20/04/17

RUC @ Sónar Hong Kong

Os pensadores de coisas sabem bem onde fervilha nos dias que correm e se a resposta (que, na verdade, pode ser mais do que uma) não contemplar Ásia e, mais exactamente, Hong Kong, então estão enganados. A escolha do Sónar em Hong Kong como uma das novidades deste ano não aconteceu por acaso. A cidade, que é também uma Região Administrativa Especial da República Popular da China (há que ter pulmões para isto tudo) é um centro Mundial de basicamente tudo. Como o Sónar é, igualmente, um centro Mundial de música, criatividade e tecnologia, como reza o respectivo mote, então não podia ser de outra forma. A primeira edição aconteceu no dia 1 de Abril e nós estivemos lá. Sobre Clark, Dave Clarke, Ellen Allien, DJ Tennis, Gilles Peterson, Danny L Harle, MIIIA, Yalia, Kode9 e sua alteza DJ Shadow temos muito para dizer. Foram eles os destaques desta edição. Mas antes de começarmos a dançar consoante as BPM’s que cada um destes artistas nos oferece, temos de chegar lá. A viagem ainda é longa.

Um dia contra os três habituais da capital catalã faziam antever um festival mais morninho (mais não fosse pela atmosfera da cidade. Ou melhor, pelo local escolhido) no Science Park da Univesidade de Hong Kong. Numa cidade onde a rede de transportes é bastante boa (tanto o MTR (metro) como os autocarros e até os táxis são bastante recomendáveis. Também têm Uber, a propósito), até foi de espantar a fraquinha oferta para ir para o festival. Pelo menos, comparativamente com o existente para quando se queria regressar.

O Recinto (outdoor)

Pulseira e cartão. Tudo o que precisávamos para sermos felizes e hidratados no Sónar HK.

O festival acontecia numa zona pouco amigável dos peregrinos. A extensa, acolhedora e relaxada zona do festival (já lá vamos) ficava no Northern District, em New Territories (vamos traduzir: é muito lá para cima. Tem montes e quem chega a HK, por norma, fá-lo pela zona sul, em Central (ilha de Hong Kong) ou pela parte sul de Kowloon. Digamos que é como aterrarem em Santa Clara e quererem ir para o Pavilhão dos Olivais. Não é no fim do Mundo, mas também não é algo que façam a pé. Até porque é a subir). De facto, a partir das onze da noite era mais fácil regressarmos a zonas centrais de Hong Kong, como Admiralty ou a mítica Mong Kok. Mas para irmos para lá, só mesmo por Sha Tin, que ainda ficava relativamente longe do festival. Mais valia um metro até à estação da Universidade e depois subir de táxi. Foi o que fizemos. De qualquer forma, a viagem desde Central até ao festival não se conclui em menos de 45 minutos a uma hora, dependendo do trânsito.

Chegados ao destino, a verdade é que tudo começava a valera pena. O festival era fácil e nem precisávamos de andar com dinheiro. Carregávamos o cartão (única forma de efetuar pagamentos) que recebíamos aquando da troca do bilhete pela pulseira e a partir daí podíamos partir à descoberta do Mundo maravilhoso chamado Sónar.

Na verdade, nem precisávamos de ter bilhete para nos divertirmos ali e sermos felizes. Uma das primeiras coisas que vislumbramos no Sónar HK é o SonarDôme. E o que é isto? Um anfiteatro com vista para o extenso rio das Pérolas. Lá ao fundo, algumas das muitas ilhas do território. Algumas com prédios. Altos, sempre altíssimos. Mas um passadiço enorme e pessoas a dançar. Era o fim de tarde perfeito que se avizinhava. Por ali, passaram algumas das melhores selecções de House, Electrónica, Deep e Jazz. Maioritariamente composto por DJ’s locais, o destaque vai direitinho para a pequena, mas majestosa Ocean Lam. Ela teve a seu cargo animar a pista durante o pôr do sol, quando a luz ia desaparecendo e eram os edifícios que nos iluminavam. E ela, claro. Falamos de uma das mais conhecidas DJ’s de Hong Kong. E notava-se. Havia muita gente a saber de quem se tratava. A seleção não podia ser mais Asian influenced: Electrónica delicada, mas sempre dada à dança, hip hop e jazz. A sério, a música boa da Ásia é assim. Antes nota positiva para a passagem de Taku Hirayama e encerramento de Basic Soul Unit, que atravessaram o Pacífico e aterraram no Delta do Rio das Pérolas vindos directamente do Canadá.

