22/08/14

RUC @ Festival Bons Sons ’14

“Vem viver a aldeia” é o lema e convite que encerra a essência do Festival Bons Sons. Quase omnipresente nos meios de publicitação, é nela que assenta a magia de que tantos festivaleiros falam quando se referem ao festival.

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A aldeia de Cem Soldos recebeu entre os dias 14-17 de Agosto a quinta edição do festival Bons Sons, transfigurando-se para se preparar para acolher as 38 mil pessoas que a visitaram ao longo dos dias. A aldeia está localizada a quinze quilómetros de Tomar, com direcções marcadas a partir da cidade, tornando o acesso fácil a quem se dirigiu ao festival por transporte próprio. A organização também disponibilizou autocarros responsáveis pela ligação de Cem Soldos com as estações de comboio adjacentes, ajudando aqueles que apenas dispunham da sua mochila nas costas.
Oito palcos foram distribuídos por diferentes zonas da vila, que atribuíam um espirito especial a cada um. O palco Giacometti, numa pequena praça, rodeada por casinhas, para concertos mais intimistas. O palco MPAGDP ora dentro da igreja da vila, atribuindo uma tonalidade sagrada à música aí cantada, ora à frente da mesma. O palco Eira, o mais semelhante a recinto de festival, numa encosta relvada e o palco Lopes Graça/Aguardela (o mesmo espaço físico, mas diferente espaço emocional e musical) foram os que receberam os espectáculos mais festivos, menos intimistas e com possibilidade de acolher mais pessoas. Além destes ainda havia o Auditório, palco Tarde ao Sol e palco Acústico (local onde qualquer pessoa se podia inscrever para tocar umas canções usando os instrumentos que a organização disponibilizou).

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Para estes oito palcos foram distribuídos cinquenta e cinco concertos ao longo dos quatro dias, tendo estes ocorrido de forma mais ou menos ininterrupta e com o mínimo possível de sobreposição entre as 14h e as 5h.
No entanto, não é só da música que vive este festival. Se alguém se manifestar contra esta última frase não viveu o Bons Sons.

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Pelas ruas da aldeia, pululou vida. Bancas de vendas dos mais diversos produtos encheram ruelas paralelas às principais da aldeia. Livros em segunda mão, antigos, recentes, romances de Konstantin Fedin ou relatórios das actividades sindicais dos comerciantes da grande Lisboa, são exemplos da variedade que podia ser encontrada. Discos de vinil, de integridade mais ou menos duvidosa, com preços que, segundo o vendedor, alternavam entre um e setenta e cinco euros, constituíam outra banca.
À medida que percorria estas ruelas, passavam por mim muitos festivaleiros procurando comprar recordações em formato físico. Outros procuravam as pequenas tabernas que existiam um pouco por toda a vila. As duas mais tradicionais (Adega de D.Sebastião e a outra chamada simplesmente de “Tasca” ou “Loja”) eram as mais desejadas para quem quisesse comprar vinho caseiro ou jogar xadrez ou cartas (disponibilizadas pelos estabelecimentos).
Também um centro de exposições com espaço num armazém antigo de cereais era destino obrigatório para usufruir de momentos mais calmos através da exposição fotográfica “Bandas Sonoras” de Rita Carmo ou “Pintura Fotográfica” de Catarina Vieira Pereira, exemplos de dois projectos que retive mais na memória.
Pelas 16:30, diariamente, havia espaço no Auditório para a sexta edição do “Curtas em Flagrante”, mostra itinerante de curtas-metragens de autores portugueses. No palmarés desta edição passaram 18 curtas-metragens, organizadas em blocos diários de quatro ou cinco, ideal para quem sentisse saudade da sala escura.
A vida para os festivaleiros não se conteve apenas à aldeia de Cem Soldos. Durante as primeiras horas da tarde muitos rumavam a Tomar para propósitos de visita turística ou comercial. Outros para escapar ao calor que se fez sentir, principalmente nos dia 16 e 17, fugiram para a barragem de Castelo de Bode, para as múltiplas praias fluviais que aí existem.

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Se se pode dizer que a música constitui o mote do Bons Sons, a sua essência ultrapassa-a largamente. A aldeia de Cem Soldos transformou-se durante este dias num espaço de comunhão de experiências, de boa-disposição e tranquilidade. Os festivaleiros respeitaram-na e viveram com ela, numa simbiose que roçou a perfeição. Os artistas muito agradeceram ao espirito vivido no festival, atribuindo rasgados elogios ao público, tocando quase sempre mais uma canção do que o inicialmente planeado, abandonando o palco com vontade de voltar.

 

