18/09/16

RUC @ Reverence Valada 2016

 

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A Rádio Universidade de Coimbra esteve presente (infelizmente apenas) no último dia da terceira edição do encontro sonoro na paisagem ribatejana.

Criado em Londres, onde reunia 12 bandas ao longo de 3 dias de música, o Reverence foi transferido para a pacata aldeia de Valada, Cartaxo onde, há 2 anos, tem surpreendido os locais e atraído pessoas de vários pontos do mundo.

Segundo a organização, o objetivo que se mantém desde início passa por criar um festival com bandas que não tocam regularmente em festivais e/ou no nosso país, apelando a um público que pretende conhecer ou redescobrir o que mais inovador se tem feito no mundo mais alternativo da música independente.

Ora, nesta terra da (ir)reverência, a prioridade vai ser sempre para a construção anual de um cartaz arrojado, fruto de um generoso orçamento generoso, que marque a diferença, imponha respeito e relativize o resto. Essa é a garra que se sente, com naturais distorções também. As bandas com bom som (ruff e profundo) são o mais importante. Esta é a cultura onde o negro se deixa seduzir nalguns momentos pelas cores mais reluzentes numa lua de mel sónica, onde o protesto namora com psicadelia, onde o urbano assume alguma espiritualidade, ainda que tímida.

A beleza do local é inegável, nas margens do rio Tejo (numa costa que poderia ser alvo de um merecido para facilitar os mergulhos e toalhas), o bem receber das gentes da aldeia (um pouco na onda do Bons Sons de Cem Soldos em que a comunidade já faz parte) e a qualidade técnica do som dos palcos que continua a ser muito acarinhada.

Desmistificando a máxima do “alto e bom som” com um “ter o som alto não é só por si bom”, denota um gosto cuidado pela massagem auditiva, porventura devido ao mecenato britânico que investiu este evento anual.

É certo que, por vezes, é difícil fazer compreender (apenas num primeiro instante) tanto público como as próprias bandas, mas a batalha pelo som nítido vale a pena e poderá valer uma marca diferenciadora para outros festivais maiores que fazem uso de volumes ensurdecedores e de aparatos imponentes, fugindo ao que realmente importa… a música.

A verdade é que muitos concertos tiveram uma mistura e acústica bem equilibrados, num som cheio e distribuído, onde por mais barulhenta que fosse a banda, no geral, se conseguiam ouvir os instrumentos de forma distinta, sem tímpanos a rebentar ou o corpo a ranger.

Quase incitado pela beleza pós apocalíptica decadente da arquitetura de várias casas senhoriais lindíssimas, também o festival tem obviamente os seus defeitos e chatices.

De facto, no que respeita a logística e organização, o festival ainda revela uma adolescência, por vezes puberdade, que uma terceira edição já merecia amadurecer.

Em termos de máquina organizativa e logística, esta edição apresentou algumas mudanças relativamente a anos anteriores ainda a necessitar de afinação. Serão pontos a rever porventura a colocação do mercado mais junto às zonas de lazer e restauração, a menor discrepância de preços entre a aldeia e o recinto ou a presença efetiva de autocarros para transportar os campistas da vila até à estação de comboios.

É certo que a ausência (que começa a ser um hábito) dos Killing Joke gerou alguma névoa de desilusão no público, algo que também terá afetado a organização com a quiçá irrefletida reformulação de última (e distraída) hora dos horários e locais de várias bandas, com consequências nefastas para a orientação espácio-temporal do público.

De facto, a máquina organizativa é ainda imperfeita, mas boa ouvinte e para o ano será melhor, tem de ser, sob pena de se tornar obsoleta.

Mas vamos ao mais importante… a música.

Estivemos no concerto de Nicotine´s orchestra. Depois de seis discos editados em seis anos e uma compilação, a orquestra de um só homem que já chegou a ser orquestra tem muitas histórias e aprendizagens na bagagem. De facto, carrega no seu percurso um pouco de muita coisa à semelhança do seu maestro que assume saber tudo um pouco de vários instrumentos, sem ser um mestre em nenhum. Toca muitos instrumentos benzinho, mas foi pedindo ajuda e muito bem.

Com isto ganham plasticidade, mas denotam dificuldade em assumir uma identidade clara para o público que não possa ser confundida com pretensiosismo, preguiça ou refúgio num pseudo-experimentalismo.

Na sua melhor versão, o seu indie psicadélico, jovial como eles se auto-proclamam, por vezes rockabilly, com tímids detalhes de bossanova, leve, por vezes misterioso, permite viagens tropicais, agridoce, cínico, mas simples.

A versão apresentada para este concerto foi mais de guerrilha, com temas de rock arranhado, rockabilly e um pretenso progressivo / noise em que só baterista pareceu vestir de facto a camisola acabando coroado pelo público como o herói resistente.

