11/06/16

RUC @ NOS Primavera Sound 2016: Dia 2

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

No segundo dia de festival, o parque da cidade abre-se em pleno com todas as capacidades do festival. Finalmente com o sistema de quatro palcos a funcionar, a melhoria é notável, e é sempre com um rasgo de felicidade que voltamos à clareira mágica do ex-ATP, agora Palco. (ponto mesmo, patrocinado pela câmara do Porto). O Pitchfork, ainda que em afterhours no primeiro dia, retoma também em força no segundo, agora com localização alterada para a entrada do festival, deixando o seu antigo poiso para uma nova área de restauração dedicada à comida de rua, iluminada ao estilo dos santos populares.

Mesmos substituindo o ATP por um ponto (para nós será sempre ATP), o Palco. mantém a programação de qualidade e mais fora do grande mainstream dos principais. Foi nele que começámos, deitados nas ondas de relva que forma, com a estreia dos BEAK> em Portugal. A banda formada pela bateria de Geoff Barrow, dos Portishead, e o baixo Billy Fuller, já com novo guitarrista substituindo Matt Williams, juntou-se à luz de fim de tarde para uma hora de ritmos galopantes em improvisação krautrock, muito em regime exploratório do último LP >>. Comunicativos e optimistas, mesmo quando metade do PA falhou (“left side, say Hey!!; right side, say Fuck off!!”), estrearam da melhor maneira a trilogia de improvisações instrumentais do primeiro dia de ATP.

BRIAN WILSON _ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

BRIAN WILSON
_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

Não é uma história bonita, a que rodeia Pet Sounds, o álbum maldito, e hoje mais aclamado, dos Beach Boys. Criado em 1966 por um Brian Wilson solitário, fascinado pela revolucionário Rubber Soul, e já num processo de degradação mental, procurava a perfeição e o futuro do pop. Os meninos bonitos que não surfavam sequer de repente apresentavam um disco que nada tinha a ver com surf, praia, e os sentimentos superficiais e ingénuos que povoavam o espólio que os tornou fenómenos. Flop comercial, sem consenso dos restantes elementos que pouco mais fizeram do que coros, em conflito com o pai Wilson, patrono da banda, condenou ainda mais o estado de Brian. O falhado Smile acabaria por ser a machadada final que enterraria o génio criativo dos Beach Boys, e um dos maiores nomes da história do pop, numa prisão de psicofármacos e um psiquiatra abusivo, em exploração financeira e criativa, numa deterioração total. Foi apenas no final dos anos 80 que Melinda Ledbetter, actual esposa, e o seu irmão Carl o resgataram e trouxeram de volta à vida pública, permitindo que hoje, com dignidade, se celebre a sua presença em palco.

É assim com uma imensa carga emocional, de tons negros mas final feliz, que se cristalizou a preciosidade pop de Pet Sounds. Cinquenta anos depois, passou o flop, passou o conflito, a desilusão, e aclama-se um dos mais importantes álbuns da história. Sob um fim tarde no parque da cidade, com as tonalidades de um pôr-do-sol a matizar o céu, as condições eram perfeitas para receber o nome mais essencial deste cartaz, um momento histórico para muito dos presentes.

BRIAN WILSON _ 2º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

BRIAN WILSON
_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

Em prelúdio com uma breve passagem por temas clássicos dos Beach Boys e dos inícios dos 60s, da delícia de “Surfer Girl” (escrita quando tinha 19 anos) a “California Girls”, foi ao sexto tema que se fez ouvir as teclas iniciais de “Wouldn’t It Be Nice”. A partir daí foi uma viagem perfeita e imaculada, com uma voz frágil de Brian Wilson a irromper do tecido instrumental, ajudada por Al Jardine e a grande voz do seu filho, Ned Jardine. Brian é comunicativo e é quase ingénuo que apresenta cada tema com um gosto humilde, como se nos desse a ouvir pela primeira vez o álbum que todos sabíamos de cor. “Listen to this song, it has amazing lyrics. Listen to them, you’ll love them!” – introduzia “I Just Wasn’t Made For This Time”, e são muitas as caras banhadas a lágrimas em redor.