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Dia 13

Quarta-feira dia 13 de Agosto foi o arranque do festival Bons Sons. Com programação oficial apenas cingidas à noite e à zona do campismo, foi aí que foi construído um pequeno palco para dar música aos primeiros festivaleiros.
Pelo final de tarde dia 13 a lotação da área do campismo ainda estava a meio gás, não fazendo prever que no dia a seguir, pela mesma hora, o espaço estaria sobrelotado, pondo a nu as verdadeiras fragilidades da organização do campismo do festival. Durante a tarde ainda estavam a ser montados algumas infraestruturas (casas de banho, chuveiros, bancadas para a lavar a loiça). Por volta da hora do jantar ainda ninguém sabia muito bem quando seriam trocadas os bilhetes por pulseiras, podendo-se circular, sem interferência, pelo recinto do festival da aldeia e do campismo.
A noite caiu e com a sua queda, a música surgiu. Inicialmente apenas com uma playlist de músicas do festival e, mais tarde, com sonoridades a preparar o primeiro espectáculo da noite.
Foi aos Holy Nothing que coube a honra de abrir as hostes do festival, entre as 22:30 e as 23:00 horas. O trio portuense instalou-se no palco da zona campista e, usando sintetizadores, controladores, computador, baixo e guitarra iniciou a produção musical a que nos habituou. Electrónica melodiosa de batidas mais ou menos rápidas que alterna entre o pop electrónico luminoso, beat-making mais negro e melancólico, indo a espaços até sonoridades mais viradas para o techno, cumpriram aquilo a que se propunham, construção de uma pista de dança escura, onde se pode dançar de pé ou sentado. Visitando o seu ep de estreia “Boundaries”, o concerto dos Holy Nothing foi progressivamente enchendo a plateia, tendo o seu final culminado com a maior multidão da noite.
Pouco depois da meia-noite, os responsáveis por fechar a noite subiram ao palco. Falo do dj set, Bons Rapazes, dupla de radialistas da antena 3, que levam à pista de dança as sonoridades do seu programa. Tendo como base um set baseado no house e na pop-electrónica, uma discoteca imaginária foi criada em frente ao palco, faltando apenas uma bola de espelhos ao espirito dos festivaleiros, que dançavam frente a eles. Miguel Quintão a cargo das passagens dos discos, Álvaro Costa a interagir constantemente com o público, propiciaram mais de duas horas de música de sorriso aberto e braços no ar, com que nos habituaram no seu programa de rádio. Passando por Todd Terje, Pet Shop Boys, duas visitas a Disclosure, até às características It’s Not Over Yet dos Klaxons e à remistura da Walking on a Dream dos Empire of the Sun, músicas que faziam tradicionalmente parte das suas playlists do seu programa, terminaram o seu set com Kevin Drew e a sua Good Sex. Neste momento, Álvaro Costa desejou um festival cheio de coisas boas aos “insurrectos” que ainda se mantinham à sua frente. A sorte estava lançada, e a primeira noite (não) oficial do festival estava terminada.

Dia 14
Primeiro dia do festival dentro da aldeia Cem Soldos. A partir das 13:30, as filas começaram a formar-se nas portas das quatro entradas para o recinto da aldeia. A troca dos bilhetes para as pulseiras foi-se fazendo tranquilamente com o sol no zénite. Pela tarde fora muitos festivaleiros chegaram para comprar bilhetes ou só para montar as suas tendas no que passou uma zona de campismo densamente povoada, contrastando com a situação do dia anterior.
Falando de música, o início dos concertos estava marcado para as 15:00 com dois concertos sobrepostos, os Vira Casaca no palco MPAGDP e a pianista Joana Gama no Auditório. O primeiro destes começou com algum atraso motivado pelo facto de, no palco principal que se localizava a umas duas centenas de metros, ainda se estar a realizar o soundcheck dos Galandum Galundaina, o que fazia com que, em algumas localizações fosse possível duas músicas diferentes em simultâneo.
Quando começou o concerto dos Vira Casaca, a banda de Santarém podia contar com um aglomerado de algumas dezenas de pessoas para os ver e ouvir. Dotados de uma aparência e estilo irreverentes, o grupo formado em 2012 iniciou o seu concerto com toda a intensidade característica do seu pop-rock vindo das Lezírias. Quase escusado será dizer que o ponto alto do seu concerto foi a música “Betinhas de Santarém” o seu primeiro, e único single editado até à data, que levou o público presente a esquecer o calor e para libertar os seus passos de dança. Elementos dos Vira Casaca chegaram mesmo a vir tocar para o meio dos espectadores, contribuindo ainda mais para o divertimento do concerto.

Vira Casaca

Vira Casaca

Ao mesmo tempo, na outra ponta da aldeia, no Auditório, iniciou-se o concerto de Joana Gama. Estra trouxe até ao Bons Sons o seu recital de piano “Viagens na Minha Terra”. Durante uma hora, o seu piano levou a sala escura até paragens distantes, em que se esvanecia da memória, o sol e a agitação do exterior, transportando a audiência até à melancolia de um ambiente mais marcado pelo outono e pela nostalgia. Alternando entre trechos melodiosos em que o piano nos conforta e entre pequenos momentos tempestivos em que ele nos afasta, houve uma construção em que a harmonia e o caos se fundiam de alguma maneira. O final anunciado culminou numa salva de palmas tão sentida que o regresso ao piano de Joana Gama foi inevitável, e o ponto alto do concerto foi atingido. Com um sorriso da pianista, as portas do auditório foram abertas, o Sol regressou e com ele a azáfama do festival.

Voltando ao palco que anteriormente teve a explosiva actuação dos Vira Casaca, foi aqui que decorreu o espectáculo seguinte. Ana Cláudia, com o seu projecto musical de fusão, definido por ela como o acto de cantar coisas bonitas em português, encantou e embalou uma plateia bem composta. Entre a música tradicional portuguesa e sonoridades enraizadas no jazz a voz de Ana Cláudia guiou-nos tarde a dentro até bem perto das 17 horas.

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Ana Cláudia

Pouco antes das sete coube ao projecto a solo e em nome próprio de Peixe, guitarrista dos Ornatos Violeta, Pluto e Zelig, conduzir a actuação inaugural do Palco Giacometti. Espaço localizado numa praceta, entre casas de dois andares, com lotação para uma plateia de centenas de pessoas de pé, com possibilidade de algumas espreitarem de janelas vizinhas ou de varandas contíguas. Peixe, no centro do palco, munido da sua guitarra e ladeado por dois músicos que ao longo do concerto foram trocando de instrumentos, criou sonoridades de fusão entre estilos, em que o improviso andou de mãos dadas com um alinhamento com faixas oriundas do seu álbum “Apneia” de 2012. Perante a praceta quase lotada para o ver, constituiu-se aqui, o primeiro momento de maior dimensão humana do festival.

