20/11/15

RUC @ Semibreve 2015

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Braga (Theatro Circo, GNRation e Casa Rolão) foi palco das atenções durante os dias 30/31 de Outubro e 1 de Novembro. E o motivo foi a 5ª edição do SEMIBREVE; festival dedicado às artes digitais e música electrónica/exploratória que nasceu no ano de 2011. Este ano elevou ainda mais a sua marca devido às inúmeras referências por parte da imprensa musical pelo mundo fora. Também é de notar a confiança do vasto público assíduo de vários pontos do país e também do estrangeiro que têm feito esta romaria anual até à cidade minhota; pois este ano os passes gerais esgotaram a 2 meses e os diários a 1 mês do início do festival e antes sequer do cartaz estar encerrado. Mantém-se no mesmo molde; um festival com sobreposições mínusculas de eventos (e apenas em duas ocasiões), fácil acesso aos locais dos mesmos e o número de artistas é o perfeito. Não esquecendo também as inúmeras instalações e conversas conduzidas pela revista britânica The Wire. E ainda bem que é assim que se vai mantendo, pois não há uma saturação de eventos, onde tudo pode ser bem digerido como um bom vinho e de forma relaxada. Desta forma os artistas têm mais tempo para actuar e também eles próprios disfrutar os 3 dias.

30 de Outubro – Noite agridoce: Roedelius encanta mas há um vazio que veio de Detroit

Na primeira edição do festival já se tinha feito história devido ao fundador dos Cluster e dos Harmonia (ambas bandas de culto da cena kraut-rock), Hans-Joachim Roedelius ter pisado o palco principal do Theatro Circo sob o nome de Qluster (renovação dos Cluster em 1996, acompanhado apenas por Onnen Bock). Este ano já com 81 anos (que os cumpriu a 4 dias do Semibreve) e em excelente forma, voltou a pisar o mesmo palco ao lado de 4 artistas portugueses (André Gonçalves, José Alberto Gomes, Rui Dias e Maria Mónica). O alemão apresentou-se no centro do palco, “rodeado” pelos portugueses que em conjunto deram um concerto muito relaxado e agradável; com vários objectos manipulados por Maria Mónica a serem projectados para a tela, texturas incríveis iam sendo criadas, fazendo jus aos sons ambientais que se iam desenvolvendo. O Semibreve não podia ter melhor abertura, celebrando ao mesmo tempo o aniversário de Hans-Joachim Roedelius, no belíssimo e já centenário Theatro Circo que tem apenas uma diferença de 20 anos do alemão.

Pelas 22:40 entrou a tão aguardada enigmática dupla de Detroit, Dopplereffekt, que já andam há 20 anos a experimentar pelos caminhos do techno/electrónica, carregados com temáticas cientificas. Ocuparam o centro, frente-a-frente e de perfil para o público ostentando apenas dois sintetizadores, lembrando uma certa atitude Kraftwerkiana durante todo o concerto. Os visuais foram constituídos apenas por vídeos “científicos” e grande parte deles com imagens do colisor de partículas do CERN. O set até estava a ser bastante interessante por seguirem uma via mais experimental com a ausência de batida, mas depois veio o problema…quando o vídeo entrou em loop e se repetiu umas 3 vezes. O registo sonoro também se prolongou praticamente inalterado até ao fim, o que tornou o acto muito aborrecido e sem sal. Desilusão enorme.

Continuação do primeiro dia, agora na Black Box do GNRation para um registo mais dançável e sem lugares sentados. A pequena sala acolheu os britânicos Heatsick e Luke Abbott. O primeiro, conhecido por tocar ao vivo apenas com um teclado da Casio, desta vez deu pouco uso ao teclado e trouxe outros instrumentos para fazer um set muito dançável, com sonoridades que iam mais ao Acid-House. Já Luke Abbott, através de sons mais pop e menos experimentais conseguiu ter a sala cheia e colocar o público em enorme euforia.

31 de Outubro – Tim Hecker eleva o talento da miúda sueca; Vessel demente

O dia começava mal com o cancelamento de um dos nomes mais esperados do Semibreve. Tim Hecker já não ia actuar à noite e esse facto alterou o alinhamento do dia. Klara Lewis saltou da última actuação (no pequeno auditório do Theatro Circo) para a primeira, no palco principal. Nem tudo correu mal. Klara Lewis mereceu claramente a sala maior e há que agradecer ao Tim. A sueca de apenas 23 anos mostrou o seu talento através de field recordings e drones por vezes acompanhados com batida, ligados de forma perfeita a vários vídeos hipnotizantes que iam alternando ao longo do acto. Claramente um dos concertos mais memoráveis de todo o festival.

