7/09/17

RUC @ SonicBlast Moledo

Como já é costume, o SonicBlast Moledo prenunciou os meados do mês de Agosto no que toca ao calendário nacional de festivais, com mais um alinhamento de luxo a destacar o melhor do rock moderno praticado nas tonalidades de stoner, metal, doom e psych. A 7ª edição deste festival situado na aldeia de Moledo do Minho decorreu nos dias 11 e 12 de Agosto e demarcou-se das anteriores por ter, pela primeira vez, lotação esgotada em ambos os dias, testemunho qualitativo do cartaz programado, que este ano contou com variadas estreias ao vivo no nosso país. A esquemática diária do festival consiste em variados concertos durante a tarde no palco situado na Piscina de Moledo, até que a atenção se vira para o parque infantil situado do outro lado da Rua da Costa, onde se encontra montado o palco principal que se mantém activo até às 3 da manhã.

1º dia

No primeiro dia, os alemães Bar de Monjas abriram as hostilidades, seguidos dos espanhóis Holy Mushroom. Ambos estes projectos praticaram uma sonoridade pesada mas igualmente a propiciar um ambiente relaxante, ideal para o público ainda escasso poder regalar-se junto da piscina. Já as bandas seguintes, todas elas de cariz nacional, procuraram puxar mais pela energia do público que gradualmente ia crescendo a olhos vistos ao reunir-se em torno do palco e da piscina. Foram os estreantes It Was the Elf que começaram por puxar mais pela plateia, enquanto que os regressados (e energéticos) Stone Dead pegaram nesse ânimo e procuraram não replicar o entusiasmo gerado pela banda anterior, mas multiplicá-lo. Feito esse bem-sucedido pois, chegados os Black Bombaim, assumidamente os “cabeças de cartaz” do palco da piscina desse primeiro dia, já o mesmo se encontrava bastante repleto, contando inclusive com elementos de bandas como Elder ou Kikagaku Moyo a testemunhar a pujança a que os espectáculos ao vivo do colectivo de Barcelos já nos habituaram.

Passando para o palco principal, depois do começo energético proporcionado pelos israelitas The Great Machine (uma das últimas confirmações do cartaz), os texanos The Well surgiram como a primeira de muitas surpresas do festival. Embora fossem dos nomes menos conhecidos do cartaz, deram um concerto sólido que tornou muito boa gente fã do colectivo norte-americano, que manifestou inclusive o agrado de não estarem pelos Estados Unidos da América naquele fim de semana, muito provavelmente devido ao que então se passava em Charlottesville. Seguiram-se os Yuri Gagarin, cuja estreia ao vivo em Portugal foi salientada pelo timing do anoitecer, que auxiliou o visual do concerto dos suecos. O mesmo aparentou ser curto, mas tal deveu-se à banda ter optado por uma abordagem mais concisa ao seu rock espacial, negligenciando os interlúdios mais atmosféricos. No entanto, tal contribuiu para que este quinteto de Gotemburgo tivesse tempo de sobra para tocar o seu trabalho de estúdio mais recente (“At The Center Of All Infinity” de 2015) quase na íntegra, bem como para revisitar temas mais antigos como “Sea of Dust” ou “Sonic Invasion 2910”.

Palco Piscina do SonicBlast Moledo 2017.

Bem menos urgentes foram os Kikagaku Moyo, pois aproveitaram o tempo que lhes foi concedido no palco para deixar as suas sonoridades atípicas respirar e cativar sem grandes alaridos o público que, no final de temas como “Kogarashi” ou “Dune”, se encontrou completamente rendido à descoberta da melancolia animada deste conjunto musical oriundo de Tóquio. Tal deveu-se também à componente vocal dos japoneses, cuja serenidade proporcionou o ambiente mais intimista de todo o festival. Igualmente catártico foi o concerto dos Monolord. Banda conterrânea dos Yuri Gagarin que já conquistou um culto nos festivais portugueses, que por sua vez  se manifestou em força depois da pausa musical japonesa dos Kikagaku Moyo. Com o seu doom estrondoso e arrebatador a que já nos habituaram nas suas exibições ao vivo, não deram tréguas e encheram as medidas daqueles que foram acumulando energia durante o concerto anterior, dando vislumbres do seu próximo trabalho de estúdio (“Rust”, a ser lançado em finais de Setembro) e culminando com “Empress Rising”, tema que dá título ao seu longa-duração de estreia e que até hoje continua a ser das composições mais acarinhadas pelos fãs portugueses da banda, pelo menos dada a ovação final que lhes foi dada.