É difícil escolher momentos num disco perfeito do início ao fim, do silêncio solene e penetrante de “Don’t Talk, Put Your Head On My Shoulders”, ao desvario instrumental de “Pet Sounds”, ou ao arrepio na espinha de “God Only Knows”. E se depois de “Caroline No” a ressaca emocional se avizinhava, Brian dissipa-a espalhando a festa geral com todos os êxitos a que tínhamos direito, de “Good Vibrations” a “Surfin USA”. Brian Wilson pode pensar que não foi feito para este tempo. 50 anos depois sabemos que foi feito para ser eterno.

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

BRIAN WILSON
_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

Se com Brian Wilson celebrámos a história, no regresso ao ATP ficamos cara a cara com o presente. Acompanhado por um pequeno combo de jazz, o jovem Sam Shepherd consagra o seu Elaenia, do ano passado, em palco. O primeiro disco de Floating Points, após anos de presença marcada nas pistas de dança, aponta uma viragem do americano para uma abordagem mais concreta da música, a que o formato banda é imprescindível (e com pena de não termos direito a ensemble). Centrado exclusivamente neste disco, lança-se num transe contínuo, complementado pelo laser hipnótico que domina o palco. Com momentos de uma intensidade brutal intervalados por introspecções instrumentais que tampouco deixam descansar, guitarras a trazer os Parliament para o século XXI, os laivos funk e tropicais de que tanto gosta a transparecer nos pormenores, trouxe-nos um dos melhores concertos deste Primavera. Se há algo a que podemos chamar Jazz do futuro é a este Floating Points, deixando-nos ansiosos pelas cenas dos próximos capítulos.

A coroa do Palco NOS do segundo dia estava destinada a PJ Harvey. Se já na primeira noite os Sigur Rós tinham marcado com tons negros e marciais, a gigante caravana de sopros e percussão que Polly Jean traz consigo marca o ritmo de um concerto militar, militante, arrastando o cenário activista e forte do tom das letras e canções de The Hope Six Demolition Project. Aos temas do novo disco falta-lhes contudo poder e a diversidade dos anteriores, e ainda que “The Word That Maketh Murder” e “River Anacosia” se afirmem, ainda são “Down By The River” e “Bring You My Love” que salvam o concerto de uma monotonia e repetição excessiva. PJ Harvey apresenta uma performance bem distante do etéreo Let England Shake, bebendo da mesma fonte que o seu ex-companheiro Nick Cave, falta-lhe apenas transpor a quarta parede e tornar a teatralização de palco num contacto mais visceral com um público rendido. Minimalista, de negro, coroa de louros, e tecido a flutuar no vento, é toda ela um jogo de sedução perigosa, deslizando reptílea por entre o rigor dos instrumentistas, com a sua voz transcendente a dirigir o esquadrão, qual deusa grega bélica rebentando um campo de minas.  

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

PJ HARVEY
_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

A terminar a anunciada trilogia, e para nós este segundo dia, recebemos os Tortoise para quase uma hora e meia de uma das mais belas divagações instrumentais a que assistimos neste Primavera. Directamente após um soundcheck conturbado, arrancam num improviso contínuo com tons de dub, pop e jazz. Catastrophist, lançado este ano depois de um longo hiato de 7 anos, marca presença mas deixa espaço para relembrar temas de TNT ou It’s All Around You, deixando de fora a vertente mais electrónica e as vozes deste novo registo para deliciar num mantra de guitarras e sintetizadores, onde nenhum dos elementos se fixava num instrumento e sintonizados com o público se divertiam num trabalho de criação contínua.

Texto de Guilherme Queiroz

NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

_ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

 

4
23
17
0
GMT
GMT
+0000
2018-05-24T23:17:03+00:00
Thu, 24 May 2018 23:17:03 +0000