3/07/16

RUC @ Sónar +D 2016

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Não há como negar – durante um espaço de aproximadamente duas semanas, Barcelona é o centro da música electrónica mundial, onde se buscam e formam tendências, cimentam estatutos e invariavelmente se encontra a “next big thing”, tudo gravitando em torno do Sónar.

Ainda assim, falar só e exclusivamente em Sónar é redutor – o pulsar da “música do futuro”, quer nas suas vertentes mais maximalistas, quer minimalistas, brota de todos os cantos da cidade, dos maiores clubes (Razzmatazz, Nitsa) aos mais pequenos (Moog) providenciando uma certa e determinada ligação com o Sénar que se julgava perdida depois da mudança para o eixo Praça de Espanha (onde se realiza o Sónar D+ e Sónar by Day) e a Fira Barcelona – Llobregat, gigantesco complexo de armazéns onde decorre o Sónar by Night.

Hoje em dia apenas podemos imaginar como seria ouvir nomes como Flying Lotus no centro do Raval – contudo, o crescimento do Sónar enquanto evento de massas assim o obrigou. O que se perde com a impessoalidade da Fira Montjuic, ganha-se em conforto – a quase inexistência de filas, de comuns esmagamentos, tornam-no num dos melhores espaços para festivais onde já estivemos.

Evento irmão, o Sónar +D afirma-se como evento multidisciplinar e multisectorial, agregando no mesmo espaço curiosas e inovadoras start-ups, venture capitalists e conferências sectoriais. Se no Sónar ouvimos a música do futuro, no +D vemos o futuro da cultura digital e tecnologia criativas, numa simbiose única, raramente vista num festival desta dimensão.

A convergência inerente ao Sonar +D, torna-o, igualmente, num espaço de reflexão único, e o seu painel de conferências prova-o: a curadoria em contexto de micro-cenários musicais (“Curating the Curators – Jeff Smith (BBC)), os novos agentes da rede digital e educacional (“Decentralize” e “Curious Voxels: How Minecraft is creating cultural spaces for play and learning”), o futuro da big data (“RMIT presents COP ART: Surveillance, art and the new ethics of data – Kate Crawford”) e as novas fronteiras da realidade virtual (“The New Frontiers of VR Storytelling.”).

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BRIAN ENO – WHY WE PLAY

“If you watch children, they play all the time — but what are they doing when they’re playing? They’re imagining. They’re feeling out things. They’re trying to understand what other people feel about things. So the same way children learn by playing, adults play through art.” – foi assim que Brian Eno terminou a inaugural talk do Sónar +D, monólogo de uma hora onde estabeleceu pertinentes conexões entre a economia, arte e educação, partindo da ideia de liberalismo enquanto “survival of the fittest” e como a fetichização de um método educativo em torno do acrónimo STEM (“Science, Technology, Engineering and Mathematics”) inadvertidamente conduzirá à morte das artes enquanto veiculo de alerta para o real. Ao negarem o “seu real”, vultos como Charles Dickens ou Harriet Stowe contribuiram para uma radical alteração da narrativa social – tal como o rock n roll, um século depois,com a sua estrutura anárquica, destruiu a estratificada concepção em torno da música. Apelando às massas, e negando o virtuosismo, as artes deixaram de estar apenas ao alcance de alguns, tornando-se algo maior que uma classe social e, acima de tudo, um veículo transversal de mudança e alteração de mentalidades. Algo colocado em causa pela actual educação utilitarista, como bem sublinhou Eno.

JEAN MICHEL JARRE : PIONEERING THE FUSION OF IMAGE AND SOUND

Horas depois de Brian Eno, foi a vez do francês Jean Michel Jarre deixar o seu contributo quanto ao papel da música no futuro . Sob o lema “Pioneering the Fusion of Image and Sound” e entrevistado pelo norte-americano radicado em Barcelona, Phillip Sherburne, Jarre alertou para a desumanização da música e questionou o papel que a inteligência artificial poderá ter no futuro da música.

THE VISUAL SIDE OF RASTER NOTON

Foi num lotado Stage+D, que começaram as celebrações de 20 anos de existência de raster-noton, com a aparição de dois dos fundadores da mesma. Carsten Nicolai (Alva Noto) e Olaf Bender (Byetone) durante 45 minutos, falaram sobre a estética e o processo criativo por trás desta editora de culto, alemã. Infelizmente, Frank Bretschneider (o outro fundador) não esteve presente mas houve espaço para um showcase de 3 concertos no Sonar Complex para o resto do aniversário.

Pelo Sonar +D passaram 4500 profissionais acreditados, de mais de 50 paises, interagindo com os mais de 60 projectos presentes no MarketLab, tendo-se realizado centenas de reuniões de networking e mentoria. Sem dúvida, uma força cada vez maior no mercado criativo europeu.

Texto de Miguel Marques e João Baptista

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