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Peixe

JP Simões iniciou o seu concerto pouco depois das nove da noite. Sozinho, acompanhado da sua guitarra, com “casa” cheia no palco Giacometti, com o espaço completamente repleto saindo dele braços de pessoas pelas ruas contíguas, JP Simões iniciou o seu rol de canções. Com uma interação bem-disposta com o público, a voz do artista foi contando histórias de emoções e sentimentos, em três línguas diferentes, escritas pelo seu punho, ou pelo punho de outros (cantou, por exemplo, Eleanor Rigby original dos Beatles). JP Simões foi guiando uma plateia em que o silêncio da sintonia com a música era quebrado pelas salvas de palmas e por uma aclamação unânime das canções. Durante a actuação várias vezes se dirigiu ao público, com pequenos comentários, alguns de tom humorístico, outros nem tanto. Para terminar o seu espectáculo foi escolhido o tema “Gosto de me Drogar”, cantado a meias com o público, tendo levado o cantor a prolongar um pouco mais o concerto, com outra música a ser tocada logo depois, que apesar de algumas dificuldades técnicas na gravação de alguns loops, fechou com chave de ouro o concerto.

JP Simões

JP Simões

Reservada para a primeira noite do festival, no palco Lopes Graça estava a actuação dos grupos Charanga, Omiri e Nó d’alma, projectos finalistas do concurso para os Prémios Megafone / Sociedade Portuguesa de Autores com atribuição posterior do galardão ao vencedor. O júri composto por sete elementos, um dos quais um elemento da nossa Rádio Universidade de Coimbra, Fausto Silva, elegeu como vencedor o grupo Charanga, de entre 41 candidaturas. Esta foi a segunda edição dos prémios Megafone, tendo a primeira sido ganha pelos Galandum Galundaina em 2010, grupo que iria tocar mais tarde no mesmo palco.

Com um certo atraso começou o concerto dos Capitães da Areia no palco MPAGDP, para uma multidão entusiasmada e entusiasmante que se concentrou à sai frente e que se prolongou praticamente até ao palco Lopes Graça. O quarteto de capitães, numa postura enérgica e em sintonia com os espectadores produziu um dos concertos com mais movimento, suor e dança do dia, percorrendo o seu disco de 2011, “O Verão Eterno d’Os Capitães da Areia” e aquele que será lançado no mês de Outubro, o “A Viagem dos Capitães da Areia a bordo do Apolo 70”.

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Capitães da Areia

Este não foi o concerto mais animado do dia apenas porque a seguir aos Capitães da Areia, por volta da uma e meia, com já sensivelmente 45 minutos de atraso, subiram ao palco Lopes Graça, os anteriores vencedores dos prémios Megafone, os Galandum Galundaina. O grupo de música tradicional mirandesa, composto por um quarteto em palco, cantando por vezes a uma voz, noutros casos a quatro, com elementos multi instrumentalistas construiu uma actuação dotada de uma energia que mais nenhum concerto conseguiu reunir. O público respondeu a essa energia com uma entrega vigorosa, tendo a dança sido iniciada com a primeira música e continuado até à última. Foi no terço final o ponto mais alto da actuação, não correspondendo somente a uma música, mas a essa porção num todo, com as duas músicas finais, “Nos tenemos muitos nabos” e “Galandum Galundaina” a construírem a apoteose do encore com a “Fraile Cornudo”. Com uma interação constante com o público, pode haver dúvidas se foi deles o concerto do festival, mas não há duvidas que foram eles que puseram mais pessoas a dançar ao mesmo tempo.

Galandum Galundaina

Galandum Galundaina

Com o final do concerto dos Galandum Galundaina, já muito tardio em relação à hora marcada, não me foi possível a audição de mais do que duas músicas de Hombres con Hambre. O grupo tocava à frente de uma pequena multidão, não comparável à que estava sediada no Palco Lopes-Graça. Quando o concerto dos Hombres com Hambre terminou, optei por me dirigir ao palco Aguardela, para o dj set de Ricardo Alexandre e Luis Varatojo, os DJ Megafone, dois elementos do júri dos prémios Megafone. Num set de homenagem a João Aguardela, este iniciou-se com remisturas e passagens por faixas icónicas da música pop portuguesa, como “O Corpo é Que Paga” de António Variações ou “Vida de Marinheiro” dos Sitiados. A actuação dos DJ Megafone foi progredindo com outras remisturas, com uso de samples humorísticos conhecidos pela maioria dos espectadores, sempre se baseando em aspectos da cultura tradicional portuguesa. Com o avançar da noite a música evoluiu para uma sonoridade mais electrónica com influências de músicas do mundo, da Arábia à África, com o tema “Alegria” dos Batida a ser aquele que mais electricidade criou. O final ficou reservado para a “Grandola Vila Morena” ser entoada em plenos pulmões por grande parte dos resistentes que ficaram nas imediações do palco, quando o relógio batia as 5 badaladas.

