Kak serviu uma frenética dose de funk, hip-hop, house e reggae, num espectáculo cujo ponto alto foi, como não podia deixar de ser, o tema que dá titulo ao album – letra incompreensivel, claro está, mas que sem qualquer tipo de pudores, todos entoaram.

KODE9 + LAWRENCE LEK – THE NOTEL

No dia anterior Steve Goodman (Kode9) tinha dado uma pequena amostra sobre o que iria ser a sua actuação com o artista visual Lawrence Lek, The Notel – trabalho que tem como base Nothing, o primeiro álbum a solo (tendo em conta que gravou os anteriores com The Spaceape) do “dono” da Hyperdub, lançado em 2015. A visão pós-humanista através do comando de um drone num hotel sem qualquer presença de seres-vivos dava forma à a música de Kode9, conseguindo “colar” a audiência de um Sonar Hall quase cheio. Numa experiência que dividiu o público entre a reflexão e o acto de dançar, houve ainda espaço a uma merecida homenagem a DJ Rashad e The Spaceape. No Sónar Hall confirma-se assim como não só um melhores palcos do festival, mas também onde mais se pode arriscar.

DANNY L. HARLE
Que sentido faz apresentar a PC Music em 2016, numa época em que SOPHIE produz Madonna, Hannah Diamond partilha temas com Charli XCX e A.G.Cook esgota salas em todo mundo? Nenhum, é verdade – mas nunca é demais sublinhar a frescura que este movimento trouxe à música pop, dotando-a de uma veia grotesca e maximal que até então desconhecíamos (ou, melhor dizendo, ignorávamos). E de um momento para o outro, à medida que a imprensa ia apadrinhando o movimento, conceitos como hyper-pop, hardcore, trance e nightcore deixaram de ser simples guilty-pleasures. A expansão da pop às micro-trends rapidamente apelou ao chamado underground, apadrinhando nomes ditos marginais como Danny L. Harle , hoje em dia, surpreendentemente, um nome da Columbia Records.

Bizarro? Nem tanto como ver um lotadíssimo Sonár Village transformado numa inocente fun-house com laivos de camp entoando uma versão nightcore de “Call Me Maybe” ou “Wrecking Ball”. Ou a dançar freneticamente ao som da remistura do britânico para a “Shine” dos Years and Years. Ou entoando em plenos pulmões “Broken Flowers”, tema que lançou o britânico para o estrelato on-line.

Caso para dizer – HUGE DANNY!

© Ariel Martini

© Ariel Martini

DIA 3

BADBADNOTGOOD

Ponto positivo do cartaz deste ano do Sónar foi a capacidade de se assumir musicalmente como um festival que caminha para lá da música electrónica e experimental. Procurando trilhar novos territórios, injectam uma agradável “frescura” à já muito densa programação – assim foi com James Rhodes, “Become Ocean” de John Luther Adams interpretado pela Orquestra Sinfónica da Catalunha e os BadBadNotGood.

Único nome cancelado na edição de 2015 do Sónar, os BBNG pertencem a uma nova linhagem de artistas que procuram, no espirito das jam bands, aproximar o jazz de um público mais vasto, sem cair na linguagem densamente abstracta de nomes como Mostly Other People do the Killing – uma bendita acessibilidade que, em boa verdade, se tem generalizado nos caminhos do jazz com nomes como Kamasi Washington (algo que a banda, em entrevista “molhada” à RUC, fez questão de sublinhar) e toda a família Brainfeeder.

Ao vivo, os BBNG são electrizantes – e o público agradece, procurando nunca abandonar o espaço do SonarVillage mesmo enquanto a chuva insiste em cair. Apresentando temas do recente IV, os canadianos construíram um interessante espaço de improvisação para cada membro da banda, sem nunca perderem a acessibilidade que tão bem os caracteriza.

E o que têm a dizer dos festivais de jazz obcecados por nomes elevator-cool? “Fuck Kenny G.” gritaram ao microfone da RUC. Mic drop.

NOZINJA

Em pleno 2016 já pouco ou nada nos surpreende na Warp – não só continua a ser a editora mais relevante da actualidade como consegue juntar ao seu roaster um conjunto de nomes cada vez mais globais, como é o caso do português Marlon Silva e a família Principe (através dos aclamados 12 polegadas “CARGAA”) ou Nozinja, mentor do movimento Shangaan Electro, frenética cacofonia low-cost originária dos townships sul-africanos que numa faixa é capaz de juntar house sul africana, kwaito e tsonga disco.

O espectáculo ideal para mobilizar uma audiência ainda atordoada pela chuva torrencial que caiu violentamente sobre o recinto.

ONEOHTRIX POINT NEVER

É difícil classificar o som de Oneohtrix Point Never, projecto do norte-americano Daniel Lopatin – partindo do noise e dos movimentos new-age, mapear a sonoridade de Lopatin em torno da música é um exercício no mínimo redutor, uma vez que a cultura digital ocupa um espaço tão ou mais importante que os movimentos sonoros do século XX. – afinal, é dificil conceber trabalhos como Returnal ou Replica sem pensar em RPG (role playing games) ou nas micro-culturas ou submundos/refúgios digitais para qualquer tara e mania, ou na obsessão pelo passado glossy e néon (vaporwave).

Carreira pautada por uma compreensão do digital difícil de ignorar, Garden of Delete, trabalho editado em 2015, abriu novas portas para o norte-americano, fruto da convivência em tournée com Nine Inch Nails e Soundgarden.- Podíamos catalogar o álbum como “grunge digital”, “hyper grounge”, “post pc-music” (Simon Whybray, mentor do programa Non Stop Pop, berrou, ao som de “I Bite through it”, “FUCK ME OPN”) ou “nu-trash”, contudo tal exercício redundaria numa catalogação do impossivel … perfeitamente imperfeito na sua composição Garden of Delete foi o som da modernidade circa 2015… um produtor sem medo de experimentar, de colidir sons e temáticas desconcertantes, via Ezra, o seu alter-ego alienígena.

Em formato live, OPN nunca foi tão longe – criou um mundo, uma estética, verdadeiro terrorismo digital difícil de digerir, abrasivo, histérico, maximizado pela guitarra digital e as strobes incessantes que o acompanhavam. O futuro passou pelo SonarHall… e era grotescamente belo.

CYCLO

A segunda leva do showcase da raster-noton levou ao palco Sónar Complex, cyclo (alva noto + ryoji ikeda). Este que já seria o segundo round para Carsten Nicolai (Alva Noto). Pois tocou precisamente no mesmo sítio, antes de actuar com Ikeda. O CONCERTO do Sónar (pessoalmente). Som, vídeo, estava tudo no sítio, como deve ser. É daqueles casos em que por mais que escrevesse, nunca iria conseguir transcrever a experiência audiovisual. Provavelmente a melhor forma de perceber de que é que afinal se trata a raster-noton ao vivo.

BYETONE/OLAF BENDER

Nada podia ter corrido pior a Olaf Bender, sob o seu alter-ego de Bytone. Falha de visuais durante todo o concerto, não se chegando a saber o porquê da mesma falha. A perfeição do som e uma tentativa de substituir os visuais com as luzes do palco não foram suficientes para corrigir a performance ou adicionar algo de apreciável. Pode ser que o Olaf tente outra vez, de preferência em Portugal e com amigos para continuar a festejar os 20 anos de raster-noton.

 Texto por Miguel Marques e João Baptista

 

 

 

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