29/08/17

RUC @ Bons Sons

De 11 a 14 de agosto fomos de novo viver a aldeia. Descemos até Cem Soldos perto de Tomar para abraçar a música portuguesa.

O Bons Sons é de facto um festival de contrastes. Primeiro entre os que chegam e os que cá moram. Depois a diferença de idades dos que por aqui andam e que não é  um choque. Por fim as músicas que se escutam, que vão do tradicional ao rock, passando pela eletrónica, entre muitos outros estilos.

E o festival não é só musica. Há os jogos do Hélder, há atividades para bebés. Enfim: há muito que fazer.

Mas o que nos move aqui são as bandas, os artistas. Concertos que começam às duas da tarde e se prolongam madrugada dentro. E nós nem damos pelo cansaço. Cem Soldos é mágica…..

O voo de Surma

Como sempre o dia a começar na igreja pela mão da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. O pontapé de saída foi dado pelos Bandd’olim. Música para bandolim e viola, com pitadas de tradicional e algumas boas ideias. Se tivessem tocado um pouco menos, a coisa teria soado melhor e ficaria mais na lembrança.

Depois uma das bandas do dia. Singularlugar, são um duo para piano e vozes, e alguma eletronica. Uma menina bielorussa que, domina perfeitamente o português, e um moço, a transformarem o tradicional em algo de  muito sublime. O disco está quase a chegar.

Singularlugar.

Cá fora no coreto tocam os Whales, vindos de Leiria. Som rock, com quilos de notas para dançar. Concerto certinho, e que fez transpirar, debaixo do sol que atacava os corpos.

Rumamos para cima, para, à frente da igreja, sermos brindados pelo som de Manuel Fúria e os Náufragos.Com disco novo na bagagem, Manuel Fúria não esqueceu o passado, e assim agarrou a massa humana que à sua frente vibrou com o seu pop/rock de tradições portuguesas.

De novo para baixo, para assistir ao concerto do dia. Surma foi maior que ela própria.  Deu pop intimista à multidão que se comoveu e a fez quase chorar. Voou por cima do povo, e mostrou que sabe fazer música que encanta. Sozinha em palco encheu o espaço com a sua simplicidade.

Surma.

Holy Nothing à hora de jantar no palco Lopes Graça, a passarem um pouco ao lado – um som que merecia outro espaço e outra hora. A sua eletronica de contornos bem dançáveis esperava melhor sorte. Mesmo assim os músicos, entregaram-se e mostraram eficácia.

Na Eira seguiu-se o rock sem espinhas dos Glockenwise. Barcelos a mostrar como é que se faz, num concerto bastante energético.

No palco Lopes Graça mais um dos grandes concertos do primeiro dia. Virgem Suta a criarem grande empatia com o público. Canções que andam na boca do povo a serem cantadas em coro. Um concerto enorme, na qualidade, onde cada um dos intervenientes mostrou os seus dotes.

Virgem Suta.

No andar de cima, ou seja na Eira, a vez para os Capitão Fausto. Concerto ligeirinho e igual a tantos outros seus. Mesmo assim, mostraram o seu valor e os temas mais conhecidos fizeram o povo vibrar.

Thunder & Co. a fecharem a noite no palco Aguardela antes dos dj‘s. Lá no cimo a força da sua eletronica perdeu-se nas nuvens. Deviam ter tocado mais rasteiros para o seu som acertar mais facilmente no nosso corpo.

O rockuduro a partir os corpos

Na igreja João Raposo e Lúcia Vives, dois novos artistas da editora Xita, abrem o segundo dia. Tocaram por separado, apenas munidos de uma guitarra eletrica. Sons melancólicos, servidos por letras pouco inspiradas e vozes que enrolavam as palavras, a não conseguirem chamar a atenção. São ambos novinhos e com tempo para carecer. A menina já leva algum avanço.

Depois, Filipe Valentim e o seu saxofone experimental a causar alguma estranheza aos presentes. A igreja foi esvaziando. O músico merecia outra sorte, pois tem talento para dar e vender.

