7/09/17

RUC @ EDP Vilar de Mouros ’17

O decano dos festivais nacionais continua a marcar a temporada musical de Verão, com um cartaz de encher o olho (apesar de algo desequilibrado), recuperando bandas com um cunho essencialmente histórico. Houve momentos que irão ficar na memória dos que lá estiveram na edição deste ano, ou não tivéssemos assistido à colaboração de Bobby Gillespie na bateria ao lado dos antigos companheiros The Jesus and Mary Chain.
De 1968, data tida como a da primeira edição de Vilar de Mouros como festival ecléctico (com nomes como Zeca Afonso e Carlos Paredes a pontuarem no cartaz), até aos dias de hoje passaram já algumas décadas, o que (descontando os períodos de interregno) lhe conferem um grau de sapiência e respeitabilidade únicos. Apesar da reverência anciã, energia foi coisa que não faltou este ano (e não estou a falar sequer do patrocinador que dá “naming” ao evento), com vários exemplos a demonstrarem que a idade não é só um posto.

Dia 24 de Agosto

À chegada ao recinto, os The Veils terminavam a sua prestação, em mais um regresso a palcos nacionais da banda britânica. As honras da casa foram feitas, assim, pelos suíços The Young Gods, trio que se apresentou em óptima forma musical. Repetentes no festival, após uma presença na edição de 1996 (onde tocaram no dia dos Stone Roses, com o bilhete a custar a módica quantia de 2.500 escudos!), a banda de Franz Treichler não sabe dar concertos abaixo de bom, e se dúvidas houvesse, temas como “Skinflowers” e “Kissing The Sun” continuam a soar tão bem como em 1992 e 1995, anos de edição de «T.V. Sky» e «Only Heaven» respectivamente, discos seminais na carreira da banda de Fribourg. A entrada e a saída da banda deram-se ao som de temas instrumentais; pelo meio, apenas oito canções a demonstrarem todo o seu poderio trepidante. Da estreia homónima em «The Young Gods» (lançado em 1987) ouvimos ainda “Fais La Mouette” e “Jimmy”, dois belos exemplos poderosíssimos de rock industrial; do segundo álbum, recuperou-se o tema que lhe dá título, «L’Eau Rouge», numa cadência hipnótica. Vilar de Mouros ’17 tinha já uma aposta ganha no seu alinhamento. Dizer que devem voltar é apenas uma evidência mais do que óbvia.

Sucedâneos dos The Sisters Of Mercy, instituição maior no que ao rock gótico diz respeito, o projecto formado por Wayne Hussey e pelo baixista Craig Adams em 1986 The Mission é o exemplo perfeito da matriz da velha guarda que caracteriza, em parte, o cartaz de Vilar de Mouros. Mais um regresso a Portugal, onde mantêm uma vasta e fiel legião de fãs que fazem questão de acompanhar os seus concertos, como foi este caso. Apesar de musicalmente datados, fazem um certo sentido num festival que, também ele datado historicamente, é sinónimo da passagem de testemunho entre várias gerações (é fácil encontrar famílias onde pais e filhos convivem alegremente, partilhando as diversas bandas do alinhamento em cada dia). Com um disco mais ou menos recente («Another Fall From Grace» foi lançado o ano passado, e do qual se ouviu “Met-Amor-Phosis”), o alinhamento privilegiou temas clássicos, com “Butterfly On A Wheel” e “Like A Child Again” a fazerem as delícias dos mais devotos da banda de Leeds. Houve tempo para revisitar um clássico de Neil Young, “Like A Hurricane”, quase no início da actuação. Para o final, “Deliverance”, continua a ser um bom cartão-de-visita (com direito a distribuição de flores pelo público da frente), com os fãs a responderem a plenos pulmões o refrão orelhudo, num final de concerto de partilha colectiva. Superaram as melhores expectativas!

