12/11/16

RUC @ SEMIBREVE 2016

semi

Se 5 minutos a percorrer as ruas de Braga são suficientes para alguém se sentir em casa ou acolhido, então o que dizer quando ocorre ao mesmo tempo um evento (já com estatuto de culto) de música exploratória e arte digital?! Acrescentando ainda o facto de ser verão no meio do outono (28 a 30 de Outubro). Falamos de algo que cada vez mais dispensa apresentações, o festival Semibreve. Este ano acrescentando a belíssima Capela Imaculada do Seminário Menor aos habituais locais de performance (Theatro Circo, Casa Rolão e gnration) e ainda o prémio Edigma.

Perto das 21:30 às portas do Theatro Circo ainda se encontram inúmeras pessoas a acabarem o último cigarro e a trocar os bilhetes. É possível reconhecer vários rostos de edições anteriores, o que demonstra o público fiel ao festival. Após a sala estar praticamente cheia, Kara-Lis Coverdale inaugurou a sexta edição do Semibreve. Escondida atrás de uma cortina, ia criando paisagens ambientais e relaxantes, penetrada pelo hipnótico imaginário visual de Marcel Weber (a.k.a. MFO) que inevitavelmente metia a música em segundo plano durante algumas sequências. Foi o suficiente para convencer a audiência e fazer jus à abertura do festival. Já Kaitlyn Aurelia Smith, virtuosa do sintetizador Buchla, mostrou um registo mais pop. E foi mesmo o Buchla 100 e pouco mais, o suficiente para arrancar uma ovação do público. De certa forma foi uma homenagem inconsciente ao criador deste mesmo sintetizador, Don Buchla, que infelizmente faleceu no mês de Setembro passado.

Ron Morelli lotou o pequeno auditório do Theatro, onde apresentou pela primeira vez o projecto Faltar ao lado de Florence To. Ao contrário dos seus conhecidos sets para partir a pista de dança, aqui apresentou as suas produções mais ambientais/industriais que se podem ouvir nos seus últimos lançamentos pela Hosptial Productions. Na tela, o visual bauhausiano e glitch de Florence To foi acompanhado pela sonoridade negra de Morelli, carregada de drones e alguma batida. Provavelmente dos melhores concertos do Semibreve. Uma vasta parte do público saiu a meio para não perder o início de Andy Stott que acabou por ser uma desilusão. Tudo estava à espera para ouvir os belos sons de Too Many Voices mas o que se ouviu foi um dubstep monótono com pouco conteúdo, e ainda por cima com a Black Box sobrelotada com necessidade de oxigénio. Tudo errado.

O segundo dia começou com a romaria à missa das 17:30h, mais concretamente à de Christina Vantzou acompanhada pelo Ensemble Harawi, na Capela Imaculada do Seminário Menor. Música ambiental através dos drones de Vantzou acompanhados pelo Ensemble, que colocou a plateia, que sobrelotou a Capela, em puro estado de contemplação. Infelizmente só teve uma curta duração de 30 minutos.

Tyondai Braxton, ex-líder dos Battles, presenteou-nos com a única performance do Theatro Circo que nos fez querer levantar das cadeiras e começar a dançar, recheada de momentos abstractos e inquietantes, que Braxton misturou com ritmos divertidamente pesados de forma bem-sucedida. Infelizmente, um problema no equipamento obrigou-o a encurtar a actuação, ao qual o público respondeu solidariamente com uma longa salva de palmas.

Antes de rumarmos ao GNRation para ver Laurel Halo, fomos hipnotizados por Jonathan Saldanha. Encantador e alucinogénio, simultaneamente. O som moveu-se de forma imponente à medida que o pequeno auditório escuro, apenas com uma vaga luz vermelha ao fundo, era repleto de fumo. Saldanha proporcionou-nos os ingredientes essenciais a uma trip à medida da ‘cave’ do Theatro.

Ao contrário do aborrecimento que foi Stott, Laurel Halo conseguiu hipnotizar a plateia da Black Box que ia fervilhando através da incrível amálgama sonora que foi construída. Do house ao techno, de afinidades dub a batidas quebradas e até mesmo algum ambient pelo meio. Caso para dizer, clubbing de vanguarda.

No último dia o formato tem-se mantido em matinée de típico Domingo preguiçoso, onde é possível ir chillar até à Casa Rolão com a habitual Q&A da revista The Wire e depois ir ver as últimas performances no Theatro Circo até ao final da tarde. E foi a cargo de Oliver Coates e Paul Jebanasam + Tarik Barri que o Semibreve terminou. Primeiro foi Oliver Coates, violoncelista que veio apresentar o seu último disco, Upstepping (gravado apenas com sons do seu violoncelo). E nada melhor do que as simulações virtuais, distópicas e vazias de Lawrence Lek (colaborador de Kode9) como acompanhamento dos sedosos sons de Oliver. O espírito de Arthur Russell continua bem vivo!
Depois veio algo que é quase impossível de expor em palavras (assim como qualquer outro lançamento com o selo da Subtext Recordings); a catarse de Paul Jebanasam e Tarik Barri que fez todo o sentido como encerramento do festival. O último trabalho de Jebanasam, Continuum, é ligado na perfeição aos visuais de Tarik (cujo software foi criado pelo próprio), dando a sensação que se estava numa tempestade em movimento constante, alternando entre a ausência de luz e mesmo de som também. Dos melhores exemplos que se pode dar de uma verdadeira experiência audiovisual.

Como Kara-Lis Coverdale disse na Q&A, que é libertador sair do universo regrado da música de conservatório à qual estava habituada e consequentemente saturada, aplica-se ao Semibreve. O exemplo de como andar sempre debaixo do radar sem cair no tédio e na repetição, num mar saturado de festivais em cada esquina e a cada hora.

Cobertura por Catarina Antunes e João Baptista

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