8/06/16

RUC @ Kamasi Washington | Casa da Música | 06.06.2016

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Esta segunda-feira marcou a estreia de Kamasi Washington (o autor do aclamado “The Epic”) ao vivo em Portugal, como parte da digressão que recentemente passou no festival Primavera Sound em Barcelona. A Sala Suggia da Casa da Música, que teve a honra de acolher tal evento, poucos minutos antes das 9 da noite já se encontrava repleta de espectadores que ora se revelavam versados no que toca ao conhecimento das tendências musicais do jazz, ora pura e simplesmente pontuais interessados na exibição ao vivo do músico natural de Los Angeles que recentemente se tem revelado como a nova coqueluche nas publicações musicais, não só pelo seu LP acima referido mas também pela sua associação musical a nomes distintos do hip-hop contemporâneo como Flying Lotus ou Kendrick Lamar, com os quais havia colaborado respectivamente em “You’re Dead” e “To Pimp A Butterfly”.

Cerca de 10 minutos depois do horário agendado (tempo o suficiente para deixar a plateia assentar-se confortavelmente) o espectáculo iniciou-se com uma breve introdução instrumental, que pareceu agregar momentaneamente variadas dicas musicais de diversos temas de “The Epic”. Após esse breve prelúdio musical, fizeram-se sentir os primeiros acordes de “Change of the Guard”, uma das faixas mais sonantes do extenso longa-duração que, também graças aos ambientes de anoitecer que se iam vislumbrando pelas janelas laterais e que se conjugaram perfeitamente com o mudar de guarda a que a composição alude, se revelou já de noite como o primeiro passo ideal nesta jornada de cerca de duas horas e meia que o músico assegurou ser repleta de boa disposição e divertimento.

E realmente é de se salientar a boa disposição presente na sala, sobretudo da parte do músico que, vestido de vestes mais claras que a capa do disco apresenta, assemelhava-se a um guru espiritual do colectivo musical que se encontrava em palco e não tanto como o maestro do mesmo, como se inicialmente se poderia pensar. Tal grupo era formado por Brandon Coleman no piano/teclado (autor de “Self Taught”, um dos discos mais subvalorizados do ano passado), o trombonista Ryan Porter (assumidamente o braço direito de Kamasi em palco), a cantora Patrice Quinn e, a compor a vertente rítmica, Miles Mosley no contrabaixo a acompanhar os bateristas Ronald Bruner Jr. e Tony Austin. Tudo músicos ostensivos que fizeram parte da orquestra de 32 pessoas responsável pela gravação de “The Epic” e que cumpriram cabalmente a tarefa avassaladora de transparecer todo o esplendor desse trabalho de estúdio para um espectáculo ao vivo.

E embora tal pareça notável se apontarmos a diferença de elementos com que Kamasi Washington teve oportunidade de trabalhar em estúdio e os que se encontravam no palco, a verdade é que o músico norte-americano soube escolher a dedo os membros desta sua família musical para o acompanhar nessa tarefa herculana. E “família” acabou realmente por se tornar o âmago de todo o concerto, sobretudo no tema “Henrietta Our Hero”, composição que Kamasi Washintgon dedicou à memória da sua avó (e das lições de vida que a mesma lhe apregoava) e que serviu igualmente de motivo para a entrada em palco do seu pai Rickey Washington, cuja mestria musical com a flauta transversal conciliava não só com a restante orquestra (sobretudo com o piano e a voz), mas também com os efeitos de luz avermelhados que, juntamente com a voz melosa de Patrice Quinn, ajudaram à intimidade emocional.

Transformado em octeto musical (com Rickey Washington agora a enveredar um saxofone soprano e juntando-se assim a Kamasi e Ryan Porter na secção de sopros), o coletivo desbravou por mais alguns excertos do LP triplo editado no ano passado pela Brainfeeder. Obviamente, dada a duração colossal do mesmo, houve temas (como “Askim”, “Miss Understanding”, “The Message”, ou mesmo as versões de Claude Debussy ou Ray Noble, para mencionar alguns exemplos) que não tiveram tempo de brilhar no palco da Sala Suggia, mas tal não foi o caso para faixas como “Re Run Home” (o segundo tema do concerto, no qual os solos de trombone a cargo de um Ryan Porter que ia alternando entre microfones açambarcaram a ribalta), “The Magnificent 7” (talvez a que mais sofreu do número reduzido da orquestra em palco, mas nem por isso perdendo a sua ressonância ou vivacidade) ou “The Rythm Changes” (a que mais divergiu da versão de estúdio, ao adoptar uma sonoridade composta por um groove mais acentuado).

No entanto, a ausência de certas faixas de “The Epic” neste concerto também se deveu às boas intenções publicitárias de Kamasi Washington, que fez questão de salientar os talentos individuais de cada um dos músicos que o acompanhava em palco e que já tinham algumas composições musicais assinadas em seu nome. (Sem surpresas, se tivermos em conta o passado do músico, que durante anos acompanhou em palco grandes nomes da indústria – como Erykah Badu, Snoop Dogg, Lauryn Hill ou Nas – antes de atingir o estrelato.) Apesar disso, tais interlúdios publicitários acabaram inclusivamente por figurarem entre os melhores momentos do espectáculo, seja devido à interpretação dançante de “Abraham” de Miles Mosley ou à nostalgia passional presente em “Giant Feelings” de Brandon Coleman (a qual forneceu a Patrice Quinn mais um momento para maravilhar o público português).

Nestes momentos, Kamasi Washington fazia questão de sair da ribalta, reaparecendo ocasionalmente para enaltecer os temas com os seus solos de saxofone instantaneamente possantes. Contudo, a sua faceta de espectador (sempre com olhar apreciativo, ao invés de julgador) teve o seu apogeu durante a etapa dominada pelos talentos dos dois bateristas presentes em palco. Durante cerca de 10 minutos, Tony Austin e Ronald Bruner Jr. encantaram toda a plateia durante todo o seu debate/duelo à base de ritmos e batidas, que o próprio Kamasi nomeou de “talking drumsets” e que acabou por ser dos momentos mais distintos da noite. O público por sua vez devorou cada um destes momentos e, chegado o final, clamou avidamente por mais, numa ovação em pé para Kamasi Washington e a sua banda. Os músicos regressaram para um breve encore com a mais que apropriada “Final Thought” a encerrar esta estreia musical ao vivo no nosso país.

Pedro Nora

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