O concerto de The Quartet Of Woah! denotou que a banda a precisar de uma pausa para descansar, refletir, descer o arranhar do ego sonoro e redescobrir a magia dos crescendos que nos transportam do ingénuo e puro ao forte e longo. Não foi mau, mas… já foi muito melhor! Na questão da limpeza do som que elogiamos no geral sobre o festival, aqui foi exceção com o som do baixo demasiado berrante, as diferenças de pedais na guitarra não se discerniam e, acima de tudo, os teclados borbulhantes ficaram sujos e ferrugentos. Para um fã seguidor, como me assumo, foi uma desilusão já pressentida de atuações anteriores.

Saudades do som mais limpo do rock progressivo com os seus inícios ingénuos, corais e pianados, com os seus crescendos pacientes e bem elaborados até ao atingir da força plena, que vai mais além do que o stoner rock com laivos clarificam pontes entre jazz e um trash metal por exemplo.


Marcamos presença no concerto de
Mécanosphère. Esta ménage transnacional do rock industrial com os desvaneios da eletrónica e a poesia sábia e fatalista produz um ambiente que cativa, gera curiosidade e orienta a expetativa, é quase impossível sair a meio.

A alma de Adolfo Luxúria Canibal mostra o mais visceral lado da teatralidade sonora e visual que nos é servida neste festim.

Viajando pelas imagens de um espaço sideral mental, embalados pelos cenários emocionais pautados por ritmos provocatórios ou libertadores, numa encruzilhada entre a acústica, o analógico e o eletrónico, assim se faz Mécanosphére numa atuação que faz justo ao rótulo de caos concreto inclassificável. Muito noise, industrial, ficção cientifica, sociedades distópicas, de guerrilha urbana e mundana onde o comandante Adolfo nos leva no seu barco até onde for preciso.                                                                                                                                                                  

O concerto dos The Damned era uma grande aposta no cartaz e correspondeu. A fusão madura do punk rock com o gótico foi-nos servida com personalidade por esta malta bem experiente. A forma como os seus elementos se soltam sem show-off é genuína e gera simpatia imediata, é fácil entrar na onde e pedir só mais uma. Notável a forma como conseguem construir um ambiente de música quente cantada em conjunto com o público num qualquer pub. Da formação original, apenas se mantém o charmoso vocalista veterano, no entanto o resto da companhia sabe o que está a fazer e acrescenta bem. A garra e a vontade de fazer tudo rápido, arranhado e em força está lá, embora mais refinada pela estrada.

Porventura, o grande cabeça de cartaz, os Sisters of Mercy tiveram muitos admiradores que vieram só para os ver, no entanto soube a pouco, não no sentido de terem tocado pouco tempo, mas pela magreza vigente nalguns dos temas. De facto, pareceu que faltava mais preenchimento aquele som, houve quem questionasse se não seria uma gravação. Visualmente a coisa foi interessante, com um nevoeiro à John Carpenter que apenas permitia que os vultos na primeira linha do palco fossem visualizado, o problema foi que não havia uma segunda linha… Batidas de MacBook e guitarras chatas, apenas ocasionalmente possuidoras de solos marcantes (embora com uma iluminação branca que lhe dava um tom fantasmagórico), deixaram o público morno.

O concerto dos Mars red sky foi, sem dúvida, um momento alto na noite. Este trio, vindo de Bordeus, formado por Julien Pras na voz e guitarra, Jimmy Kinast no baixo e vozes e Matgaz na bateria trouxe o melhor stoner rock psicadélico da noite.

A conjugação da voz doce, mas com força ocasional para não se tornar monótona, com a guitarra e baixo bem gordos e apoiados por visitas de pedias wha wha, phaser, entre outros criaram um som bem preenchido e cativante, sem acelerar em demasia o ritmo.

A fluidez e sedução dos seus temas clicaram uma pausa no festival e mostraram que a inspiração que colheram nas gravações que efetuaram em 2011 no deserto espanhol de Bardenas está ainda bem fresca.

Nota-se a herança de bandas como Electric Wizard, Acid King e claro Black Sabbath, mas têm também uma melodia emotiva e ingénua de um Neil Young ou mesmo Bowie.

Já vão no terceiro álbum, continuam a construir um som de psicadelia densa e, sejam claros, se o céu vermelho de Marte é assim, também lá queremos ir.

Destaque também para as atuações sólidas, bem batidas e de qualidades dos Djs A Boy Named Sue e Pedro Chau.

Acabamos esta reportagem sobre o terceiro dia da edição de 2016 do Festival Reverence Valada citando o nosso colega de rádio Fernando Alves, “o festival que mais guitarras em distorção faz soar por metro quadrado nos três palcos do recinto (não aconselhável, já agora, a asmáticos ou com ouvidos sensíveis / pouco exigentes)”.

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Texto por Vasco Otero

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