Aqui, a festa acabava mais cedo. Às oito estava tudo fechado e as principais atrações até estavam lá mais para dentro. Era nos SonarClub, SonarVillage e SonarLab que tínhamos actuações ao vivo. Para além dos DJ sets, claro. Vamos começar pela mais aguardada prestação da noite: DJ Shadow. O disco do ano passado, “The Mountain Will Fall”, não foi o mais consensual. Talvez por isso – ou apenas porque sim -, Josh Davis deu poucas voltas a esse registo. Houve passagens por “Endtroducing…”, “The Private Press” (Six Days foi um dos grandes momentos do festival, aqui na versão revista por Machinedrum). Também houve espaço para incursões nos penúltimo e antepenúltimo discos.

O Sónar Village podia não ser o espaço mais amplo do Mundo. Mas ninguém se queixou de estar apertado.

Shadow tem uma qualidade especial entre muitas outras: a música que produz é suavemente agressiva e levemente pesada. A melodia deixa-nos levar. A pista falsamente ampla parecia pequena, mas nem por isso nos importámos por ter um pouco menos de espaço. Não se pode dizer que o Sónar HK seja um local demasiado overcrowded. Valeu bem a pena. Um daqueles que pagas para ver e não fica a defraudar.

Antes tivemos também, como destaques, Danny L Harle (merecia uma hora mais tardia) e Gilles Peterson. Este contou com uma selecção daquela dança de fim de tarde. De uma tarde de verão, mais propriamente. Não podemos dizer que tenha sido mesmo agradável, mas a verdade é que pecou por pouco concisa e vimos alguns olhares aborrecidos. Gilles até “comunicava com o público”, algo que, como sabemos, é muito importante.

O Recinto (indoor)

Fechamos os palcos ao ar livre para enveredarmos pelos bem ventilados (é regra em HK) espaços interiores. SonarClub e SonarLab. São um ao lado do outro. Poucas diferenças, apenas o primeiro é generosamente maior. E é aqui que está Clark. O espectáculo que melhor misturou luz e som. Conjugação perfeita daquele que arrancou principalmente com temas mais recentes (tem um álbum aí a rebentar) e claramente a pedir agressividade na pista. Unfurla, do registo de 2013, foi, provavelmente, o maior momento de todo este Sónar HK.. Foi aqui que também tivemos a melhor simbiose Ocidente/Oriente: Nosaj Thing X Daito Manabe. USA e Japão. A guerra ficou lá para trás e já se percebeu que o melhor da globalização (e a sua salvação) está no dancefloor. Que set, meus amigos, que set! Foi mais um dos registos live, tal como havia sido Clark.

Luz e som em perfeito conluio. Clark, com um novo disco prestes a sair, teve uma das melhores actuações do dia.

Pelo meio, houve DJ Tennis, a mostrar que não é só Italodisco que se dança em Itália, Ellen Allien (Alemanha) e a noite fechou com o veterano Dave Clarke. Foi uma boa forma de encerrar um festival que já valia os Hong Kong Dollars que havíamos soltado para garantir aquela pulseira cor-de-rosa. E houve muita gente ali de propósito para o ver, pois a sala encontrava-se claramente com a maior enchente do dia. DJ set irrepreensível.

Na sala do lado, onde fomos intermitentemente, era o SonarLab. Aliás, foi lá até o primeiro local em que entrámos depois da visita ao Dôme. Por aquela hora, era um artista da casa que nos dava as coordenadas. Yeti Out é uma espécie de colectivo cultural e criativo de Hong Kong, que mistura DJ’s, produtores, escritores e fashion designers. Confessamos que não sabemos se todos passaram pelo palco, mas acreditamos piamente que os DJ’s, no mínimo, estiveram lá. De Espanha, com alguma electrónica mais agressiva, chegou-nos Ylia; novamente a marca registada caseira com outro colectivo hongconguense, com XXX Experience, mas o grande set daquele palco estava destinado a um nome consagrado. E muitos dos habitantes de Coimbra já tiveram o prazer de dançar com ele: Kode9. Um homem imparável, que trouxe o UK para HK. A quantidade de gente tornou tudo estupidamente pequeno. E logo nós que quisemos fazer crer que o espaço era amplo e ventilado (mas era. Na realidade, era mesmo).