DJ Megafone © CS

DJ Megafone © CM

Suplementos de Fausto Silva
Destaque maior neste dia para os Prémios Megafone mas houve muito mais a referir. N.A.C.O. é projecto de Miguel Ramos aqui acompanhado por Nicolas Tricot em que o imaginário de “Nunca Acordo Como Ontem” é povoado de pequenas canções com guitarra e baixo que nos transportam a paisagens áridas tão bem descritas pelo recinto deste palco Eira inaugurado neste festival por este duo. A seguir ouvimos a pop juvenil dos Ciclo Preparatório já com uma legião de jovens fans. Entusiasmaram no palco MPAGDP que nesta quinta foi fora da igreja. A AZÁFAMA apresentou neste festival seis bandas em mini-concertos. Entre o que conseguimos ver destaque para a “música para fazer fotossíntese” dos Cachupa Psicadélica a recordar a terra natal cabo Verde, para o pop de O Martim e para o rock dos TV Rural. Quanto aos Prémios Megafone devo referir que as três bandas a concurso encarnam bem o espírito Megafone/Aguardela e que é muito bom começarem a haver cada vez mais projectos a pensarem na “música para uma nova tradição”.

Cachupa Psicológica

Cachupa Psicadélica

Dia 15
No Bons Sons a música do dia 15 de Agosto começou no palco MPAGDP, agora já dentro da igreja para o concerto dos B’rbicacho. E o público agradeceu duplamente. Em primeiro lugar, fugiu ao calor abrasador das duas da tarde de Cem Soldos. Em segundo lugar, teve a possibilidade de assistir a três espectáculos em contexto e terreno sagrado, com uma acústica não perfeita, mas especial.
Foram, então, as B’rbicacho a iniciar a tarde de concertos na igreja. O trio feminino, que combina viola de gamba, flauta, clarinete e guitarra de forma a interpretar temas com influências de música tradicional portuguesa, música medieval, ou chorinho brasileiro, propiciou um concerto calmo e embalante, óptimo para iniciar a tarde. Foi um concerto para bailar suavemente de mãos dadas e brilho nos olhos, a ouvir a fusão das três vozes da Ana Sousa, Joana Guiné e Stela Silva.

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B’rbicacho

Pouco depois foi a vez do Reportório Osório subir ao MPAGDP. Uma coleção de canções escritas por Luís Fernandes com música de Luís Cardoso, o Reportório Osório define-se como um desfiar de histórias pessoais cantadas do dilema ao dilúvio em poucas estrofes. Palco desta peça cantada foi o estrado da igreja, uma sala de teatro invulgar, bem aproveitada por este casal. Ela munida de acordeão fornecia contexto musical as palavras que ele dizia, cantava.

Reportório Osório

Reportório Osório

Entretanto o reportório terminou e à porta da igreja já estavam perfilados os Marko i Blacky Orkestar. Com as primeiras notas tocadas, esta fanfarra portuguesa apaixonada por música balcânica, já tinha defronte si um pequeno grupo. Este grupo de umas poucas dezenas de indivíduos, munidos de bisnagas e pistolas de água iam combatendo o calor do sol e o calor da dança, mantendo possível o movimento do corpo. Com a energia e o espirito da música balcânica uma pequena multidão foi-se juntando disparando água em todas as direcções e sentindo cada nota como um diferente passo de dança. Eram esperadas vontade e energia na actuação e na plateia, mas não da forma como vimos. Ritmos inebriantes e imparáveis foram tocados e não pararam na última música planeada, continuando num encore em que uma pausa não existiu realmente, com o mítico tema Kalashnikov de Goran Bregovic.

Marko i Blacky Orkestar

Marko i Blacky Orkestar

A fanfarra dos Marko i Blacky Orkestar terminou depois da hora o que impossibilitou a audição integral do concerto das Anarchicks. No plano de distribuição dos concertos estava escrito que iriam tocar uma hora depois da fanfarra, mas a realidade pregou uma partida. Efeitos colaterais de um festival com tanto a acontecer ao mesmo tempo. Ainda assim, o relato de quem assistiu ao concerto das Anarchicks foi carregado de elogios, não mostrando arrependimento por ter escolhido este, em detrimento do outro. Debaixo do mesmo sol, não houve o mesmo tipo de música, mas houve a mesma entrega de parte a parte. Guitarra e baixo carregados de rock e de punk dão braços com sintetizador e bateria, para construir as camadas pelas quais as quatro vozes, das quatro mulheres em palco, desafiam o público a seguirem o caminho por elas traçado. É sempre bom ver entrega e vontade de criar e tocar música. Foram essas as ideias que me ficaram dos poucos minutos em que pude ver as Anarchicks.

Anarchik

Anarchiks

O público do Bons Sons não desiste de enfrentar as agruras do tempo e não baixa os braços para parar de bater palmas mesmo quando as mãos já doem. Com um público assim é muito fácil ter bons concertos. A sensação que me trouxe é que o espírito dos festivaleiros dos bons sons é o mais único e puro dos festivais em que já estive. Mas agora é tempo de regressar à igreja para mais um concerto, uma das minhas maiores supresas do festival.
Falo do duo Lavoisier. Roberto munido de guitarra dá a voz que suporta Patrícia que, com uma pandeireta na mão, é o segundo elemento desta dupla e a verdadeira voz das canções, aquela que mais nos atinge. Cantando o seu ep, lançado em fevereiro deste ano de seu nome “De Eus para MIM num FA​(​R​)​DO de Alecrim Durme Sra. do Almortão”, brindaram a audiência que se encontrava numa igreja que já não tinha lugar para mais ninguém.

