4/12/15

RUC @ Vodafone Mexefest 2015

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Mais um ano, mais uma correria de palco em palco para tentar ver os melhores concertos da edição deste ano do Vodafone Mexefest, antigo Super Bock em Stock. Esta crónica relata os concertos a que a Rádio Universidade de Coimbra conseguiu aceder, uma tarefa complicada dada a enorme diversidade e qualidade a decorrer em simultâneo. Demos início à nossa jornada de uma forma algo atribulada, dado o trânsito caótico para entrar em Lisboa num final de tarde de 6a feira juntamente com o Vodafone Mexefest pelo meio… Tornou-se num momento de tortura.

Dia 1

O início da noite ficou logo marcado pelo cancelamento do concerto do rapper inglês Roots Manuva por doença súbita, tendo sido substituído pelo português Mike El Nite o que deixou logo alguns fãs um pouco frustrados.

Quanto a nós, demos início ao nosso percurso no Coliseu dos Recreios para ouvir Chairlift. Com um pequeno atraso inicial de 20 minutos, começaram a surgir algumas queixas por parte dos presentes, pois 20 minutos neste conceito de festival pode certamente implicar perder metade do concerto seguinte. Atrasos à parte e pela voz da vocalista Caroline Polachek, os Chairlift presentearam o público Português com um espetáculo calmo e abaixo das expectativas. Apesar do Coliseu dos Recreios estar praticamente cheio, os norte-americanos não surpreenderam por aí além, e mantiveram-se fiéis a apostar na divulgação do novo álbum, Moth que será editado em janeiro do próximo ano. Esta aposta resultou numa menor animação por parte do público, uma vez que eram muito poucos aqueles que conheciam a totalidade dos temas. Um coliseu composto mas muito atmosférico, etéreo e pouco pop fez-nos agarrar nas perninhas e subir avenida acima para apanhar o início do concerto de Ducktails.

Foto 1

Ducktails

O que se tratava inicialmente de um projeto a solo do guitarrista dos Real Estate, Matt Mondanile, veio-se a revelar numa das melhores bandas dos últimos tempos. Com um Tivoli bastante composto, e com muito poucas cadeiras livres, os Americanos deliciaram-nos com as suas sonoridades delicadas, suaves e algo melancólicas. A playlist foi maioritariamente preenchida por músicas do mais recente álbum da banda, St. Catherine, lançado no passado dia 24 de Julho, acabando por ficar de lado alguns temas mais badalados como Art Vandelay. Tratou-se de um concerto que apesar de não ter sido memorável e até sido “contemplado” com alguns problemas técnicos, nos transportou para locais onde já fomos felizes, numa espécie de saudosismo feliz. Aproveitando a boleia de alguns espectadores que se deslocavam para o próximo concerto, resolvemos continuar a nossa jornada desta vez em direção ao tanque para ver Tropkillaz. Em palco estava a dupla de DJs e produtores brasileiros André Laudz e Zé Gonzales, este ultimo também conhecido como DJ Zegon e que já colaborou com nomes como Kanye West, M.I.A. ou David Byrne. O ambiente estava ao rubro neste novo espaço do Vodafone Mexefest. Tendo aberto há relativamente pouco tempo, trata-se da antiga piscina do Ateneu Comercial de Lisboa (adjacente ao Coliseu dos Recreios), agora recuperada e conhecida como Tanque, estando o palco colocado dentro da mesma. No geral o espaço estava bem preenchido, com bastante animação e muitos saltos em grande euforia, mas como a hora se aproximava para o que prometia ser o concerto da noite, acabámos por ficar muito pouco tempo e seguir para a já esperada extensa fila no Coliseu dos Recreios para assistir ao espetáculo do músico Londrino Benjamin Clementine.

O primeiro dia desta edição do Vodafone Mexefest ficará certamente marcado pelo concerto do poeta, pianista, compositor e vencedor do conceituado Mercury Prize. Duvidas não restaram que seria um enorme concerto, e que o coliseu faria jus ao seu tamanho. O que se iniciou como um dia calmo e sem grandes espetáculos e cabeças de cartaz, Benjamim, no concerto mais esperado da noite de sexta-feira, superou isso tudo, deixando um coliseu em romance. Choros, palmas, beijos, gritos em uníssono, houve de tudo, e contrariamente ao festival Super Bock Super Rock, Benjamin estava apenas acompanhado por um baterista num ambiente mais intimista.

Benjamin Clementine

Benjamin Clementine

Agradados com esta surpresa, abandonamos o Coliseu um pouco antes do final do concerto e aproveitando e agradecendo a proximidade do Ateneu, fomos assistir aos gritos histéricos e deliciosos de Titus Andronicus. Se o público, mesmo assim bastante composto face ao “rival” Benjamin, já estava eufórico em demasia, então em A More Perfect Union o mosh atingiu o seu pico. Tratou-se de um concerto intenso mas em que a acústica do pavilhão por vezes não permitiu que se distinguisse o conceito de música, do conceito de ruído.

