10/07/17

RUC @ Festival MED Loulé ’17

75 horas de música. 55 concertos. 9 palcos. 1 cidade.

Eis o mote para um dos melhores festivais com e sobre as músicas (que se fazem) pelo mundo.
Desde o ano de 2004 (sob a “desculpa” de ser uma das cidades anfitriãs do Euro 2004) que a cidade de Loulé recebe anualmente o MED, com o objectivo de promover e divulgar as diferentes culturas (assentes essencialmente na música, mas também na gastronomia, artes plásticas, dança, artesanato, conferências…) da bacia do Mediterrâneo (derivando daí o nome de baptismo), providenciando uma experiência única a todos os visitantes.
Em 2017 o Festival MED assinalou o seu 14º aniversário, continuando o seu processo de afirmação como evento de referência no panorama nacional e europeu no que ao universo das ditas “músicas do mundo” diz respeito. Com uma forte identidade ligada umbilicalmente ao centro histórico da cidade de Loulé, o MED tem vindo a alcançar níveis de adesão do público (números da organização apontam para cerca de 23 mil espectadores repartidos pelos três dias do festival), semelhantes à sua notoriedade, fazendo com que em certos momentos (em determinados concertos), a circulação fosse algo complicada, tornando desconfortável apreciar devidamente os artistas (exemplo maior da afluência massiva de público, foi a actuação de Ana Moura no palco Matriz).

No que aos concertos propriamente ditos concerne, no primeiro dia assistimos a parte da actuação dos portugueses Cloudleaf, trio a percorrer os territórios do rock instrumental, muito bem delineado a régua e esquadro entre a guitarra, baixo e bateria. A merecerem uma atenção mais completa.
Indiscutivelmente uma das artistas mais bem-sucedidas no panorama musical português (com mais de meio milhão de discos vendidos e mais de uma dezena de galardões recebidos), Ana Moura foi o nome que tentámos ver de seguida, mas a tarefa tornou-se deveras desconfortável, tamanha a multidão que se apertava para ver um dos grandes nomes do fado nacional no palco Matriz. Mas o fado, na voz rouca e sensual de Ana Moura é muito mais do que saudade, transmuta-se e alcança outros horizontes, numa exploração de novos territórios sonoros (como a pop) até há não muito tempo inexplorados.

Continuamos com nomes nacionais, desta feita com Marta Ren & The Groovelvets, mais uma voz feminina rouca, mas esta com raízes soul e rock. A ex-Sloppy Joe e The Bombazines (na companhia de Rui Gon, dos extintos Zen) tem uma presença em palco poderosa, até dizer chega, devidamente acompanhada por uma secção de sopros que traz um rare-groove ainda mais delicioso para os ouvidos e gingante para as ancas. Exemplo perfeito disso foi a revisitação do clássico dos The Doors, “Light My Fire”, ponto alto numa actuação que teve tanto de bom gosto em palco, como de participação no público.
Damos um salto até ao palco Cerca onde vamos encontrar um dos nomes mais esperados da noite (e de todo o festival), Akua Naru.

A poetisa e rapper norte-americana a viver actualmente na Alemanha, impõe-se no palco com uma presença a fazer lembrar um misto de Lauryn Hill com Erykah Badu (outras divas dentro do género), mas com algo único que a diferencia. Acompanhada por um quinteto de músicos competentíssimos, o público presente assistiu a uma das melhores actuações do primeiro dia do MED, assente numa viagem pelas melhores paisagens da soul, do jazz, do hip-hop e poetry-slam, com o exemplo perfeito consubstanciado na enorme “Poetry: How Does It Feel Now?”, onde aquele saxofone provoca um verdadeiro e único orgasmo sonoro, que apetece que nunca mais acabe. O epílogo teve uma alusão em jeito de homenagem a outra grande voz feminina, Nina Simone. O regresso impõe-se, agora em nome próprio e numa sala a condizer com o enorme talento de Naru.

