16/05/17

RUC @ Carla dal Forno | ZDB | 13.05.2017

Quando em 2015 a sua voz habitava as divagações pop dos F Ingers, Carla dal Forno apaixonou-se por Lisboa, e pela casa que lhe abriu as portas, uma “zé du bois” lida como se de um bosque francês se tratasse. Depois da aventura com Samuel Karme e Tarquin Manek, a australiana volta a atravessar o mundo, desta vez com a sua estreia a solo no livro de canções.

Editado no final do ano passado pela Blackest Ever Black, “You Know What It’s Like” consolida Carla dal Forno como front-woman e dona do seu próprio espectáculo. A intrincada malha sonora, entre o drone e o new wave, é pano de fundo para uma voz que se consolida em canções de nome próprio, de lírica delicada e, ainda que tremendo na voz frágil, se afirma como motor emocional dos temas. Ao vivo, a voz parece ainda mais fina e preciosa, quando ecoa no aquário da zdb e se mistura com o mar de sons em que o público se vê mergulhado.

Sozinha, balançando de um lado para o outro, segura o baixo como um leme, enquanto lança os bordões que definem o rumo da canção. De poucas palavras, olhando um vazio empático, comunga de algum modo com um público que hipnotizou. Atrás de si, desenha-se no vídeo um jogo de líquidos psicadélicos, que ajudam à experiência de imersão. Se de F Ingers não se ouviram canções, percebeu-se que “You Know What It’s Lik” é apenas o início de um caminho, e que ainda este ano nos espera um novo EP. Deste, pudemos ouvir “Clusters” e a belíssima “We shouldn’t have to wait”, na linha do trabalho do ano passado. Houve ainda espaço para a versão de “Blue Morning”, tema que pede emprestado aos seus vizinhos antípodas Kiwi Animals.
Enquanto nas ruas de Lisboa se vivia a euforia da vitória de um tetracampeonato e de um Festival da Eurovisão da Canção, o aquário da zdb provou uma vez mais a capacidade de suspender o tempo e nos isolar do mundo, num contraste de delicadeza e sonho. Ainda que breve, com menos de uma hora de duração, o concerto deixou-nos com água na boca por mais altos vôos de Carla dal Forno, e por um regresso com mais canções e com músicos que, ao vivo, possam recriar os ambientes sonoros onde respira.

Texto de Guilherme Queiroz

Cartaz por Teresa Castro

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