23/09/11

Tiguana Bibles – “In Loving Memory of…” (Rastilho, 2011)

Quando tanto se fala (e a maioria das vezes com desgraçada razão) no depauperado panorama musical português, não nos devemos nunca esquecer das excepções que confirmam a regra, sob pena de negligenciarmos quem genuinamente nos oferece o que de melhor tem para dar.

Por falar nisso, é tão bom escrever que o problema não reside em não se apostar na música escrita e cantada em português (esse aflitivo sofisma nacional) porque neste ponto, meus caros, nem com playlist´s encomendadas ao melhor radialista luso-chinês da actualidade se retiraria a urgência deste primeiro longa duração dos Tiguana Bibles.
Antes de continuarmos, repliquemos aquilo que muitos já saberão mas que importa sempre sublinhar, no sentido de se perceber quais são os alicerces da banda e que atesta, no fundo, a sua veia criadora (e criativa). Assim sendo, as vidas vividas de um passado robusto de: Victor Torpedo (Tédio Boys , 77, Parkinsons, Blood Safary) ;Tracy Vandal (Karelia – com Alex Kapranos dos Franz Ferdinand, Giant Paw, Dick Johnson, Lincoln); Carlos “Kaló” Mendes (Tédio Boys, 77, Garbage Cats, Parkinsons, Bunnyranch) ; Pedro Serra “P-Rocka” (Garbage Cats  e Ruby Ann & The Boppin’ Boozers) e Augusto Cardoso (A Jigsaw e Bunnyranch).
Posto isto, pouco interessará esgravatar ainda mais o desgastado rótulo “Coimbra”, a fervilhante megalópole nacional do rock, até porque isso seria demasiadamente redutor para nos debruçarmos sobre este novo episódio discográfico da banda.
Aproveitemos o nome do agrupamento – uma adaptação das “tijuana bibles”, pequenos livros eróticos ilustrados e clandestinos, muito populares nos Estados Unidos da América durante a Grande Depressão – para nos deslocarmos definitivamente para o outro lado do Atlântico e entrarmos em casa dos senhores.

Este primogénito “In Loving Memory of…”, reveste-se de especial importância, já que, conforme nos sugere o título, nos remete para o recente falecimento de um dos elementos do colectivo. Falamos do malogrado ex-guitarrista e amigo, o britânico Paul Hofner.
Está cá fora desde Segunda-feira e sublima, como seria expectável e como bem atesta o fortíssimo tema de abertura e também single “Surrender”, o trabalho desenvolvido entre Coimbra e Londres no primeiro registo da banda, “Child of the Moon “ (2008), gravado nos estúdios do amigo Boz Boorer (guitarrista, compositor e director musical de Morrissey). As pistas que nos foram legadas nessa primeira vida indicavam-nos, sem subterfúgios, que esta rapaziada faz questão de não escamotear o profundo conhecimento que tem das raízes mais primitivas do rock´n´ roll e, paralelamente, de todos os seus vasos periféricos bem condimentados no veludo que a voz de Tracy empresta às composições. Não é redundante nem abusado aplicar-lhe o epíteto de femme fatale (sem falsas modéstias, não se vislumbra nenhuma frontwooman tão poderosa em Portugal).
Por outro lado, há estilhaços de novidade, mais no pormenor do que no resultado final que, como se escreveu há pouco, representam um detalhar daquele EP que se lhe antecedeu. Falo, por exemplo, de um trompete que, de imediato, nos transporta para aquela fronteira que tresanda a latinidade, a Sul, na geografia dos Estados Unidos.

Imaginário que é, efectivamente, o deles e, por ora, único em Portugal.
Das peripécias que vadiam entre a paixão, o prazer de pisar o risco e de assumir uma tendência patológica para o equilibrismo na corda bamba da (i)legalidade. Nesse sentido, espreite-se o único tema “repescado”, já com roupa nova, do anterior EP. Em “Against the Law ´this kind of love´” ,Tracy volta a remexer a ferida aberta e roda a faca:“it´s against the law, this kind of love, it´s against the law, to feel the way I feel about love”.
Depois há, não raro, uma sensibilidade que pisca o olho à pop ensanguentada pela lírica de Tracy e Victor Torpedo  numa batalha entre guitarras, que, acompanha, verdade se diga, quase todos os temas.  E o swing por beber  naquele copo de whisky que não mata mas mói?

O imaculado matrimónio entre sensibilidade e bom-gosto é um enorme ponto de partida para qualquer músico, teremos que convir.
Os Tiguana Bibles agarram-no e, dessa forma, posicionam-se tranquilamente na linha da frente do grupo dos mais interessantes projectos nacionais da actualidade. Mas o que mais nos agrada é que, de verdade, não têm país nem vislumbram fronteiras. Não são garimpeiros mas ouro não lhes falta.
Quando jogam cá em casa, sem concorrência congénere, dão-nos de beber muita da água que falta ainda desencantar por este nosso deserto.

E lá fora?
Lá fora, temos a vantagem de, uma ou duas vezes por ano, nos sentirmos os maiores: ora com as tareias do Mourinho, ora, neste caso, com este “In Loving Memory of…” dos Tiguana Bibles.

Texto: João Sardo

 

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