Com dez elementos em palco, o colectivo histórico Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou trouxe consigo as vozes polifónicas do Benin, mas, diga-se em abono da verdade, algo monocórdicas, a que não terá sido alheio também o facto da troca de palco a que se viram sujeitos (passando da Cerca, palco mais intimista, para a Matriz, onde a distância em relação ao público e algum frio que se fazia sentir, em nada beneficiaram a actuação dos africanos), devida ao cancelamento do argelino Rachid Taha, por motivos de saúde deste último. Em substituição de um dos grandes intérpretes da música tradicional argelina, foram recrutados à última da hora os Octa Push, dupla portuguesa que não teve muita sorte (nem fez muito por ela, também) nem engenho para aguentar o muito público que enchera o palco Cerca minutos antes no concerto de Akua Naru. Musicalmente algo deslocados (não que as suas canções não tenham bases world, nomeadamente via afro-beat, sempre revestidas por uma electrónica orgânica), não suplantaram aquela que foi uma das baixas mais relevantes em termos do alinhamento previsto para este MED.

Mas a desilusão foi prontamente ultrapassada pela enorme surpresa que foi ver a performance de encher o olho, talvez mesmo a mais contagiante nesta primeira noite de festival, de La Dame Blanche, com a cumbia cubana magistralmente misturada de forma sincopada com ritmos electrónicos que não deixaram nenhum dos presentes indiferentes.

A fechar o primeiro dia do MED, tempo ainda para os ritmos angolanos em modo de djset pela mão de Celeste/Mariposa no palco Matriz (com o mote da divulgação da música dos PALOP, tanto na sua vertente mais hedonista como mais underground) e de Discossauro (no palco Bica) em modo salada tropical (da boa) de ritmos latinos acompanhados de tudo o que estivesse à mão para passar na agulha dos pratos.
A Sexta-feira apresentava, à partida, um naipe de artistas que prometiam não desiludir os ouvidos e ancas mais exigentes, o que se viria a confirmar no final da noite (tirando um par de concertos menos interessantes/conseguidos).

Exemplo de qualidade musical acima da média mas que, por diversas razões, não funcionou particularmente bem no palco Matriz (não só devido ao numeroso público presente e ao consequente excesso de ruído que acabou por prejudicar grandemente a fruição da beleza e intimidade das suas canções, mas também ao nível de som demasiado baixo para o espaço), a actuação de Rodrigo Leão pareceu algo perdida por entre a multidão. Poder-se-á dizer que a sonoridade do ex-Madredeus e ex-Sétima Legião seria desajustada a um espaço aberto, muito menos sem a qualidade e quantidade de som desejadas, mas o facto é que os arranjos (magníficos) orquestrais acompanhados da voz angelical de Ana Carolina não tiveram o resultado almejado. Pedia-se mais um ambiente algo intimista e acolhedor, pelo que, neste caso, se pode falar de um erro no palco escolhido para o artista, claramente um dos cabeças de cartaz da noite.

Por seu lado, o combo festivo de Almada liderado por Miranda, a vocalista dos Oquestrada, extravasou largamente para fora dos limites do palco Castelo toda a efusividade que a sua sonoridade transmite. Iguais a si próprios, a sua actuação não deixou de focar a situação trágica dos recentes incêndios que assolaram a zona centro do país, (de)mo(n)strando o carácter interventivo que a música ainda tem. O ambiente alegremente descontraído de festa presente nas suas canções fez o resto, o que se saldou numa celebração colectiva de salutar.
Pelo palco Cerca, quase à mesma hora, ouvia-se um sexteto vindo do sudeste italiano, onde uma miríade de instrumentos serviu de base a um jogo polirrítmico de vozes, que tanto faziam ecoar ambientes árabes (através de uma dançarina hipnotizante) e gregos do mediterrâneo como, a espaços, a folk irlandesa e mesmo os ritmos típicos dos Balcãs. Falamos dos Canzoniere Grecanico Salentino, instituição maior na música tradicional italiana, que por entre diálogos de apresentação dos temas foi demonstrando o seu apoio aos refugiados, não querendo deixar em vão o flagelo humanitário que se vive no Mediterrâneo, sendo a Itália um dos países mais afectados, vincando, uma vez mais, o papel fulcral que a música pode e deve ter (sempre) na denúncia e apelo sociais.