Dito isso, a primeira noite do festival estava bem longe de receber a sua última ovação, até porque os dois concertos que a concluíram revelaram-se como dos mais notáveis de todo o festival. Sem grandes surpresas e apesar dos atrasos que a pouco e pouco se tornavam cada vez mais evidentes, os Elder foram recebidos com grande aparato, como seria de esperar dado que a estreia dos norte-americanos no nosso país era dos eventos mais aguardados do SonicBlast, se não mesmo de qualquer festival de rock deste ano. A banda de Boston trazia na calha o ainda fresco e poderoso “Reflections of a Floating World” cujo alinhamento acabou por compor a grande maioria da sua sessão de hora e meia. E apesar da voz de Nick DiSalvo pecar por não corresponder à produção bombástica presente neste disco mais recente, tal não impediu a que a plateia respondesse à altura dos riffs agressivos da sua guitarra, bem como a toda a perfeição intrumental evidenciada pelo colectivo de Boston. Um concerto sem grandes conversas, pois a emoção musical bastava para comunicar com o público, que reagiu de maneira especialmente eufórica a temas mais clássicos da sua discografia como “Compendium” (cujos acordes iniciais geraram talvez o maior aplauso da noite) ou “Dead Bones Stirring”, que encerrou com chave de ouro um concerto que deixou tudo e todos à beira da exaustão.

Foi nesse clima que os The Cosmic Dead iniciaram aquela tarefa tão hercúlea quão ingrata de dar seguimento ao poderio dos Elder. Para agravar as coisas, os escoceses deram-se de caras com o empecilho de terem perdido todo o seu material no decorrer da viagem que só havia concluído aproximadamente meia-hora antes de darem início ao concerto. Contudo, a banda não se rendeu à exaustão e desânimo e, manifestando uma força de vontade notável enquanto enveredavam instrumentos fornecidos por outras bandas que haviam tocado nesse dia, iniciaram uma outra odisseia, desta feita uma musical composta por trilhos post-psicadélicos, pontuados por diálogos ininteligíveis e percussões constantes. Apesar de alguns percalços preliminares derivados das dificuldades técnicas, lentamente o quarteto foi-se encaminhando e, impressionantemente, conseguiu dar a volta, ressuscitando um público que ainda se encontrava atordoado pelo concerto dos Elder. Com um concerto recheado de temas antigos da banda (apesar de fazerem menção que o seu propósito original era apresentar novas composições) os The Cosmic Dead acabaram por se singrar como uma verdadeira força da natureza e os claros vencedores da primeira noite, se o SonicBlast fosse um concurso de bandas. Não o é e, se há realmente vencedores a apontar nesse primeiro dia, são os resistentes que ficaram até ao final desta jornada musical tresloucada propiciada pelo quarteto de Glasgow.

2º dia

O segundo dia começou de regresso à Piscina do Moledo, com os portuenses Ana Paris a despertar muitos dos campistas com o seu stoner temperado com sintomas do punk e spoken word. Depois da banda do Porto seguiram-se os mexicanos Vinnum Sabbathi, que se prestaram a demonstrar o seu post-metal instrumental que para muitos serviu para se adaptar às tonalidades mais pesadas que a noite final do festival prometia. Depois, numa estranha viragem para uma atmosfera mais lúgubre (dado que era a meio da tarde) mas contemplativa surgiram os portugueses Löbo que revisitaram a sua curta discografia com um ambiente relaxante e confiante, ao ponto de se atentarem alguns vislumbres sonoros do futuro deste virtuoso trio lisboeta. Logo depois, com a plateia e a piscina mais compostas, os Blaak Heat deram seguimento aos mantras meditativos, com o seu rock fortemente condicionado pela musicalidade étnica oriunda do médio oriente. Destaque para a perícia do guitarrista Thomas Bellier que se evidenciou sobretudo nos momentos em que empunhava o oud, uma espécie de alaúde arábe cujo som conjugava perfeitamente com a frescura das águas da piscina. O palco atingiu o seu auge com a exibição caótica dos Toxic Shock, que envolveu não só vários mosh-pits mas bem como invasões pontuais do público ao palco e encerrou com o vocalista da banda belga a fazer um salto majestoso dos andaimes do palco para a piscina. Dos projectos mais memoráveis a passar pelo festival, não só pelo facto do seu estilo musical se distinguir do espectro sonoro do cartaz, mas sobretudo pela energia cativante do quarteto de Antuérpia.