Quanto aos escoceses The Jesus and Mary Chain, ainda não tinham começado a primeira música e já tínhamos ouvido Jim Reid, vocalista do grupo, falar mais do que nas duas últimas actuações inteiras dadas em solo nacional, sinal, aparentemente bom, para uma banda conhecida não pela faceta comunicativa com o público (não que isso tenha, necessariamente, algo de negativo). Com um novo disco («Damage And Joy») ainda recente para promover, a banda começou logo por apresentar “Amputation”, tema de abertura do sétimo e mais recente disco de estúdio, seguindo-se uma dupla avassaladora com “April Skies” (resgatado de «Darklands») e “Head On” (do enorme «Automatic»), mostrando uns Jesus menos negros (no som e na imagem), verdadeiramente endiabrados como já não os víamos há muito tempo e com vontade de fazerem a festa (que tantos fãs incondicionais esperavam), o que nem sempre transparece das suas actuações. Delícia sonora para todos os melómanos presentes, que preenchiam animadamente o recinto do festival. Por esta altura, a fasquia começava a ficar altíssima para o que restava de concerto. O incrível jogo de guitarras eléctricas e baixo (de William Reid, Scott Von Ryper e Mark Crozer, respectivamente) – qual parede sonora inquebrável – é um dos segredos da máquina sonora trepidante da banda. Em “All Things Pass” (um dos temas mais conseguidos do último álbum), com direito a vocalista convidada, o jogo de vozes funciona num contraponto perfeito. Continuamos com “Some Candy Talking”, que resulta como um verdadeiro rebuçado para os ouvidos e revela-nos uma banda na plenitude da sua força em palco. “I Hate Rock ’N’ Roll” (quase que apetece ironizar ainda mais com este título) relembra-nos por que é que, afinal, os festivais estão melhores que nunca e muitos insistem em continuar a fazer festival atrás de festival (escriba incluído). E como Vilar de Mouros é sinónimo de história, a edição de 2017 vai ficar para a posteridade como a primeira vez em que vimos Bobby Gillespie (baterista da banda entre 1984 e 1986) juntar-se aos antigos companheiros para tocar três temas do seminal «Psychocandy» (estreia discográfica em 1985): “Just Like Honey”, “The Living End” e “Never Understand”. Melhor final que este, impossível!

Compatriotas da banda precedente, os Primal Scream liderados pelo carismático Bobby Gillespie (que havia proporcionado, momentos antes, aquele que seria um dos pontos mais altos deste festival), não tiveram sorte com os aspectos técnicos em palco, tendo logo o primeiro tema “Movin’ On Up” sido interrompido por problemas num amplificador que foi à vida (cortando o ambiente expectante que se vivia no público, depois da prestação exímia da banda dos irmãos Reid). Mesmo com as condicionantes técnicas, os Primal Scream foram iguais a si próprios, tentando trazer alguns dos momentos áureos da cena de Madchester mas, ao contrário de outras actuações, esta não seria a noite para o grupo de «Screamadelica». A sequência deu-se com “Slip Inside This House” (versão dos 13th Floor Elevators), antes desse monumento rock resgatado às profundezas dos 70’s que é “Jailbird”. No entanto, à semelhança de quase toda a prestação, faltou músculo instrumental (onde apenas uma guitarra e baixo – notamos também a falta de Mani, que regressou aos Stone Roses, agora substituído por Simone Butler –, para além das percussões e programações, não foram suficientes para encher o som de que os Primal precisavam e que tão bem conseguem em estúdio) aos temas que constituíram um alinhamento particularmente curto (apenas nove temas tocados). Com canções do calibre de “Swastika Eyes”, “Loaded”, “Country Girl”, “Rocks” (estas duas tocadas em modo contínuo, poderiam ter sido um momento épico, mas Gillespie demonstrou já ter tido melhores momentos vocais do que neste dia) e “Come Together” (tema que é um verdadeiro compêndio das míticas noites do clube Hacienda nos seus tempos de glória e que encerrou a actuação sem o brilho que se esperava), os Primal Scream precisam de se redimir desta actuação menos conseguida. Rapidamente!

Dia 25 de Agosto

As irmãs Catarina e Margarida Falcão abriram os concertos no segundo dia de Vilar de Mouros, num fim de tarde já algo fresco, ou não tivéssemos o Rio Coura a correr ali mesmo ao lado do recinto, ainda muito vazio de público àquela hora. Folk despida de muitos adornos, simples e honesta foi o reportório apresentado pelas Golden Slumbers, assente em «The New Messiah», tendo ainda lugar para uma versão especial de “Cayman Islands” dos noruegueses Kings Of Convenience, muito apropriada ao ambiente criado em palco.

