3/07/16

RUC @ Sónar by Night 2016

© Ariel Martini

© Ariel Martini

DIA 1

Jean Michel Jarre

Poucos nomes no panorama mainstream causaram tanto impacto na música mundial como Jean Michel Jarre: virtuoso dos sintetizadores, explorou como poucos as possibilidades que o conceito de “concerto ao vivo” encerra, manipulando visualmente bairros inteiros e monumentos, encaixando-os na sua música grandiosa e insuflada, quer através de projecções, quer através de futuristas apresentações laser – assim aconteceu na Place de la Concorde, a 14 de Julho de 1979 (1 milhão de espectadores), a 14 de Julho de 1990 no Bairro de Lá Defénse em Paris (2,5 milhões de espectadores) ou a 6 de Setembro de 1997, na celebração dos 850 anos da cidade de Moscovo (3,5 milhões de espectadores). Numa época em que concertos são transmitidos via streaming, o número de espectadores muitas vezes pouco ou nada significa – contudo, ajudam a cimentar um estatuto. E esse estatuto ninguém retira a Jean Michel Jarre.

Longe dos malabarismos new age-progy de Oxygéne ou Équinoxe, Jarre apresentou em estreia mundial, não só o seu novo espectáculo, mas também os seus dois últimos trabalhos – Electronica 1: The Time Machine e Electronica 2: The Heart of the Noise – marcados por uma constante presença de convidados como John Carpenter, Vince Clark, Peaches, M83 e espantosamente Edward Snowden.

Deliciosamente kitsch, o francês apresentou um espectáculo de encher o olho, marcado pelas (demasiado) móveis cortinas de LED´s em constantes explosões de cor, por vezes dominadas por uma certa aleatoriedade, outras vezes invocando as capas dos já mencionados lendários álbuns – ou, porque não, video protagonizado por Edward Snowden (no tema “Exit”).

Ainda que nos tenha apresentado um espectáculo insuflado, por vezes a roçar o piroso de tão grandioso que procurava ser, Jarre mostrou o “material de que são feitas as lendas” – inclusive, a capacidade de tocar a clássica harpa laser em “The Time Machine”.

NOIAPRE

Abertura do palco Sónar Lab, curado pela Resident Advisor, por Noaipre. O nativo aqueceu um público ainda pouco numeroso e tímido através de bass music, hip-hop e até mesmo algum reggaeton a agitar a rarefeta audiência.

HOT SHOTZ – LORENZO SENNI + POWELL

Com o recinto já mais preenchido, e logo após Noiapre, foi a vez de Powell e Lorenzo Senni subirem aos palcos sob o nome de Hot Shotz. Foi o acto mais experimental de todo este palco, com a fusão do trance de Lorenzo e o new beat de Powell.

ANOHNI

Era enorme a expectativa para assistir à primeira apresentação ao vivo em solo europeu de HOPELESSNESS, álbum de estreia de ANOHNI, o novo projecto da artista anteriormente conhecida por Antony Hegarthy. Longe das paisagens sonoras que marcaram I am a Bird Now e Swanlights, ANOHNI embrenhou-se no mundo da electrónica, construindo “an electronic record with some sharp teeth”. Acompanhada por Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke, HOPELESSNESS facilmente se revelou o mais importante longa-duração lançado no presente ano, exercício de auto-análise sobre o corrente estado do mundo, do aquecimento global à denominada drone warfare, um disco de protesto contundente, ainda que, como o jornal britânico Guardian classificou, “estranhamente acessível”.

Próximo do seu início de carreira de ANOHNI no campo da arte performativa avant-garde, HOPELESSNESS revelou-se um espetáculo de difícil digestão em contexto de festival, marcado por duas barreiras: a primeira, o loop de vinte minutos de Naomi Campbell a dançar – algo incompreensível quando dois singulares espectáculos do festival (Jean Michel Jarre e Hot Shotz) aconteciam ao mesmo tempo; a segunda, o próprio público – em diálogo constante com as personagens femininas que desfilavam no ecrã, ANOHNI acabou por ignorar a multidão que se encontrava à sua frente, acabando esta por se tornar numa performance verdadeiramente alienante.

As temáticas abordadas e a densidade do espectáculo construído por ANOHNI pediam outro local e outro contexto – uma sala fechada e não um descampado.

© Ariel Martini

© Ariel Martini

INTERGALACTIC GARY

Com o fim de Jean Michel Jarre, o veterano Intergalactic Gary subiu ao palco, resultando numa enchente instantânea para escutar e gingar com uma excelente mistura de italo-disco, house e acid. Não é à toa que se constrói uma carreira a partir de 1980 sem uma única produção até à data.

RED AXES

Enquanto Soichi Terada ia continuando a festa planeada pela Resident Advisor, no outro palco a céu aberto, Sonar Pub, a dupla israelita Red Axes ia fazendo o mesmo mas em moldes um pouco diferentes. Em formato live e com Abrão (colaborou em várias faixas) em palco, conquistaram o vasto público através do seu house com muitos toques de rock.