Lavoisier

Lavoisier

Nada se cria nada se perde, tudo se transforma, foi a frase de Lavoisier que ficou para a História. É isso mesmo o que os Lavoisier se propõem fazer, dando uma diferente voz e um diferente olhar a uma música com tradição. Exemplo é a Senhora do Almortão, original de Zeca Afonso e talvez o momento mais alto da actuação. A voz de Patrícia ressoou de forma perfeita pelas paredes da igreja, tendo feito vibrar cada um dos ouvintes atentos, culminando num grande aplauso final. Este só não foi o maior do espectáculo, pois esse estava reservado para o momento da despedida, com o público, outrora sentado, agora em pé, a aplaudir longamente.

Saindo de coração cheio da igreja de São Sebastião, os próximos passos guiaram o festival até ao palco Lopes-Graça. A união do folk, country e blues dos lisboetas Nobody’s Bizness cedo se transformou numa banda sonora ideal para o início do por-do-sol, acompanhando os festivaleiros na leitura de livros, nos momentos de família, nas compras, nas conversas. Visitaram os seus dois álbuns, “It’s Everybody’s Bizness Now” de 2010 e o “Donkey” deste ano. Cada tema introduzia-se de forma tranquila nesta vida de festival, tendo no final um aplauso caloroso, não só das poucas centenas que se localizavam a frente do palco, mas também daqueles que se encontravam dispersos e que agradeciam pela música.

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Nobody’s Bizness

Com os Long Way to Alaska cancelados e com a aproximação das oito horas da noite, uma pausa nos concertos foi necessária para cumprir as rotinas da vida em campismo.
Pelas onze badaladas foi tempo de escutar a música folk intimista de Samuel Úria. Propositadamente no palco Giacometti, aquele escolhido para ouvir mais com o coração do que com os ouvidos. Samuel Úria entrou sozinho, com a sua guitarra e cabelo ao vento. Entoou as suas canções com um público que cantava como ele e com ele. Temas como “Não arrastes o meu caixão “, ou o encore “Ovelha Perdida” foram correntes de emoção que ligaram Samuel Úria ao seu público, que o levaram a proferir palavras elogiosas a todos os que estiveram presentes, num palco Giacometti que só pecava pela incapacidade que tinha em arcar com tantas pessoas, mas por isso mesmo lhe dava a magia que o tornava diferente dos outros.

Samuel Úria

Samuel Úria

Com algum atraso cheguei ao concerto de Capicua, rapper portuense de seu nome Ana Fernandes. Concerto que provocava enorme expectativa em muitos festivaleiros com que falei, teve uma plateia em concordância com esse sentimento. O público do Bons Sons, como não podia faltar à regra, encheu o palco Eira de corpos, dança e voz, embalando a Capicua para voos altos. Percorreu principalmente o seu disco de 2014, “Sereia Louca” aquele que lhe conferiu mais visibilidade. Com a companhia do dj de serviço D-One e a MC M7, Capicua ateou fogo ao público da Eira, e estes, num incêndio a uma só voz cantaram com ela o single “Vayorken”, tendo dançado sempre, mesmo quando a memória já não recordava os versos de outras. De referir também a colaboração da guitarra de Mistah Isaac nalgumas canções. Referências a Zeca Afonso, gritos por liberdade, contra a insatisfação, com batidas ora cheias de Groove, ora mais clássicas culminaram numa grande ovação no final do concerto. O hip-hop invadiu o recinto, tendo crianças, jovens e pessoas idosas, todas sorrido com ele. Como tem sido habitual, pois claro.

Capicua

Capicua

Tempo de rumar ao palco principal e dar espaço aos Gaiteiros de Lisboa de criarem o seu ambiente característico de música tradicional que puxa, do mais novo ao mais velho, uma dança constante. Neste aspecto, notou-se um cuidado da programação do Festival em incluir no palco principal, em horas mais tardias, um novo fôlego nas novas formas de produzir música tradicional portuguesa associadas à dança. Porque a música de dança e a música que chama pessoas não tem de ser rock ou electrónica, como assim se comprovou, no primeiro dia, com Galandum Galundaina, no segundo com os Gaiteiros de Lisboa e no terceiro com Aduf. Todos eles com aplausos unânimes dos festivaleiros, todos eles dançados, todos eles tendo feito uma espécie de encore, já que o público não queria que a música terminasse.

Gaiteiros de Lisboa

Gaiteiros de Lisboa

Para terminar a noite, dando música até bem perto cinco da manhã, esteve Moullinex com a lição bem estudada num dj set pensado e enraizado nos caminhos entre house e techno. Circulando entre estas coordenadas desviando um pouco delas (“Strandbar” de Todd Terje é um exemplo) ou muito (“Minha Menina” dos Mutantes), o momento mais alto do set coube ao seu tema “Take My Pain Away”. Com uma multidão que não parou de dançar, o lisboeta Moullinex gesticulou no final um pedido de desculpas por ter de terminar o set. Com muitos aplausos saiu de palco, não sem antes dar o seu ananás e a sua garrafa de água, elementos “decorativos” da mesa onde criou as duas horas frenéticas anteriores.

Moullinex

Moullinex

Suplemento de Fausto Silva
Quanto a mim os destaques maiores para Reportório Osório, Samuel Úria e Capicua que mostrou também a cauda para além da cabeça de Sereia Louca com a companhia de Mistah Isaac em versões acústicas de alguns dos seus temas. Gisela João apresentou-se no palco Eira em virtude do cancelamento dos Long Way To Alaska (devido a doença de um dos seus elementos que os obrigou a cancelarem 3 concertos por estes dias). A fadista justificou e bem tudo o que se diz a seu respeito. Uma voz poderosa, uma entrega assinalável levaram ao rubro os que ali estavam para a ver mais parecendo que o público assistia a um concerto rock. Até o partir de uma corda serviu para um improviso. A seguir era vez dos Brass Wires Orchestra no palco Lopes Graça. Com o disco Cornerstone saído recentemente apresentaram sonoridades folk que agradaram ao público presente numa banda que mais parece uma orquestra.