Com o sétimo disco de estúdio «Breakin’ Point» a servir de mote para a apresentação dos primeiros temas, o trio sueco Peter, Bjorn and John regressou uma vez mais a Portugal (mesmo não sabendo ao certo o nome do sítio onde estavam). Do anterior «Gimme Some», retiraram “Eyes”, canção com groove e doses pop equilibradas, resultando num tema bastante gingão. “Amsterdam”, do semi-conceptual «Writer’s Block» (já de 2006), um dos melhores temas da sua autoria, surgiu num registo mais lento do que o habitual, mas nem por isso perdeu o seu tom de canção pop perfeita. Por falar em perfeição pop, “Young Folks” dispensa apresentações e qualquer tipo de comentários, já que é o seu cartão-de-visita sonoro obrigatório. Um concerto honesto, cheio de entrega dos três elementos que merecia, claramente, uma adesão maior e com mais calor do público presente.

Seguiu-se Salvador Sobral que, segundo o próprio, ficou muito surpreendido por estar no cartaz do festival, considerando mesmo ter sido um «erro de casting». Acompanhado por mais três músicos em palco, com Júlio Resende ao piano, Sobral continua, aparentemente, a não saber (ou querer) lidar com multidões (a maioria dos presentes na segunda noite estava ali, claramente, para o ver actuar), o que ainda não se percebeu se isso é pura timidez ou uma certa fuga da fama (surgida de forma algo inesperada, confessou o próprio). Os poemas de Fernando Pessoa, musicados por Resende (e que deram azo à criação do projecto Alexander Search), continuam a demonstrar que há mais vida para além de “Amar Pelos Dois” e que existe um caminho possível de junção entre o jazz (matriz sonora do vencedor do último Festival da Eurovisão) e a poesia nacional.

A estreia nacional do britânico (de acento marcado) George Ezra, autor de “Budapest”, hit um pouco por toda a Europa (Portugal incluído, conseguido a reboque de uma publicidade televisiva), foi interessante q.b. Ao segundo tema, “Break Away” (que versa sobre andar de skate), Ezra fez as apresentações e disse estar contente por esta ser a sua primeira vez a tocar em Portugal. Acompanhado em palco por uma banda de seis músicos, com destaque para a dupla de sopros que conferiu um tom extra de swing à sua sonoridade, o alinhamento seguiu com “Barcelona”, tema dedicado à cidade onde o autor passou algum tempo da sua vida, aproveitando para homenagear a capital catalã (o que fez todo o sentido, atendendo aos acontecimentos terroristas recentes). “Blame It On Me” contou com o refrão cantado em coro pelos fãs mais fiéis nas filas da frente. Aliás, Ezra fez questão de apresentar e contextualizar cada uma das canções tocadas ao longo do concerto, incentivando o público a participar em alguns refrões mais conhecidos. Para o final, o tal hit (será o típico caso “one-hit wonder”?) “Budapest” em toada quase “sing-a-long” como era de esperar.

Com alguns problemas técnicos ao longo da sua prestação, a banda lisboeta Capitão Fausto foi igual a si própria, o que significa canções pop redondas, daquelas que parecem feitas com as medidas certas, mas que carecem, pelo menos em palco, de outra alma e atitude (menos “blasé”, nomeadamente do vocalista Tomás Wallenstein). Num regresso a Vilar de Mouros, tinham tudo para ser uma das bandas da noite, mas ficaram-se apenas pelo plano das intenções. O fina deu-se com aquela que é uma das canções mais viciantes a passar no éter nacional (“Morro Na Praia”), exemplo acabado do potencial (via escola “beatleana”) das canções destes rapazes. Mas do potencial ao factual…

A fechar a segunda noite de Vilar de Mouros, a banda de Courtney Taylor-Taylor, os norte-americanos The Dandy Warhols em mais um regresso a solo nacional para revisitarem alguns dos seus clássicos mais (re)conhecidos, como foi o caso de “The Last High”, “We Used To Be Friends” e “Bohemian Like You” (estas duas últimas servidas de seguida), mas onde a voz do vocalista ficou uns furos abaixo de outras actuações que já lhe vimos.

Dia 26 de Agosto

Algures perdidos na década de 70, a banda lisboeta The Zanibar Aliens trouxe a Vilar de Mouros as sonoridades do rock ‘n’ rol mais clássico (com apontamentos de Led Zeppelin em particular) às margens do Rio Coura para deleite dos mais velhos (e não só) ali presentes. Destaque para alguns temas do álbum de estreia «Bela Vista», onde o quarteto demonstrou todas as suas influências, carecendo ainda de definir melhor uma identidade própria.