Vessel (outra jovem promessa; neste caso de Bristol e pertencente ao colectivo Young Echo) preencheu o slot deixado em branco por Tim Hecker, começando a sua actuação com os visuais do português Pedro Maia, pelas 22:50. E correu mesmo como se esperava; uma máquina bem oleada com sons mais orgânicos e que parecia andar pelo pós-punk por vezes (principalmente na segunda parte), sem baixar a fasquia durante toda a actuação. Com a tela dividida em dois, Pedro Maia ia projectando imagens viscerais, sado-masoquistas, sempre com uma aura de demência; Vessel manteve-se com uma lanterna na boca, fazendo a festa sozinho no palco durante todo o concerto. Infelizmente foi um concerto que pecou por ter lugares sentados.

Faltava o último showcase do Theatro Circo, no pequeno auditório, a que coube a Sérgio Faria sob o alter-ego de Die Von Brau essa mesma tarefa. Infelizmente a alteração de planos (Casa Rolão – 17:30 para o pequeno auditório – 23:59) devido ao cancelamento de Tim Hecker, não ajudou muito. O ambiente da Casa Rolão teria funcionado muito melhor devido à sua intimacia e ao set que Die Von Brau tinha preparado para esse mesmo efeito. O acto teve a duração de 1 hora aproximadamente e viajou com loops minimalistas e adições de alguns samples com transições suaves, e também sem quaisquer visuais, apenas com uma luz; levaria o público a entrar em modo introspectivo. Pena o som estar demasiado alto muitas vezes e não ter sido mesmo na Casa Rolão.

Até ao momento tudo indicava que iria ser o DIA do festival e faltava apenas ir “estrebuchar” mais uma vez para a Black Box. Desta vez de forma mais experimental com a estreia a solo do sueco Peder Mannerfelt (Roll the Dice; que tocaram em 2014 no SEMIBREVE). Construiu um set dançável/quebrado através da desconstrução de sons virados para a pista de dança para uma sala a meio gás. O melhor ainda estava para vir após uma curta pausa que separa sempre todos os concertos; o aguardado Powell (criador da Diagonal Records) que lotou a Black Box para uma actuação incendiária através de sons directos/agressivos com uma óbvia influência do pós-punk e da EBM, agora com um toque electrónico. Acompanhado apenas por um strobe, foi o suficiente para por a audiência a descarregar tudo. A noite não poderia ter terminado da melhor forma; comprova-se que o Semibreve não é só para estar relaxado e bem instalado numa cadeira.

Powell

Powell

1 de Novembro – Oren Ambarchi sem rumo; um japonês + um francês = IDM no Theatro

Último dia que se mantém no habitual formato de apenas 2 concertos no Theatro Circo e que encerra mais cedo (antes das 20:00), também foi algo agridoce como no dia de abertura. O guitarrista e percussionista australiano Oren Ambarchi abriu as hostes por volta das 17:30 e apresentou-se em palco apenas com uma guitarra e vários efeitos, sem visuais. Infelizmente/felizmente só consegui entrar a meio e do pouco que ouvi (saí passado pouco tempo) não compreendi qual era o objectivo mas se calhar nem tinha; acabou por se tornar incómodo e não fez qualquer sentido na minha cabeça. Talvez deveria ter visto desde o início. Deu para perceber que foi uma actuação que dividiu bastante o público.

E após o último breve intervalo do Semibreve para o tipico esticar de pernas pós-assento, entrariam em palco Takami Nakamoto (japonês residente em Paris) e o francês Sébastien Benoits para fechar a quinta edição do festival. Para apresentar o seu espectáculo Reflections, munidos de vários LED dispostos na vertical no fundo do palco, outros jogos de luz e muito fumo. Takami encarregou-se dos sintetizadores e outros efeitos, enquanto Benoits sentou-se na bateria, para um concerto muito enérgico onde tudo foi perfeito e sem falhas. No final a dupla que fechou o festival teve direito à maior ovação do Semibreve, mesmo tendo em conta que faria mais sentido ter sido num local sem cadeiras devido ao elevado teor dançável.

O Semibreve mais uma vez arriscou em trazer vários nomes pela primeira vez a solo nacional, e sem jogar pelo lado do seguro com sonoridades acessíveis. Pode não ter sido a melhor edição do festival mas continua sempre a mostrar algo de fresco e a garantir uma vez mais a confiança do público perante o mesmo. É de facto já uma experiência de culto o que acontece durante aqueles 3 dias em Braga. Resta esperar ansiosamente pela sexta edição.

(Nota: que venham mais afters não oficiais e de preferência no incrível espaço que é o Convento do Carmo; podem ser sempre o Afonso Macedo e o David Rodrigues, que é o suficiente.)

(Outra nota: a pastelaria que fica a uns míseros passos do Convento do Carmo, cujo nome não me lembro mas que também é incrível.)

Texto de João Baptista

Foto de Afonso Leitão

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