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RUC @ Os Mutantes | Armazém F [Lx] | 30.11.2015

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A ideia de comeback traz consigo um sabor ambíguo, uma espécie de pastilha elástica que após o bom choque inicial perde todo o sabor, tornando-se insignificante ao paladar  – o regresso ao activo pode ser um mero exercício de nostalgia, o aproveitamento de uma cash-cow altamente capitalizada no discogs ou a celebração de um tempo que lá vai. Enquadrar os Mutantes numa destas categorias é impossível.

Heróis sónicos em pleno quadro ditatorial, essenciais para compreender a história do Tropicalismo e as inúmeras intersecções entre a música brasileira e a estética psicadélica, via eixo Londres-São Francisco, os Mutantes representam o brilhantismo da música brasileira na sua golden age – poucos são aqueles cujo álbum de estreia figura ao lado de “Construção” de Chico Buarque ou num plano completamente distinto, “Chega de Saudade” de João Gilberto.

Extravagantes, Loucos Revolucionários, marcaram um ponto de viragem na música brasileira – e em pleno 2015, carregam uma história que muito poucos conseguem cantar com tamanha clareza, numa narrativa em que Sérgio Dias, único membro da formação inicial, se tornou num porta-voz de excelência.

Mais próximos da estética DIY made in 60´s que dos sons burgueses que ecoavam da Avenida Atlântica no Rio de Janeiro, a verdade é que o concerto dos Mutantes no passado dia 30 no Armázem F, nunca fugiu para os terrenos da nostalgia. Apresentando roupagens reconhecíveis, mas longe de decalques do passado e com suficiente espaço para a improvisação, celebrou-se a história, mas também se comprovou de que material é que são feitas as lendas – e por que razão temas como “Panis et Circenses”, “Balada do Louco”, “Ando meio desligado” “Bat Macumba” ou o eterno clássico “A minha Menina” continuam a ser ouvidos com puro fascínio. Ontem, hoje e para sempre.

Texto de Miguel Marques

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