14/06/17

RUC @ NOS Primavera Sound 2017 – Dia 3

© Hugo Lima

A sexta edição do NOS Primavera Sound terminava com o culminar de um cartaz que, sem nomes sonantes ou grandes cabeças, desenhava um dos melhores percursos musicais que o festival ofereceu nos últimos anos. Tanto os nomes mais recentes, como Weyes Blood ou Sampha, como os mais veteranos, de Death Grips a Aphex Twim, partilhavam algo de essencialmente actual, e particularmente urgente.

Do alto dos seus (incertos) 86 anos, Elza Soares encabeçou esta urgência e actualidade. Rainha em palco, a fragilidade da sua idade dissipa-se na crueza da sua voz e na dureza do seu olhar. O público cala-se em respeito, e pouco a pouco vai partilhando o sangue e lágrimas que constroem a história da nova velha diva brasileira. O espectáculo de Elza, na sua terceira passagem em Portugal como mulher do fim do mundo, é nocturno e não varia muito entre si, mas de alguma forma consegue manter-se sempre vivo e distinto. Transformado numa “grande grande festa”, a banda primou nos sons mais samba e brasileiros, e a sua voz mostrou ser indiferente a meteorologias.

O sol de fim de tarde coloriu na perfeição o ritual, e a magnânime acção humanitária de Elza. “Gemer só de prazer”, diz no seu grito contra a violência doméstica, e esse sofrimento que tem enraizado é veiculado em transformação e última tentativa, crua mas condescendente, de moldar essas cruéis margens que tanto a oprimiram. O seu papel é “lutar contra a homofobia, o sexismo e o racismo“. Tal é a intensidade com que o faz que correm lágrimas quando grita “Eu sou negra! Eu sou negra! E a minha carne não é mais barata do que a branca!” ou quando homenageia Gisberta, transexual paulista assassinada no Porto há 11 anos. O público aplaude durante cinco minutos, num silêncio pesado e cheio de lágrimas, e tão alto que sentimos que Gisberta, cobardemente atirada a um poço “por simplesmente ser quem era”, renasce por momentos nesse Porto que a matou e se junta connosco a lutar para que não haja mais como ela.

Elza vai continuar a cantar até ao fim, e cantando os sambas “Malandro” e “Volta por Cima”, fazemos como ela, e esperamos que essa voz ecoe por muitos e muitos anos. Se no início temíamos que o espectáculo tão nocturno não resultasse em plena luz do dia, no final tememos que nada mais resultasse depois de Elza.

Sampha © Hugo Lima

O fim de tarde continuou com a subida de Sampha a palco, sob um sol poente que pintava o céu das mesmas cores com que se pintava o ecrã, e que acompanhava na perfeição as sonoridades do cantor e produtor londrino. Após anos a produzir Drake, Beyoncé ou Kanye West, 2017 viu finalmente a sua estreia com Process, um dos melhores lançamentos do ano. Na primeira metade do concerto, ainda diurna, aqueceu-se lentamente, com a voz a reinar sobre a delicadeza pop de temas como “Kora Sings” e “Reverse Faults”. Quando os músicos se juntam todos num set de percussão, cada um com seu ritmo num quase acto ritualístico, e iniciam “Without” é noite já, e a luz de fundo inunda o palco e envolve-nos na imensidão pop de “Plastic 100º C”, triunfando com um contínuo de “Blood on Me” e, sozinho no centro de palco, “(No One Knows Me) Like the Piano”. Sampha protagonizou a coroação do RnB no festival, num concerto que mostra ser possível transportar para o palco a genialidade sintetizada em disco, remontando-nos àquele remoto ano de 2012, onde naquele mesmo parque assistimos a um semelhante Weeknd dando os seus primeiros passos.

O contraste não podia ser maior quando, ainda imbuídos em Sampha, somos lançados para a guerra civil que acontecia no Palco ATP. Depois do cancelamento da primeira edição, dizia-se só acreditar que os Death Grips vinham de facto quando estivessem à nossa frente. E ali estavam, Zach Hill destruindo a bateria debaixo de si, Andy Morin electizando e MC Ride, de tronco nu, de braços no ar e a atirar gritos guturais para todos os lados. No público a anarquia reinava, num mosh constante que não conheceu pausas e causou vítimas, porque era impossível não reagir de outra forma. De uma violência contagiante, o concerto é impactante e a música já abrasiva em disco ganhas novos contornos e explode em pleno no seu ambiente natural. E se a massa humana saltava sem piedade, acompanhava também no que podia os versos de MC Ride, indo bem além da simples reacção e mostrando que, muito mais que fogo fátuo, os Death Grips são fenómeno de culto na comunidade do presente que se move pela deep web, pela violência de conteúdos e a esquizofrenia social. Na hora mais rápida de todo o festival, de corpo dorido, duvidando da sobrevivência dos sapatos e imerso em suor, terminamos a gritar “it goes it goes it goes guillotine!!” e com a certeza de ter assistido a um daqueles concertos que dificilmente se esquecem.

