7/05/17

RUC @ Pharmakon | ZDB | 03.05.2017

© Vera Marmelo

Existem fenómenos difíceis de compreender. Pharmakon, alter-ego da norte-americana Margaret Chardinet, é um deles.

Nome maior do noise industrial feito no feminino, a sua persona musical resulta de um excruciante, penoso e claustrofóbico encontro entre o Homem e a máquina, do qual resulta, paradoxalmente, algo sub-humano, animalesco e brutal. Talvez não existia melhor adjectivo para descrever o que escutamos nos três trabalhos até agora editados pela Sacred Bones, nem o que conseguimos discernir das grotescas capas que os acompanham – as lesmas de Abandon, as vísceras de Bestial Burden e agora, as asfixiantes mãos de Contact. Trabalho maior de 2017, foi este último que Chardinet apresentou na Galeria Zé-dos-Bois no passado dia 3 de Maio, três anos depois de ter cancelado a sua presença no mesmo espaço por graves questões de saúde.

Composto, nas suas palavras, à volta de 4 estados de transe, Pharmakon transpôs para o negro aquário da zdb “an overwhelming force”, como tão bem descreveu a imagética de Contact à germânica Resident Advisor – não vimos asfixiantes mãos, mas sim corpos em pleno contacto, enquanto ora murmurava, ora berrava vocábulos incompreensíveis enquanto percorria o público. Dezenas de metros de cabo. Rastejou, deitou-se, colidiu com o público, eliminando quaisquer parcas barreiras que vagamente poderiam existir entre a artista e o público. É raro ver uma artista tão presente, tão visceral, tão extrema – tudo enquanto um qualquer estrondo noise corria em modo piloto automático. E, surpreendentemente, tudo terminou 35 minutos depois. Sem encore. Pharmakon abandonou o palco. E os Suicide voltaram ao P.A. da Galeria Zé-dos-Bois. Dream Baby Dream.

Texto de Miguel Marques

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