No coreto, Filipe Sambado, pintado e com camisa de folhos. Foram alguns os problemas técnicos, o que não ajudou o concerto a fluir. Contudo, valeu pelo esforço e entrega de Filipe e seus pares. O seu pop em formato banda tem outra força e merecia ter tido uma tarde menos azarada.

Junto à igreja Les Saint Armand, que apesar do nome nos apresentam um som mais acústico, cantado na língua de Camões. Som pop, com algum Brasil e Argentina à mistura. Um concerto muito simpático e agradável.

No palco Jacometti, Senñoritas  dão um dos concertos do dia. Sandra Batista e Mitó Mendes a transpirarem sensualidade agarram facilmente o público. Desfilam o primeiro disco, mostram um tema novo e fecham com “Amanhã “dos Sitiados. Pop e tradicional, com laivos de fado fazem as delicias de todos. 

Señoritas.

No Lopes Graça o tradicional dos Açores de Medeiros/Lucas. Assim com banda a coisa soa bem melhor. E este foi um belo inicio de noite, que contou a dada altura com a participação de Mitó Mendes das Señoritas.

No palco Eira, os Mão Morta comemoram 25 anos de Mutantes S.21. Pelo meio dois ou três temas que não fazem parte do disco. Concerto brilhante, a ficar como uma das grandes autuações do festival. Não há duvida que os Mão Morta são músicos de outro planeta.

Mão Morta.

Cá em baixo, o regresso de Né Ladeiras ao ativo. Começou por trazer sons da Banda do Casaco, por onde passou, e depois mostrou o seu novo disco. Ladeada por excelentes músicos, fez ver que a idade não passa por ela e que está ainda em forma. O seu pop revestido a tradicional, agradou a todos os presentes.

A Eira foi depois protagonista do  concerto que marcou todo o festival. Throes + The Shine, fizeram levantar poeira, num concerto em que não deu para ficar parado. Voltam de novo a ser quatro, fazem a festa, trepam, saltam, vêm para o meio do povo, e voam. Servem rockuduro que faz transpirar. Foram gigante e provaram porque têm tocado tanto lá fora.

Throes + The Shine.

O cante alentejano dos mais novos

Tudo partiu de um trabalho de escola, já lá vão quase dois anos. Assim nasceram os Moços da Vila, rapazes a rondar os 15 anos, que povoaram que o cante alentejano está vivo e cada vez mais. A igreja vibrou com as modas que cantaram e no fim todos aplaudiram de pé – um momento alto do terceiro dia.

Moços da Vila.

No coreto, Joana Barra Vaz, combatia o calor com a sua pop intimista. Sem grandes alaridos, Joana deu um concerto que agradou a todos.

Junto à igreja, a Sonoscopoia montou (levou 6 horas) uma enorme máquina que produzia sons, Constituída por algumas peças retro. O enorme aparelho causou mais espanto do que efeito. Foram reproduzidos três temas, e em seguida os presentes convidas a subir ao palco para verem a engrenagem.

Lá em baixo o folk de Captain Boy, a misturar-se com o calor e a levar algum tempo a ser absorvido. Mesmo assim um concerto agradável de assistir.

Em frente à igreja, os Sampladélicos misturam musica de dança, com samplagens de tradicional, que interagem com o vídeo que passa nas suas costas. Se dissermos que o grupo é liderado por Tiago Pereira da Música Portuguesa a Gostar Dela Própria percebe-se mais facilmente aquilo que dizemos. Vem aí disco novo em breve.

No Palco Lopes Graça, a figura estranha do fadista Paulo Bragança, agora regressado ao ativo. Desconhecido das gentes mais novas, a figura “sinistra” do fadista, não consegue atrair as atenuações, e o facto de ter tocado alguns temas novos também não ajudou. Eram muitas as expectativas e talvez por isso o concerto nos tenha soado bastante morno.

O que nos vale, é que a seguir na Eira, Samuel Úria deu o concerto do dia. Acompanhado de uma excelente banda, Úria transformou os seus temas em grandes hits de rock.  Todos sabiam as letras, e até os mais pequenos cantavam. Foi um momento enorme em que o artista e seus pares deixaram todo o suor em palco.

Samuel Úria.