Dia 2

Começamos o nosso roteiro do segundo dia de Mexefest a ser barrados na porta do blackout room. Uma pena, pois a porta só é aberta no início dos concertos e depois quem se atrasar já não consegue entrar e resta-lhe conformar-se com a rejeição. Dos feedbacks que ouvimos tratou-se de uma experiência interessante pois num ambiente totalmente desprovido de luz, a sonoridade dos Bombino foi o que realmente se destacou e interessou. Nesta altura já uma multidão de pessoas se apressava a entrar no Cinema São Jorge para assistirem ao concerto dos Portugueses Best Youth, mas como já tivemos o privilégio de há pouco tempo os termos visto no nosso corredor da RUC, resolvemos descer avenida abaixo em direção à sala Super Bock Garagem Epal para espreitar os Flamingos. O espaço não estava muito cheio e as pessoas estavam basicamente a conversar agitando-se levemente, num género de convívio, enquanto ouviam o som da dupla formada por João Sarnadas dos Coelho Radioactivo e Luís Gravito d’O Cão da Morte. Nada de muito intenso, portanto. Flamingos à parte, voltamos a galgar avenida acima (antes de nos aventurarmos nas boleias dos shuttles) para estar presentes no inicio do concerto da Britânica Georgia.

Após uma entrevista com a cantora, e que nos surpreendeu bastante pela positiva quer pela sua simpatia, quer pela maturidade que mostrou revelar com uma idade tão tenra, deparamo-nos com um dos melhores concertos do festival. Este que não era um dos nomes mais badalados do cartaz, foi claramente uma das melhores revelações da edição deste ano do Vodafone Mexefest. Georgia estreou-se em agosto passado com um álbum homónimo pela mão da conceituada label Sacred Bones Records, e deu início ao seu concerto com Kombine, a primeira faixa do álbum. Georgia imediatamente pôs logo todo o público ao rubro, incluindo a própria mãe que estava mesmo atrás de nós a cantar as letras num misto de emoção e orgulho. Georgia, que iniciou a sua carreira musical como baterista, não fugiu às origens. Apresentou-se em palco na bateria acompanhada de um elemento nos sintetizadores. Esta dupla permitiu aos espectadores navegar numa mistura de pop, rock, música Africana e punk. De baquetas na mão, a artista que se sente abençoada sempre que a comparam a grande nomes femininos do mundo da música como M.I.A. ou Fever Ray dos The Knife, não se cansou de elogiar o publico Português, enquanto nos ia presenteando com temas como Nothing Solutions ou Move Systems. De coração cheio e com bastante pena de não podermos assistir ao concerto na integra, deixámos a Britânica e corremos para ver um dos mais esperados concertos da noite, Ariel Pink, sabendo que teríamos de perder os concertos de Holy Nothing e de Selma Uamusse.

Foto 3

Ariel Pink

Ariel Pink, era um dos grandes nomes deste cartaz e prometia brindar-nos com um concerto enriquecido de psicadelismo e monólogos alucinantes por parte do vocalista. Com um nem meio cheio nem meio vazio Coliseu dos Recreios, o Californiano apresentou-se em palco com a sua banda da qual fizeram parte três teclistas. Após ter marcado presença na última edição do Primavera Sound no Porto com um entusiasmante concerto no palco Pitchfork, por Lisboa o seu psicadelismo e alegria de viver deixaram muito a desejar. Ariel esteve enfadonho, desinteressante, as palavras e letras proferidas pelo cantor eram quase imperceptíveis, e isso transmitiu-se rapidamente para o público que começou a deixar o Coliseu a meio do espetáculo pois a paciência também tem limites e o facto de existirem mais concertos a decorrer torna-se uma motivação mais que válida. Nem o coaxar de uma rã, nem as guitarradas de heavy metal, nem o experimentalismo nos cativou. Saímos ao som de Picture me gone (oh, the irony), e fomos em direção ao Tanque para ouvir Da Chick. Errado! A uma hora do concerto de Peaches a fila estava já tão gigantesca para assistir à performance da canadiana que resolvemos abandonar e seguir avenida acima, voltando mais tarde.

Depois de duas frustrações seguidas, resolvemos entrar na loucura do autocarro que neste segundo dia se fez encher ao som dos Pás de Probléme. Palavras não existem para descrever o ambiente sentido dentro do que podia ser um singelo 720 em direção a qualquer destino. Nunca um autocarro esteve tão embaciado/suado, nem mesmo o 24T a caminho do Coimbra Shopping ao fim de semana. Estava a loucura instalada, toda a gente aos saltos, uns agarrados às barras, para se salvaguardarem em caso de alguma travagem mais brusca, outros simplesmente a viver a vida no limite no verdadeiro “curtir demais”. Aquelas suspensões nunca mais serão as mesmas… Acredito piamente que perdemos cerca de 2Kg cada um naquele misto de sauna com aula de pump.