© Hugo Lima

Tudo o que há a saber sobre Japandroids, para além da música, pode ser dito em três tempos: de um lado está Brian King, do outro está Dave Prowse e são de Vancouver, British Columbia. É sempre com a guitarra em riste que o vocalista Brian King trata das apresentações, cordial como manda o estereótipo de um bom canadiano. Longe vai o ano de 2009 em que editaram Post-Nothing, que os catapultou para palcos que poderiam nunca ter vindo a pisar. Isto porque existiam os Japandroids antes de Post-Nothing, que até 2008 tinham gravado e editado as canções que viriam depois a constar na compilação No Singles, e que em inícios de 2009 estariam plenamente convencidos de que o projeto nunca levantaria voo. O plano era o de cumprir os concertos agendados, alguns fora de Vancouver, e pacificamente seguirem para os projetos futuros de cada um.

De alguma forma, os planos mudaram. O disco estava agora a ser ouvido, partilhado e recomendado, tinham propostas em cima da mesa e começavam a ganhar balanço para tudo o que viria depois. Nunca complicaram, nunca inventaram a roda, mas descobriram a fórmula certa. Em 2012 editaram Celebration Rock, um disco prepositadamente rico em partes cantadas, sem letra, para facilitar o diálogo com o público em prestações ao vivo. Depois, um intervalo de 5 anos, até ao mês de janeiro de 2017, para um disco mais maduro e arriscado, porque o êxtase de “Young Hearts Spark Fire” ou “Wet Hair” (que se fizeram escutar no Porto) já vai longe e a idade não perdoa. Near to the Wild Heart of Life é a consequência perfeita dos dois primeiros trabalhos, dando o contributo certo para que ao vivo também haja tempo para respirar.

Foi isso que fizeram no passado dia 10 de junho de 2017, sábado, último dia do NOS Primavera Sound, e o ponto final na tour europeia da dupla canadiana. Feitas as contas, dividiram o alinhamento pelos três trabalhos já lançados, ainda com passagens por “Heart Sweats”, “The Nights of Wine and Roses” ou “Younger Us”. Do novo disco, destaque para “North East South West”. Brian King diz que passaram o dia anterior na cidade do Porto, a recolher filmagens para o videoclip da canção, e deixa o convite a que nos deixemos filmar pela fotógrafa oficial da banda, para talvez depois aparecermos na edição final. Dizem adeus com “The House That Heaven Built”, e parece que o tempo voou. Também são assim nos discos, com as constantes 8 canções. O que nos vale é que podemos repetir as vezes que quisermos. Para os ver ao vivo, teremos que esperar por próxima oportunidade. Não precisam de inventar a roda para termos saudades deles.

Aphex Twin (imagem retirada do youtube)

A noite terminaria com mais um grande concerto electrónico de produção megalómana, desta com o mestre de todos, e um dos nomes mais aclamados do cartaz – Aphex Twin. Num improvável regresso aos palcos, de quem nunca foi grande amigo (quando passou pelo festival Números, em 2000, diz-se que não saiu de baixo da mesa de mistura), muita era a expectativa para ver como Richard D James soa em palco, após a edição de Syro, com Cheetah publicado no ano passado e um 12’’ surpresa com poucos dias cá fora. Num percurso ímpar, cristalizado como génio inigualável da electrónica sempre imerso num clima uncanny de perturbação e mistério, toca um pouco em todos os regimes, dos preciosos trabalhos ambientais às batidas mais abrasivas de pista.

Durante duas horas da actuação menos standard de todo o festival, o clima que permanece é o de perturbação e de admiração. Alternando também entre partes lentas de exploração e autênticos disparos de armas maciças, visitando o jungle, o techno ou drum’n’bass. Assistimos a um Midas a caminhar pelo universo de sons e a transformar tudo o que ouve em ritmos dançáveis e melodias valiosas, sem nunca nos deixar confortáveis. Nos ecrãs os rostos das primeiras filas distorcem-se e acompanham, com os seus próprios reflexos emocionais, a cadência da música. Em flash, surgem mesmo distorções de ícones nacionais (que nos lembremos: pastorinhos, Bruno de Carvalho e Jorge Jesus, busto do CR7, Ágata, Lili Caneças, Ana Malhoa, Salvador Sobral, Tony Carreira, Assunção Cristas, Marcelo, António Costa, Álvaro Cunhal), substituindo as suas caras pela do próprio ou pelas do público que dançava hipnotizado.

Sobre os lasers verdes que cortavam planos de fundo no ar, as luzes epilépticas que disparavam e a batida frenética e incessante, dançava-se em círculos desorganizados, que nem rituais pagãos da antiguidade. Outros simplesmente quedavam-se especados, de olhos bem abertos e sem reacção. Outros, hipnotizados, balançavam o corpo. Numa multidão rendida a Aphex Twin, num clima de crescente destruição que parecia sugar almas, a rave estava instalada e entregue ao grande puppet master. Ninguém queria mesmo acreditar que, quando abruptamente a batida parou, a noite estava dada por terminada, com tudo já montado para dançar até muito depois do nascer do sol. Terminando com o set mais abrasivo e radicalmente diferente do festival, fechava-se da melhor maneira um cartaz que primou pela exploração em detrimento da facilidade, e pelo triunfo da música como forma maior de arte.

A 7ªa edição está já anunciada, para os dias 7, 8 e 9 de Julho de 2018. O Primavera pertence já ao parque da cidade, e nós vamos pertencendo cada vez mais ao Primavera.

Texto: Guilherme Queiroz e Carlos Silveira

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