Dia 16

Mais um início de noite, mais um concerto onde o palco Giacometti foi recinto de emoções à flor da pele e suspiros perdidos. Às 22 horas os primeiros sons surgiram. David Santos, ou melhor, Noiserv subiu ao palco e iniciou uma viagem com cada um dos seus ouvintes. Sempre com a sua guitarra por perto, enceta a construção de loops que podíamos ouvir para sempre, camada em camada, formando, passado uns minutos, uma canção que já todos tinham reconhecido antes. Foi esta a construção metódica, contida e emocional que guiou o concerto deste multi-instrumentalista. Destaque tem de ser feito para os temas “This is Maybe The Place Where Trains Are Going To Sleep At Night”, “Bullets on Parade” ou a “Palco do Tempo”, única música cantada em português. Embalando sempre o público com as suas músicas, apenas intercaladas aqui e ali por um pedido especial aos responsáveis pelo som, por um pormenor que não tenha sido bem resolvido no soundcheck. Também ao público foi endereçado um pedido para não bater palmas durante só um minuto, para não interferir com a gravação da guitarra. Este pedido foi dito com um sorriso de gratidão por parte do artista, tendo sido seguido por uma grande ovação. Para terminar o concerto Noiserv escolheu o último tema do seu primeiro disco. Foi Bontempi do One Hundred Miles from Thoughtlessness, já como encore, que fechou um dos concertos mais aplaudidos do festival.

Noiserv

Noiserv

Seguidamente à viagem musico-sentimental com Noiserv, no palco Lopes Graça um rumo igualmente rico foi traçado por Ricardo Ribeiro. Fadista que começou a cantar com 9 anos, conta agora 33 e presenteou a plateia com um fado que ao mesmo tempo percorreu a sua obra (destaque para o seu último registo, Largo da Memória), como também a obra de outros fadistas, com homenagens a Vicente Câmara, Zeca Afonso ou a António Zambujo.

Ricardo Ribeiro

Ricardo Ribeiro

Alternou canções de fado de saudade, com cantigas que nos transportam para trovas do Bairro Alto. Estas últimas constituíram o tom dominante do seu concerto. Cantigas que puxam a dança mais chegada entre casais e que propiciam o espaço para cantar com ele. O ponto mais alto foi a maravilhosa interpretação de Ricardo Ribeiro à “Nem às Paredes Confesso”, cheia de homenagens a amigos do fadista e brincadeiras com o público, arrancando gargalhadas sinceras e um aplauso monumental.
No final da actuação do fadista, adufes gigantes começaram a ser colocados no palco, para a preparação do concerto dos Aduf, nome homónimo do instrumento de percussão da música tradicional da Beira Baixa que é a essência musical do grupo.
Entretanto e antes do concerto dos Aduf, outro já tinha arrancado no palco Eira. Falo dos Los Waves que inundaram o palco Eira com a mistura de dream-pop com rock, com pitadas de tropicalismo e psicadelismo. A sua conjugação de influências e de personalidades musicais resultou (como podia não resultar com este público?) em pleno perante a plateia repleta, de pessoas que já os esperavam e de festivaleiros que chegaram calmamente depois do concerto de Ricardo Ribeiro. Com passagens por “Got a Feeling” (um dos momentos mais altos), “Darling” ( primeiro single para o álbum a ser editado em próximo setembro), foi com uma remistura para” Sheepdog” dos Mando Diao, que os Los Waves se despediram do Bons Sons, deixando uma atmosfera de dança feliz para trás.

Los Waves

Los Waves

A partir daí os pés dos festivaleiros indicaram espontaneamente o caminho para esses quatro instrumentos de percussão gigantes já dispostos no palco Lopes Graça, que conferiam um ambiente cénico especial à actuação dos Aduf. Acompanhados por uma teclados, guitarra, vários instrumentos de sopro e uma voz feminina, os instrumentos adufe foram sendo tocados, numa dança a oito mãos. Misturando conceitos de música portuguesa, com outras raízes étnicas, de modernidade e tradição, há que ser dado o destaque à cantora basca Maria Berasarte convidada pelos mentores do projecto, José Peixoto e José Salgueiro. Este convite foi para dar uma dimensão ibérica ao conjunto, tendo sido talvez mais do que os adufes, a grande alma do concerto.

Aduf

Aduf

Se se fala de diferentes estilos e influencias musicais condensadas em certas ideias, os Aduf abriram o caminho para a transformação do palco Lopes Graça em palco Aguardela. Este foi invadido pela música Africana que reina nas pistas de dança. O kuduro, o kizomba, a tarracha, o zouk bass, todos fundidos numa só ideia de dança. Quem começou foram os Blacksea não Maya Djs, com a posterior colaboração do Dj Makobu e o Dj Marfox. Com ritmos fortes característicos da identidade musical que possuem combinando a contínua exploração de mistura de diferentes sonoridades, incendiaram a plateia do palco Aguardela. Desistências foram acontecendo com a primeira meia hora, sendo o principal argumento a “falta de força para continuar” de acordo com a opinião de alguns festivaleiros. A verdade é que estamos na véspera do dia terminal do festival e há que poupar baterias.

