28/11/16

RUC @ Amen Dunes | zdb | 24.11.2016

© Vera Marmelo

© Vera Marmelo

A voz de Amen Dunes enche tudo.

Sozinho em palco, com uma guitarra, polo aberto e fato de treino. Sozinho, acústico, num mundo pós 9 de Novembro. Sozinho, sem banda, ano e meio após o seu último concerto, ano e meio entre Nova Iorque e LA, e agora semana e meia em Lisboa, em gravações do novo disco.


Sozinho, voou entre Roma e Lisboa no início da semana. Como habitual, para disfarçar a ansiedade que sente em viagens de avião, viu um documentário sobre música. Este sobre Townes Van Zandt. Também ele sozinho, de guitarra, a contar histórias. “A música era ao mesmo tempo datada, e actual. Uma guitarra e um contador de histórias, a contar mais histórias do que a cantar. É disto que precisamos nos dias de hoje.”

Segundo ele, a decisão acústica estava tomada muito antes de voltar ao Van Zandt. “Ocasião rara, talvez irrepetível”, no fim da gravação de um disco sem uma única guitarra daquelas, tudo em banda. Mas esse outro americano em tempo difíceis definiu sem dúvida este regresso ao nuclear que encontra nas cordas da guitarra. E àquela voz que enche tudo.

As canções surgem novas e antigas, saltando um pouco por todos os discos que nos tem deixado. As novas sempre com um pedido de desculpas. “Detesto bandas que decidem tocar as músicas novas nos concertos. Não gosto de mudança. Gosto quando tudo fica na mesma.” Será difícil, a partir do intimismo, da acústica, da simplicidade, adivinhar como será o sucessor de Love. A mudança nota-se num tom menos rendido a esse amor em desconstrução de Love, mais desafiante, forte, envolvendo-nos numa certa agressividade. Ainda assim, os acordes de uma Lonely Richard enrolam-se nas cordas das novas canções, sem transição, sem quebra, em fluxo sem início nem final.

Ao seu lado, a solo em abertura, em dupla no fecho, esteve o irmão Xander Duell. Velho companheiro dos Inouk, chega à zdb para apresentar “In The Castle”. Entre altos e baixos, numa entrega expressiva, marca ao piano um dos momentos altos da noite, quando o cabaret com que começa evoluiu para “Hallelujah”, “Purple Rain” e uma “Black Star” delirante, de prender os pés ao chão e viajar para essa estrela negra onde os ecos de Bowie ressoam vivos e reais. As vozes dos dois acabam a entrelaçar-se no fecho, numa viagem à Líbia de Fayruz, a deixar o desejo de que a combinação da força de Xander com a envolvência de Damon se una também brevemente em estúdio.

Na caixa negra do aquário da zdb, enquanto o dilúvio universal caía lá fora, Amen Dunes levou-nos para fora do tempo e do espaço. A voz de Amon Dunes enche tudo. No mundo pós 9N, pós Bowie, pós Prince e Cohen, Amen Dunes sozinho enche tudo. E, fechando os olhos, essa voz que enche tudo une-se com a de Van Zandt e canta “I’ll be here in the morning / Close you eyes / I’ll be here for a while”.

© Vera Marmelo

© Vera Marmelo

Texto de Guilherme Queiroz

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Wed, 26 Apr 2017 00:17:50 +0000