Uma das actuações menos conseguidas da segunda noite do MED, foi claramente a do português Luíz Caracol, onde os ritmos acústicos da sua guitarra com matriz na bossa-nova, foram apresentados sem grandes artifícios e vontade de explorar devidamente um legado que se quer melhor tratado.

Mas o MED não permite grandes momentos menos festivos, e eis-nos diante do canadiano com origens mexicanas e paraguaias Boogat, vencedor do “World Music Album of the Year” por duas vezes, para apresentar as suas canções assentes na mistura entre hip-hop e cumbia, com alguma música árabe (do Norte de África). Em formato quinteto em palco, este foi mais um artista que teve na intervenção social dos seus temas parte do mote para uma actuação cheia de ritmo; exemplo disso foi “La Cumbia De Las Luchas” dedicada a todos os imigrantes ilegais, como centro da atenção.

Uma das melhores prestações de todo o festival (e de todas as que já lhes vimos) foi protagonizada, indiscutivelmente, pelos portuenses Throes + The Shine. Na verdade, o palco Castelo foi demasiado pequeno para albergar tamanha festa que se gerou com as batidas já bem conhecidas do rockuduro desta dupla dupla. Há conceitos facilmente (e já) exportados no que à música nacional diz respeito. Estes senhores pedem e têm o barulho que merecem!

A tocar quase ao mesmo tempo dos Throes + The Shine, o rapper brasileiro Bernardo Santos, mais conhecido apenas por BNegão (ex-colaborador dos Planet Hemp – dos quais viria a sair, dando início ao seu projecto mais pessoal com Os Seletores de Frequência –, onde militou outro grande do hip-hop do Brasil, Marcelo D2) não deixou a plateia (simpaticamente bem preenchida) que tinha diante de si sem o seu o seu funk carioca com o flow que lhe é associado, carregado de mensagens políticas para consumo interno no país natal, a braços com uma enorme crise social. A música que serviu de divulgação ao MED ’17 é da sua autoria (“Essa É Pra Tocar No Baile”) e foi isso mesmo que aconteceu: um grande baile com sotaque carioca!

Nome repetido da noite anterior, Discossauro apresentou-se ao lado de Chewbacca Latino, num misto de djset com ritmos da América Latina acompanhados por percussão improvisada. O resultado: festa garantida!
Para terminar o segundo dia do MED ’17, mais sonoridades com base na profusão de influências musicais (do Paquistão ao norte de África, passando pelo Brasil) protagonizadas por H.A.T. (de seu verdadeiro nome Hatim Belyamani, originário de Marrocos mas com residência nos E.U.A.), nome que se inscreve numa linhagem de outros artistas como Talvin Singh, Shantel ou DJ Dolores.

Chegados à última jornada do festival, as filas na entrada deixavam prenúncios de casa (ainda) mais cheia. O MED não terá, decerto, capacidade para comportar mais público do que aquele que este ano acorreu à zona histórica de Loulé, sem o risco de tornar demasiado desconfortável a circulação entre os diferentes palcos e a apreciação condigna dos concertos.

Vindos do longínquo Irão, os Niyaz trouxeram consigo uma fusão entre sons electrónicos, a poesia sufi e a música tradicional assente em instrumentos acústicos da zona do Golfo Pérsico, sempre perpassada por uma qualidade de execução dos seus membros acima da média. Do melhor que passou na edição 2017 do MED, o projecto da vocalista e compositora Azam Ali e do seu companheiro Loga Ramin Torkian trouxe um ambiente especial ao concerto de abertura no palco Matriz. Efectivamente, Ali é dona de um poder vocal único e extraordinário (algumas vezes a fazer lembrar a enorme Ofra Haza), o que, aliado a uma base rítmica entre o tradicional e a electrónica conseguem um resultado particularmente feliz e que se saldou numa enorme ovação do muito público presente.
Nesta nova vaga de cantoras de fado são inúmeras as vozes que tentam o seu lugar ao sol para a posteridade, mas nem todas vingarão nesse firmamento do sucesso (mais ou menos efémero). Um desses nomes é o de Fábia Rebordão que, apesar da presença em palco ser visualmente diferente e bastante arrojada (para aquilo que estamos habituados dentro do género musical), os atributos vocais não conseguem acompanhar a sua estética, não parecendo ter “unhas para tocar esta música”.