Kode9 actua perante uma sala pequena de mais. Britânico foi um dos nomes consagrados do cartaz.

O Sónar é também um festival virado para o futuro e para além da música, havia a feira e exposição de tecnologia. A maior parte vinha do Reino Unido e de Hong Kong, mas confessamos que o tempo escasseava e não conseguimos, infelizmente, gastar muito do nosso tempo na área dos Workshops e Media Arts. Ao menos somos sinceros.

A jóia do Delta

Podemos com isto concluir que o Sónar HK vale bem a pena. Para quem nos lê, acreditamos que pode parecer uma utopia, mas a verdade é que o festival pode ser um bom pretexto para abrirem os horizontes e aventurarem-se no fascinante mundo da Ásia, com tanto por descobrir e imensas coisas para fazer e ver. Até porque Hong Kong é uma cidade que nada fica a dever a outras igualmente incríveis, como Londres, Berlim, Barcelona ou Moscovo. Acreditem, não deve. Arrisco-me a dizer que não é ultrapassada por qualquer uma destas que mencionámos.

Por estas alturas do ano arranjam voos baratos por companhias onde o serviço vai do bom ao muito bom. Pela Emirates, por exemplo, a viagem faz-se por 550 ou 600 euros. Ida e volta. Vá, não torçam o nariz, é do outro lado do Mundo e pode ser uma viagem que vos marcará para sempre. E há viagens na Europa bem mais caras e a sítios muito menos interessantes. O bilhete para o festival custa cerca de 100 euros. Claro que não têm de vir de propósito para o festival. Isso não faria qualquer sentido, na verdade. Daqui podem viajar para muitos sítios a preços irrisórios. Vietname, Laos, Camboja, Tailândia, Filipinas, Indonésia, Malásia, Macau, Japão, China continental, Taiwan, Myanmar… É tudo perto e ridiculamente barato. O aeroporto de Hong Kong tem voos a partirem para infinitos paraísos tanto quanto a RUC tem música boa. É a toda a hora. Parece-nos uma boa aventura!

Hong Kong pode ser apenas uma paragem no vosso percurso pela Ásia. E o Sónar o apeadeiro mais apetecível. Mas se quiserem gastar todo o vosso tempo na Nova Iorque da Ásia, na Jóia do Delta, então… preparem-se. Vão adorar. A cidade mistura traços de cultura milenar com modernidade demasiado à frente para os nossos olhos. Há cultura em todo o lado, gente de todo o lado, oportunidades em todo o lado. Toda a gente (mesmo) fala inglês (quem advoga que “fala-se inglês em todo o lado” devia sair mais vezes. Depois digam-me se mantiveram essa ideia) e comem bem em qualquer local (essa é uma das maravilhas da Ásia). Ainda para mais um sítio internacional como Hong Kong: se não gostarem de gastronomia cantonense, há pitéus de qualquer parte do Mundo, porque aqui há gente de todo o Mundo.

Só tem um senão: Hong Kong é uma cidade cara. Bem cara. Dormidas e comidas vão custar e o dinheiro vai voar-vos das mãos com uma facilidade gritante. Até porque há muita tentação para querer gastá-lo. Aqui temos a Ásia consumista em todo o seu esplendor. Quem está acostumado a viajar sabe que, da Europa, excluindo a Oceânia, é possível viajar para praticamente todo o lado de forma barata – tendo em conta a relação com as distâncias que se percorrem. Só precisam de duas coisas: não serem esquisitos para comer, nem para dormir.

Mas aqui é deveras complicado. Hong Kong é pornograficamente caro, meus queridos amigos. Mas não vão chorar o vosso dinheiro. Quer seja nas icónicas ruas da colorida (com néons, como nos filmes do Wong Kar-wai) Mong Kok, como também nas praias do sul, ou na aventureira escalada dos montes de Lantau. Se não gostarem de natureza (há muita, por incrível que pareça), podem sempre ficar por Central e Western District. Lá é onde Hong Kong estala de coisas a acontecerem e podem sempre terminar a noite a espancarem uns cocktails nas zonas de diversão nocturna, num bar onde facilmente vos situa num vigésimo e muito andar. Se não vos sobrar dinheiro para os copos, ao menos têm a oportunidade de tirar umas fotos lá de cima. É bastante bonito e parece que estão no Blade Runner. Venham.

 Texto e fotografia de João Picanço

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