E enquanto os holandeses Death Alley fechavam o palco da piscina com o seu proto-rock influenciado por psicadelismos da década de 70, os Sasquatch inauguravam o palco principal com um entusiasmo e humor (muitas vezes à custa do baterista da banda) que pautou um concerto bastante centrado no seu mais recente trabalho de estúdio “Maneuvers”. O southern-rock a fazer recordar nomes como Clutch ou Fu Manchu deste colectivo californiano que regressou a Moledo depois de terem marcado presença na primeira edição do festival deu lugar depois ao psicadelismo dos igualmente retornados The Machine. A banda que havia pisado esse mesmo palco em 2013 entretanto havia editado o disco “Offblast!” mas as novidades musicais não se limitaram a temas retirados desse álbum. De facto, o concerto dos holandeses acabou por ser aquele que ofereceu mais novidades musicais ainda por editar de todos os concertos do festival. E, apesar do público não estar familiarizado com estas novidades, o fervor musical praticado pela banda de Roterdão não deixou ninguém indiferente. Seguia-se o primeiro “cabeça de cartaz” deste último dia, os lendários Acid King que, num alinhamento escolhido a dedo com o propósito de não ignorar qualquer capítulo da sua extensa discografia, gerou um sentimento hipnotizante que permeou por todo o parque infantil de Moledo do Minho ao som de temas como “2 Wheel Nation” ou “Electric Machine”. Ao lado de The Cosmic Dead, a banda de San Francisco conseguiu assim fornecer uma das vivências mais transcendentais do SonicBlast deste ano.

Palco Principal do SonicBlast Moledo 2017.

Era então chegada a hora de mais uma estreia aguardada pelo público do festival, aquela dos Colour Haze. O trio alemão era sem dúvida dos nomes do cartaz que gerava expectativas exorbitantes e apraz dizer que as superaram. Primeiramente, há que apontar a aprimorada montagem de som a um nível qualitativo bem acima de qualquer outro concerto (se bem que felizmente não houve grandes falhas a apontar em nenhum concerto, à excepção do já mencionado início dos The Cosmic Dead), tal era o esplendor dos variados elementos sonoros, desde os toques percussivos dos pratos e tambores da bateria que apontavam para o uso das mãos ou de baquetes específicas até aos acordes da guitarra e do baixo, tão distintos e no entanto eruditamente conjugados ao ponto de atingir uma rara plenitude melódica que se consegue presenciar ao vivo. Dado que era a sua estreia ao vivo, o público fez questão de expressar o seu contentamento perante uma banda genuinamente surpreendida pela recepção tão calorosa, recompensando a plateia com rendições virtuosas de temas como “She Said” ou “Tempel”, com os quais inauguraram e encerraram respectivamente o espectáculo, prometendo regressar em breve a Portugal sob uma das maiores ovações do festival.

Apesar de se seguirem ao nome mais esperado da noite, os britânicos Orange Goblin não temeram perder a ribalta. Tanto mais, em retrospectiva tal cenário parece quase impossível, dado o carisma colossal do vocalista Ben Ward, um verdadeiro animal de palco que manteve toda a plateia na palma da mão. Fossem ou não fãs da banda londrina era irrelevante, pois a verdade é que a loucura do público (encorajada pelo próprio Ward) foi constante e contagiante, tendo inclusive chegado ao seu apogeu durante o tema “They Come Back (Harvest of Skulls)”, que contou com o maior mosh-pit de toda esta edição do SonicBlast. Com um alinhamento que prestou atenção a todos os trabalhos da discografia dos Orange Goblin desde “Frequencies from Planet Ten” até “Back from the Abyss”, foi um concerto energético que para muitos assinalava já o final do festival. Isto porque durante o último concerto da noite, a cargo dos Dead Witches, começava-se a notar o gradual desaparecimento do público. No entanto, apesar de não terem uma plateia repleta à semelhança de Colour Haze ou Orange Goblin, a nova banda de Mark Greening (ex-baterista dos Electric Wizard) não perdeu o ânimo, conseguindo ainda conquistar o coração de um público visivelmente desgastado. Tal conquista deveu-se não só ao poderio musical dos temas do LP de estreia “Ouija” (bem como alguns inéditos que foram apresentados ao público português, como é o caso de “Queen of Evil”), mas sobretudo ao visual burlesco deste concerto final, cortesia dos jogos de silhuetas sensuais a cargo da vocalista Virginia Monti.

Assim, em 2017 o SonicBlast Moledo cumpriu o prometido: dois dias magníficos de música ao vivo num ambiente folgado, a fazer jus à qualidade do cartaz que enveredava bem como ao ambiente estival da aldeia em que ocorre. Dado a lotação esgotada este ano, que só comprova o âmbito crescente do festival no que toca ao número de espectadores e de estreias ao vivo no nosso país, uma edição em 2018 não só é inevitável, mas sobretudo aguardada pelo público já convertido em ir passar uns dias a Moledo do Minho para apreciar grandes concertos.

Texto de Pedro Nora e Bernardo Machado.

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