Suplemento de Fausto Silva
O sábado começou para mim com Tiago Sousa ao piano e não só. Auditório cheio para ouvir um dos músicos mais interessantes na forma como aborda o piano criando coisas novas. OrBlua vieram do Algarve até ao palco MPAGDP com uma transformação do tradicional por conta dos 3 músicos e muitos instrumentos. Primeiro nas ruas e depois no palco Tarde ao Sol tivemos oportunidade de ouvir os Tocá Rufar. Desde o s mais novos até aos já não tão novos todos com muita energia a rufar nos tambores. Nesta salada de sons mais uma corrida mais uma viagem até ao palco Eira para ouvir os Torto. Trio de rock sem voz que nos leva até ao pós-rock pelas mãos de Jorge Coelho, Jorge Queijo e Miguel Ramos. Voltamos à igreja para ouvir Mila Dores em quinteto com o seu pop carregado de jazz. Descida ao palco Giacometti para ouvir a dupla Norberto Lobo e João Lobo muito próximos do jazz com guitarra e bateria a trilharem caminhos interessantes usando toda a mestria dos dois executantes. Na estreia do Lopes-Graça no sábado o concerto de despedida dos Guta Naki. Ponto de ordem à mesa: não concordo com este fim. O trio deu um dos melhores concertos que já vi da banda. Uma pop lenta que cativa e se entranha. De volta à Eira para os Osso Vaidoso que se apresentam no formato de quarteto que foi estreado recentemente em Coimbra. Ana Deus aquece ainda mais a tarde já bastante quente e Alexandre Soares é um mestre no domínio da guitarra. A bateria e o contrabaixo acrescentam corpo ao projecto. O que mais gostei nesta tarde foi Osso Vaidoso e Guta Naki.

Dia 17
A tarde de dia 17 foi outra tarde de temperaturas a bater os 35 graus, com um calor e sol tão intenso, que a pulverização por bisnagas aleatórias foi uma moda tão praticada como agradecida. A música essa continuou sempre, quer ao sol, quer nos espaços interiores, conforme o alinhamento estabelecido. O primeiro concerto da tarde, que tive oportunidade de ver, aconteceu quando o sol ainda não dava tréguas, por volta das três e meia.
Sopa de Pedra é nome de delícia gastronómica que era vendida numa “cantina” do festival, mas também foi o nome dado ao conjunto feminino que actuou no palco tardes ao sol. Mantendo-se fiel à música tradicional portuguesa, este grupo, fundado no Porto em 2012, tocou para umas poucas dezenas de espectadores que se foram dispondo ao redor das casas de Cem Soldos, na vã tentativa de arranjar uma sombra que diminuísse o calor que se fazia sentir. Muito aplaudidas pelo esforço de cantar sob estas condições extremas, não foi por estas que a voz lhes faltou, conseguindo criar um concerto irrepreensível, apoiando-se em trovas rurais do Continente, dos Açores e, até oriundas de Castela.

Sopa da Pedra

Sopa da Pedra

Quando o ponteiro das horas se começou a aproximar das cinco uma decisão teve que ser tomada, escolher entre os Ermo e os Campaniça Trio.
Os Ermo foram os escolhidos. António Costa (na voz) e Bernardo Barbosa (nos instrumentais) constituem este duo bracarense que à hora certa deu música ao palco Giacometti. A sua personalidade musical consiste numa eletrónica centrada na produção de beats, mais ou menos soturnos, mais ou menos dançáveis, que constroem uma base onde António Costa se apoia para cantar, declamar poemas ou canções com uma força imagética muito forte. Esta dualidade de construção combina-se de forma estruturada e coesa, formando um espectáculo que resulta muito bem ao vivo, com António a conseguir estabelecer uma boa relação com o público, que não abundava, fruto das circunstâncias meteorológicas que se faziam sentir, com toda a sombra dos edifícios a ser ocupada por espectadores sentados. António Costa, sem perder o ímpeto, dominou o palco, enchendo-o de palavras e de gestos que expressam o que as palavras não o conseguem, arrancando uma interpretação digna de registo. Com os temas das canções a circular críticas à política, à sociedade e um ataque aberto à pedofilia, foi com Pangloss que os Ermo encerraram o concerto.

Ermo

Ermo

A Presença das Formigas era o nome seguinte a actuar, desta feita a abrir o palco Lopes Graça para este último dia de festival. O seu concerto decorreu com casa a meio gás, para algumas centenas de pessoas, algumas mais centradas nas danças de uma criança de três anos. Esta prontamente foi imitada por alguns, tendo no final do concerto uma pequena multidão a segui-la. O concerto continuava com a voz de Sara Vidal sempre presente, com ela a manejar ora um pequeno adufo ora uma pandeireta e secundada por um baixo, uma guitarra portuguesa, um acordeão e bateria. Este conjunto de “formigas” foram produzindo sonoridades alegres e frescas que, com o início do por de sol, iniciam o processo de consciencialização nostálgica do final do festival. Mas ele entretanto prossegue.