Um trio com um pé entre a ilha de Guadalupe e outro na “metrópole” francesa, que é como quem diz entre o mais tradicional (blues com veia africana) e o mais moderno (rock), tudo moldado à base de guitarra eléctrica, bateria e trombone, os Delgres são considerados uma espécie de elo perdido do blues de raízes profundas que teimam em mostrar que tudo teve um início e que as origens não devem ser esquecidas. Uma das boas surpresas que este MED nos proporcionou!

Por falar em surpresas, o que dizer dos Cows Caos, provavelmente a banda mais “fora” dentro do alinhamento mais coeso do restante cartaz, um quinteto com visual à Devo, onde a performance da vocalista e bailarina Rute Ellis (acompanhada por alguns elementos dos Pás de Problème) se destaca sobremaneira, ganhando um fôlego extra por entre um jogo mais que interessante (caótico mesmo, por vezes) entre as duas guitarras, a bateria e o saxofone, cujo resultado é um groove psicadélico delicioso com influências surf-rock. Devaneios e improvisações (revisitar Duane Eddy através do clássico “Peter Gunn” foi só e apenas um dos momentos mais inesperadamente inebriantes deste festival), mesmo com todas as anomalias ao nível do vestuário de Ellis e de uma ou outra corda partida. Concertos/performances destes há poucos, que não deixam ninguém indiferente. Literalmente!

Tal como o cartaz deste festival (verdadeira torre de babel musical), os Che Sudaka (com elementos provenientes da Colômbia, Argentina e Espanha) tiveram, precisamente, em algumas multinacionais (com a Monsanto, líder mundial dos transgénicos, à cabeça) o alvo da sua crítica em alguns dos seus manifestos musicais, onde fizeram a apologia dos campesinos da América Latina (em particular). Pese embora a verve interventiva, musicalmente não foram relevantes por aí além.

Ainda no campo de concertos algo dispensáveis, Bezegol & Rude Bwoy Banda trouxeram um hip-hop e reggae algo gastos ao palco Castelo que, mesmo apesar da falta de interesse musical, transbordava até às ruas circundantes, naquela que foi a noite mais concorrida do festival.
Considerada uma verdadeira instituição, não só na Roménia natal, mas um pouco por todo o globo, a Fanfare Ciocarlia demonstrou que quando se trata de fazer festa rija, os ritmos balcânicos são receita garantida. A fanfarra, a celebrar vinte anos de carreira, proporcionou um concerto alucinante, com destaques maiores para as versões de “Born To Be Wild” (dos Steppenwolf) e do genérico da saga “James Bond Theme”. Representantes por excelência de uma tradição única que perpassa a região dos Balcãs tiveram mais um regresso apoteótico a território nacional, tantas vezes já pisado por esta trupe.

Na recta final desta maratona de concertos (e de tudo o resto que fez parte da programação do MED ’17), mais uma dose de ritmos tropicais ao som de Caribe Ibérico DJ All Stars (em formato trio com Discossauro à cabeça), a fazer dançar os presentes que ainda aguentavam no palco Bica, enquanto Branko fechava em beleza o festival no palco Matriz, relembrando-nos que devíamos ter visto a cabo-verdeana Mayra Andrade enquanto rodava “Reserva Para Dois”, epílogo perfeito para uma edição que irá trazer resultados ainda mais positivos em termos de projecção daquele que é já um dos melhores festivais do género, dentro e fora de portas.

Fernando Alves

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Sat, 18 Nov 2017 08:13:01 +0000