Loucas emoções à parte, resolvemos assistir ao que prometia ser um dos grandes concertos do festival, Nicolas Godin. Decisão errada! O que tinha tudo para ser um misto de Air salpicado por Fuck Buttons com resquícios electrónicos, acabou por se revelar um concerto enfadonho, em que Nicolas pouco ou nada interagiu acabando por muito do público facilmente sair em direção a um novo norte. Nós não fomos exceção, aproveitámos as “boleias” das portas abertas e depressa nos movimentamos para o que sabíamos que iria ser um bom concerto, mas sem saber se poderia ser um dos concertos desta edição.

Falamos do artista sul-africano Petite Noir. Yannick Iluga começou por cumprimentar o público Português num olá quase perfeito e iniciou a sua debandada maioritariamente pelo seu álbum de estreia La Vie Est Belle / Life is Beautiful. Sempre com uma batida contagiante resgatou algumas faixas do seu EP The King of Anxiety e pôs toda a plateia do Cinema São Jorge em pé. Ótima escolha a nossa, trocar Nicolas Godin por Petite Noir.

Foto 4

Petite Noir

Já na reta final deste fantástico concerto, descemos rapidamente avenida abaixo para espreitar os novatos The Babe Rainbow. Prémio melhor outfit em palco! Um conjunto de 4 personagens, todas muito bem vestidas no seu panorama psicadélico, e que sem esforço algum conseguiram transmitir aquele sentimento de “estes gajos são os maiores” ao pouco público que se encontrava presente na Sala Super Bock. Mesmo assim, com Secret Enchanted Broccoli Forest abanamos todos a anca, fechámos os olhos e entrámos numa espiral etérea e extra-terrena. Já no final, e com vontade de assistir a mais um par de músicas, continuamos rua abaixo, e antes do aclamado Patrick Watson fomos novamente tentar a nossa sorte no Tanque. Desta vez foi fácil entrar pois o concerto de Peaches já decorria. Com um Tanque a abarrotar pelas costura valeu-nos a nossa persistência associada ao 1.73m para conseguirmos espreitar para o palco e para percebermos que estava a decorrer um espetáculo absolutamente libertador. Merrill Nisker apresentou-se com extensões loiras no cabelo, maquilhagem vermelha, fez crowdsurfing pelo público ao som de I Feel Cream, e terminou com Fuck the pain away, enquanto bebia e despejava champanhe nas filas da frente. Atirou toalhas para o público, brindou com os fãs, agarrou na sua mala de viagem e foi-se embora, deixando todo o público em êxtase na esperança que ela voltasse e ficasse para sempre. Que concerto incrível!

Peaches

Peaches

Ainda com o coração a mil, lá seguimos em direção a outro dos mais esperados momentos da noite com o Patrick Watson, mesmo ali ao lado no Coliseu. Como seria de prever, e com um público totalmente diferente do que há poucos instantes vibrava ao nosso lado em Peaches, a sala rapidamente se encheu à semelhança de Benjamin Clementine, para assistir ao espetáculo do cantor canadiano que vinha apresentar o seu mais recente álbum, Love Songs For Robots. Watson deu o concerto que seria de esperar, sentado a um piano de cauda, sob vários candelabros de luz, e alternando entre o piano e a guitarra. Um dos grandes momentos da noite foi certamente quando o cantor subiu para a tribuna e para além de por lá ter cantado, ainda teve direito a um abraço de uma fã mais exaltada. No entanto, o que pretendia ser um concerto totalmente intimista e acolhedor ficou marcado pelo constante (e normal) burburinho da multidão, abafado pelos constantes shius dos restantes mais incomodados.

Patrick Watson

Patrick Watson

Pelo meio fomos espreitar os madrilenos The Parrots, que por incrível que pareça e ao contrario das nossas expectativas estava completamente cheio. Sendo o Ateneu o palco que os recebeu, os The Parrots apresentaram um frenético concerto recheado de garage e surf-rock, num ambiente contagiante e explosivo. Por fim, terminámos esta jornada de dois dias de volta ao Tanque, pois segundo diz a lenda, devemos sempre voltar ao local onde já fomos felizes. Acabámos em beleza ao som dos Meu Kamba Live, que no seu misto de música Africana com sincronizadas batidas electrónicas contou com valiosas participações em palco entre eles Rocky Marsiano. Com os corpos todos a abanar numa exploração da veia africana misturada com um sentimento de despedida demos por terminada a nossa ingressão de dois dias neste que foi um festival de revelações.

Crónica de: Margarida Ferreira Teixeira

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