«A New Blues»
Ernesto
       2006-02-16

Ernesto
«A New Blues»
Exceptional (2005)

A electrónica, por si só, nunca conferiu um estatuto de futuro se a base musical à qual se associaria não tivesse o mínimo do interesse. Mas, depois da sua generalização no campo da pop, torna-se ainda mais difícil reconstruir o futuro. Os Massive Attack, por exemplo, pegaram em abrangentes «Blue Lines», retiram-lhes amostras e iniciaram mais uma via para a canção, os United Future Organization encontraram meio de conferir um estilo dançável ao «hard-bop» e ressuscitaram a «bossa-nova» tornando-a música de actualidade outra vez e os Thievery Corportion sintetizaram a tradição dos «sound-systems» jamaicanos inserindo-os num contexto cénico onde a expansão é possível – afinal o cosmos é o lugar por excelência para o sonho. Os exemplo indicados, materializaram-se através dos meios electrónicos, que foram, contudo, somente o meio para atingir o fim.

Mas a música electrónica surgiu quando o transístor ainda nem sequer era totalmente sonhado, chamavam-lhe electroacústica e os Beattles viram nela a possibilidade da concretização de um sonho experimental. Agora, já não é necessário ter fitas magnéticas que percorram o estúdio, para manter um «loop» estável sobre o qual se constrói uma música, como aconteceu com Herbie Hancock - basta um «laptop» com «pro-tools» e fazer «copy&paste» e o «scratching» também não implica um DJ treinado. Quase tudo é possível, à excepção da criação sintética da criatividade.

Ernesto, vulgo Jonatan Bäckelie, sueco de nascença radicado em Birmingham, resolveu lembrar-se que a pop veio do rock, por sua vez com código genético dos «blues» e assim partiu em busca da tradição. Talvez não tenha sido necessário sentir-se tentado pelo diabo num cruzamento da mítica «highway 61» mas antes num encontro de informação na Internet. Resistiu à tentação e seguiu rumo à tradição. «A New Blues» - é disso que se trata verdadeiramente e poderia ter sido o caminho dos Massive Attack, não tivessem eles querido seguir a rota segura do apuro estético antes de se perderem.

Paulo Sebastião