No Lopes Graça, regresso aos anos 70, com “10.00 Depois Entre Vénus e Marte”. José Cid e seus pares a provarem que o psicadélico deste disco está ainda bastante actual e presente. Não só os mais crescidos sabiam as letras, como os mais novos também as cantavam. Foi um momento singular, numa viagem, que fica como uma das grandes lembranças do Bons Sons deste ano.

José Cid.

Em termos de concertos, a noite termina com Orelha Negra na Eira. Concerto bom, mas igual a tantos outros que dão. Dois excelentes Djs – Cruzfader e Sam The Kid, Francisco Rebelo no baixo, João Gomes nos teclados e o enorme Fred Ferreira na bateria, fazem toda a diferença e transformam o espaço numa enorme pista de dança.

Um Lobo intimista que comove corações

Na igreja Sanct’irene, da zona de Santarém, cantam historias de amor recolhidas entre os mais velhos. A tradição oral passada, para som, onde se prova que os tempos não mudam, e algumas canções são ainda actuais.

Depois, do Algarve três Moçoilas, que com a sua voz apenas, nos trazem a tradição, mostrando que o simples também pode ser bonito.

Cá fora, no coreto, Marco Luz dedilha uma guitarra acústica, e depois uma eletrica, mostrando talento na sua forma de compor. O calor quase nos fazia perder a atenção.

Junto à igreja LST-Lisboa String Trio, reinventam o fado de Lisboa. Três músicos de enorme qualidade, mostram uma outra forma de encarar o fado. José Peixoto, Carlos Barretto e Bernardo Couto, encantam todos os presentes.

Cá em baixo, o cantautor Valter Lobo e os seus dois companheiros de palco, dão o concerto do dia. Foi uma prestação segura, com canções intimistas, que comoveram os presentes. A simpatia de Valter Lobo foi enorme. O som do trompete em algumas músicas, aqueceu o nosso coração. Foi lindo demais e os presentes, agradeceram e retribuíram cantando alguns temas.

Valter Lobo.

No Palco Lopes Graça, Frankie Chavez traz rock, e muito blues, Concerto enérgico onde Frankie mostrou todo o seu talento, e provou que ter banda faz toda a diferença. Foi dos melhores do dia.

Frankie Chavez.

Subimos até ao rock dos The Poppers, para ouvir os temas do seu novo disco. Os seus concertos parecem todos iguais. Variam consoante o público. Este teve a presença em alguns temas de Filipev Costa dos Slowriders nas teclas.  As autuações valem, porque os temas são bons, eles são bons músicos, que deixam a alma em palco.

Rodrigo Leão no exterior? E Porque não! Palco Lopes Graça. Alinhamento certeiro, que agarrou graúdos e mais miúdos.  Ana Vieira na voz a dar grande incremento ao concerto, que foi sempre em crescendo. O neo-classico de Rodrigo Leão, foi mais um dos momentos que marcou este festival.

Rodrigo Leão.

Ultima banda do Bons Sons, Octa Push no palco Eira. Sons dançáveis, que quase não agarraram os  poucos presentes. Sem poderem ter todos os convidados do disco em palco, eles iam aparecendo na tela ao fundo. Momento alto foi a subida ao palco da habitante de Cem Soldos que fez o vídeo promocional da banda, para com eles dançar. Esperava-se mais dos Ota Push, apesar de não ter sido um mau concerto.

Da janela para a rua

Ideia nova este ano. Músicos à janela e à varanda. Começaram no segundo dia estes “concertos”. Les Saint Armand numa varanda e Señoritas,  Samuel Úria, Joana Barra Vaz, Frankie Chavez e Vlter Lobo à janela.  Uma ideia gira e cativante, que aproxima os músicos dos seus seguidores.

E foi assim Bom Bons Sons 2017. Já deixa saudades, por tudo o que se lá vive. Cem Soldos é lugar de amizades infinitas. E boa música. Sim. Que aqui houve concertos menos bons, mas não houve más autuações.

Fica a vontade de voltar em 2018, pois este é de facto o FESTIVAL. Único!

Lá estaremos!

Texto e fotografia de Nuno Ávila

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2017-09-19T22:18:25+00:00
Tue, 19 Sep 2017 22:18:25 +0000