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RUC @ Norberto Lobo apresenta “Muxama” | Teatro Maria Matos | 23.11.2016

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Imerso em breu, uma luz débil pulsa no centro do palco. Adivinham-se os vislumbres do guitarrista que o ocupa sozinho. No meio de todo um labirinto de pedais, de guitarra semiacústica ao colo, Norberto Lobo estreia no Maria Matos “Muxama”, o seu último longa duração, editado este ano pela three:four. Perante um teatro cheio, mostra-nos porque continua a ser um dos mais valiosos músicos que cresceram por cá.

Chamar a Norberto Lobo um guitarrista será limitá-lo a uma imagética que nunca ocupou e da qual se afasta cada vez mais. A guitarra surge como interface entre a cabeça de Norberto e o universo de sons que faz ressoar. E é num lamento quase carpideira de Giacometti que começa este Muxama. Nos dedos de Norberto, as cordas soltam ais perdidos numa memória distante, num interior longínquo, muito humanos e nossos.

Distanciando-se de um mais áspero Fornalha, Muxama investe num trabalho de criação quase nostálgica, neste jogo de sons distantes, melodias errantes, que divagam e se esfumam. Sob as cordas, o ambiente adensa e dilata, por vezes mais nevoeiro, por outras mais mecânico. O clique dos pedais é um cimematógrafo que vai rodando, fotograma em tons sépias e gastos pelo tempo, destas imagens que, sem nunca as viver, parecemos revisitar.

As linhas e escalas desconstroem-se, diluídas nas camadas sobrepostas. Norberto toca guitarra como quem sente o piano, como quem sopra a harmónica, como quem solta esses “ais”. O silêncio, também ele instrumento, pesa denso sobre as cordas, abafando ténue e cheio, afastando as notas que se desvanecem. Outras vezes, como em “Figueira”, a linha rasga esse fino lençol que desenha, em ecos que evoluem ao longe em doce dedilhar.

Há uma qualquer empatia na música de Norberto Lobo que não nos deixa escapar. Se o sentimos desde Pata Lenta, não o perdemos nos vários caminhos trilhados até agora. Muxama é um reencontro, entre o íntimo e o partilhado, em que os sons respiram e ficam, lentamente, a ecoar em nós. Num dos melhores discos do ano, Norberto Lobo continua a explorar as suas formas e sons, o seu próprio, único e inesgotável, universo próprio.

Texto de Guilherme Queiroz

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