Vinda da Áustria, em estreia por estes lados, a cantora Avec não acrescentou nada, musicalmente falando (com uma pop-folk sem sal algo monocórdica), no final de tarde do último dia de festival. Haveria muitos e bons nomes nacionais que mereciam a honra e privilégio de pisarem aquele palco mítico. Opções de casting, como diria o Salvador Sobral…

Para quem tenha visto só o final do concerto dos The Boomtown Rats, talvez tenha ficado com a ideia de que o que acabara de perder fora uma verdadeira rave dos idos de 90 num qualquer subúrbio inglês mas, na realidade o que se assistiu nos cerca de sessenta minutos de duração do concerto foi a uma lição de bom rock ‘n’ roll (casta irlandesa da boa) sem rodeios (não trocaram uma vez que fosse de guitarras), fazendo jus à expressão “dar tudo” em palco. Senhor de multidões (apesar da chuva que ameaçou minutos antes de subirem a palco, a mole humana estava bem preenchida), Bob Geldof exibiu uma excelente forma vocal, com deixas num português esforçado mas honesto, por entre muitas críticas (como não podia deixar de ser neste Sir, o criador do mítico “Live Aid”) ao caos que se vive um pouco por todo o mundo. Houve direito a homenagem em jeito de “versão jam” ao clássico do blues “Boom Boom” de John Lee Hooker, com um Geldof exultante a sublinhar durante a desbunda em palco o «ritmo» e a «batida dos nossos corações», no fundo, tudo aquilo que precisamos de seguir, puxando alegremente pelas hostes que respondiam à altura. Um concerto, claramente, acima das melhores expectativas!

Com a voz de Richard Butler (líder dos britânicos The Psychedelic Furs) uns furos abaixo do que seria ideal (já se vislumbrara isso em canções como “Heaven” e “Love My Way” – servidas de rajada –, mas seria em “Pretty In Pink” onde a falta de “corpo” vocal se notou mais), foi o saxofone endiabrado de Mars Williams a salvar grande parte do concerto, revelando a verdadeira alma sonora da banda londrina. A qualidade intrínseca de temas marcantes da década de oitenta continua intacta; mas a transposição para palco já não consegue transmitir a chama dos melhores momentos do movimento post-punk, do qual os Furs foram nome importante.

Quase a terminar a noite, regresso saudado pelos muitos fás da banda britânica Morcheeba, com a carismática Skye Edwards a liderar sabiamente o público. Início visualmente muito negro, a fazer lembrar o dealbar estético da cena trip-hop de Bristol, com o intemporal “Trigger Hippie” (primeiro single retirado de «Who Can You Trust?», já de 1996) e a voz hipnotizante de Skye. Alegre e muito conversadora, a vocalista não se coibiu, a certa altura da actuação, de perguntar ao público se gostava dos seus sapatos, os seus sapatos de dança, para imediatamente se lançar a uma intrépida versão do camaleão, “Let’s Dance”. Estava lançado o mote para um concerto bem conseguido e muito divertido, mais ainda com o cansaço que já começava a passar factura em alguns dos presentes. O final, com o clássico da banda “Rome Wasn’t Built In A Day”, deu para tudo, incluindo um fã mais sortudo da fila da frente que subiu e dançou em palco com a vocalista.

Para fechar com chave de ouro a edição 2017 de Vilar de Mouros, foram convocados os irmãos Dewaele 2manydjs, vindos de Ghent. A receita não engana: misturas explosivas de temas e géneros improváveis à partida, tudo filtrado pelo enorme bom gosto da dupla e pela sapiência dos melhores “diggers”. O resultado: festa garantida! Conhecendo o público-alvo do festival, os anos oitenta foram amplamente recordados (e reactualizados), com Prince, The B-52’s, Talking Heads entre muitos outros, num mano-a-mano fortíssimo com nomes actuais como Tame Impala e MGMT, só para citar alguns nomes que fazem dançar meio mundo um pouco por essas pistas fora.

Em 2018 a história irá continuar a ser co(a)ntada entre 23 e 25 de Agosto, para continuar o legado iniciado no longínquo ano de 1968 (considerado como o ano um do festival Vilar de Mouros) pela mente do médico minhoto e «mordomo da festa» António Barge.

Fernando Alves

(RUC)

(Créditos fotográficos: Festival Vilar de Mouros)

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Sat, 18 Nov 2017 08:12:30 +0000