São 19 horas e os Memória de Peixe sobem ao palco Eira. O duo musical, composto por guitarra e bateria, de imediato, mostrou o objectivo real da sua vinda ao Bons Sons: espalhar, atacar, invadir o palco Eira com o seu pós-rock/math-rock usando apenas os dois instrumentos. Com tenacidade, Miguel Nicolau foi usando a guitarra a seu bel-prazer, apoiado em loops infindáveis e na constante bateria que nunca a largava. Com o melhor momento a pertencer ao single “Estrela Morena” também foi aqui que os rasgos mais psicadélicos surgiram, transformando uma música de quatro minutos, no dobro da duração e na maior ovação do concerto.

jk

Memória de Peixe

Com o Sol já pôr-se as necessidades festivaleiras impediram-me de ver as actuações de António Chainho e dos We Trust & Banda Filarmónica Gualdim Pais. Destes últimos vi o seu soundcheck, tendo-me crescido muita curiosidade que não consegui ver satisfeita.
Já a noite se pôs há algum tempo quando chega o momento mais esperado da noite, ou mesmo do festival. Sérgio Godinho sobe ao palco Lopes Graça para um concerto cheio de sentimento, algo atribulado. Com muitas proclamações de amizade e carinho recíprocas entre o cantor e o público, o concerto arrancou recheado de clássicos que tantos souberam cantar de cor. Espectáculo com a palavra “Liberdade” escrita no seu cenário foi ao redor desta que o músico desfiou temas da sua obra que foram desde 1971 a 2013. Temas como “Brilhozinho nos Olhos” ou “Lisboa que Amanhece” foram recebidos como hinos. De recordar também uma visita ao tema “Vampiros” de Zeca Afonso.
A meio da duração, Sérgio Godinho cai no fosso entre o palco e as grades sendo assistido de imediato, silenciando toda a plateia que o ouvia. Passado um pouco soa um aviso de que o cantor estava a ser assistido e de que, se tudo corresses bem, voltaria ao concerto. Tal como foi dito assim foi cumprido. Sérgio Godinho voltou com o mesmo entusiasmo de sempre, gracejando sobre o assunto.
O rol de cantigas continuou agora também na companhia de António Serginho a tocar castanholas. O ponto alto foi a muito esperada “Primeiro Dia” com o músico e o público a cantar em uníssono. Este foi o tema final, se Sérgio Godinho não tivesse voltado ao palco para se despedir com “A Noite Passada” e com um trecho da “Liberdade” já cantada anteriormente, para frisar o seu recado emergente à plateia que o assistia.

Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

A honra de terminar as actuações em registo live do festival coube ao grupo First Breath After Coma. Leirienses de origem, com pós-rock e construções harmoniosas no sangue, espalharam esta vocação pelo palco Eira, entusiasmando uns, emocionando outros, não aborrecendo ninguém. O alinhamento da actuação contou com faixas como “The Escape”, “Dead Men Tell No Tales”, contando também com uma versão superlativa da Wait dos M83, tendo sido talvez o ponto alto do concerto. Muito aplaudidos no final, foi uma grande despedida da música portuguesa deste grande festival.

First Breath After Coma

First Breath After Coma

De referir ainda a desilusão que foi o dj set dos Sai de 4. Com a incumbência de encerrar o festival deveriam ter agido musicalmente mais de acordo com o mesmo. Usando uma pop-rock-electrónica pouco fresca e algo redundante (outra vez a remistura majestic da Lykke Li), dá vontade de esquecer que existiu, pertencendo a memória final ao concerto dos First Breath After Coma.

Suplemento de Fausto Silva
A tarde começou no Auditório com os Nome Comum. Uma pop com muitos condimentos tradicionais e uns cheiros do Brasil é apresentada pelo quarteto liderado pelos manos Palmeirim. No palco MPAGDP ouvimos Luís Antero com o seu concerto para olhos vendados em que o destaque vai para o paladar auditivo da música e mais tarde aos Campaniça Trio que transportaram até à igreja de Cem Soldos o calor do Alentejo. Ao fim da tarde António Chainho apresenta-se no palco Giacometti acompanhado de três músicos e das vozes de Filipa Pais e Ana Vieira. Vários instrumentais e várias canções com uma surpresa das duas meninas em duo para o mestre Chainho. Os We Trust apresentaram-se no palco Eira com a Filarmónica Gualdim Pais a participar em metade dos temas e com o convidado Noiserv na parte final em duas canções. Bastante interessante esta mistura que a banda de André Tentúgal já tinha experimentado antes com a Orquestra Artave e que dá novas sonoridades à pop fresca da banda do Porto. Amélia Muge apresentou-se no palco Giacometti acompanhada por Filipe Raposo ao piano num concerto bastante intimista que teve ainda como convidadas as Sopa de Pedra que durante a tarde tinham convidado Amélia Muge para o seu concerto. Os meus destaques para este dia vão para Sopa de Pedra, Memória de Peixe e Sérgio Godinho.

Emissão especial do Santos da Casa, no dia 20 de Agosto:
http://www.mixcloud.com/RadioUniversidadedeCoimbra/ruc-festival-bons-sons-14/

Sai-se do festival com a certeza de que o Bons Sons já é um dos melhores festivais de Portugal. Os números falam por si e as 38 mil pessoas que passaram por estes quatro dias pelo festival são um bom indicador. Dos relatos que diferentes festivaleiros deram, feedback positivo era inequívoco, com eventuais pontos negativos minor como a organização do campismo que tem que ser melhorada, entre outros pontuais. Como nada é perfeito, esperemos que tentem manter o nível excelente que mostraram, reparando esses defeitos apontados, para que este público espectacular continue também a sê-lo, como sempre o foi ao longo destes 4 (5) longos e cheios dias. Um bem-haja ao Bons Sons e até 2016!

Crónica de José Neves; Suplementos de Fausto Silva; Fotografias de Fausto Silva, Carlos Martins (C.M.) e Pedro Sadio (P.S.)

 

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