JAMES BLAKE

Ponto assente quando no final do ano se fizer o balanço musical de 2016, é a tendência para os álbuns cada vez mais se assumirem como obras longas que por vezes redundam num notório aborrecimento criativo – é o caso de “VIEWS” de Drake ou “The Life of Pablo” de Kanye West… ou “The Colour of Anything” de James Blake. Ao terceiro álbum, o franzino britânico construiu um álbum “maior que a vida”, uma obra densa onde habilmente manipula o silêncio, o espaço sonoro e a voz, uma obra frágil, longe dos absurdos trabalhos egocêntricos criados por Drake e Kanye West.

Se em álbum surpreende, em contexto live James Blake deixou de ter essa capacidade, não fosse este o quarto concerto do autor de “CMYK” a que o autor deste parágrafo assiste. Sem prejuízo de todos os concertos do britânico redundarem sempre na mesma bela fórmula (adaptação das composições de álbum a formato trio – teclado, guitarra, bateria electrónica), o cavernoso Sonar Club deu uma notória nova dimensão aos delicados temas de Blake, uma camada de portentosos graves que desconhecíamos de qualquer audição caseira ou em outro qualquer festival

BEN UFO B2B HELENA HAUFF

Provavelmente o melhor set do Sonar Lab, o b2b de Ben UFO e Helena Hauff teve a duração de 2 horas. Surpreendendo sobretudo tendo em conta que foi a primeira vez que os dois rodaram uns discos juntos. Electro, techno e acid foi o que chegou para meter o público a dançar efusivamente do início ao fim. Nem mesmo a bela carga de água que o céu largou durante grande parte do set parou ou mandou embora o público.

RØDHÅD B2B DVS1

Encerramento do Sonar Lab com outro b2b, desta vez com dois residentes do Berghain. Rødhåd (Dystopian) e DVS1 (Hush), ocupando o palco durante 2 horas, até às 7:00. Infelizmente, apesar do elevado estatuto de ambos os produtore, acabou como o set mais aborrecido, pecando pela repetição.

RICHIE HAWTIN

Veterano da música electrónica, o canadiano já é um nome bem conhecido do Sónar e de Barcelona, não fosse ele criador das já míticas festas Enter que, qual surpresa, ocupam todos os anos um espaço público de Barcelona – Praça do Raval, Mercado da Boqueria e este ano o Skatepark de Badalona.

Longe de surpreender, Hawtin não apresentou nada de verdadeiramente novo ou inovador, oferecendo ao público do SonarClub um set gingão, acompanhado por um hábil jogo de luzes, a abrir caminho para os The Martinez Brothers.

© Ariel Martini

© Ariel Martini

DIA 2

NEW ORDER

Os gigantes de Manchester voltaram ao Sónar após 4 anos. Falamos de New Order (sem Peter Hook desde 2007). O concerto centrou-se no seu último trabalho (Music Complete, 10 anos após Waiting for the Sirens’ Call) e outros temas antigos. Uma demonstração de que não necessitam de fazer um best-of, continuando o seu legado em excelente forma. Abertura com “Restless” e terminando de forma perfeita com “Temptation”. Ainda com direito a encore com a óbvia “Blue Monday” e “Love Will Tear Us Apart”. Aos 36 anos os New Order parecem não sentir o peso da idade.

KAYTRANDA

Kaytranda é a personificação da ideia de que os sonhos online podem, efectivamente, tornar-se realidade – quem diria que Louis Celestin, conseguiria colocar uma remistura sua de “If”, tema de Janet Jackson, nas bocas do mundo, via Soundcloud? Entre o Hip-Hop, R&B e a electrónica, Celestin criou um espaço e uma sonoridade tipicamente sua, tendo-se rapidamente tornado num dos produtores mais requisitados da actualidade. Todos querem um pouco da sua sonoridade, fresca e elegante que tão bem apela a contextos tão díspares como um mal-amado sunset ou um festival às duas da manhã.

Kaytranada apresentou em formativo live o longa duração 99.9%, lançado no início de Maio pela mão de XL, contudo nunca fazendo dele o ponto central da sua apresentação – e durante uma hora ouviram-se temas como “Lite Spots”, uma espécie de introdução à bossa nova, fruto do sample de Gal Costa, “Got it Good”, com a voz de Craig David ou à já mencionada “If”.

Ainda que divertido, notava-se que era Skepta que o público aguardava.

SKEPTA

Jamais esqueceremos o momento em que Drake subiu ao palco com os Section Boyz, acompanhado de Skepta para entoar Shutdown. Hoje, o Grime é um fenómeno mundial graças a agentes como Skepta, o seu irmão JME, Stormzy, Wiley e Dizzee Rascal, uma sonoridade tipicamente britânica que está a assaltar os Estados Unidos como há muito não víamos.

Acompanhado por um DJ e em certos momentos um MC , Skepta transportou para o SonarPub o caos de Konnichiwa, o seu quarto longa duração – cínicas e acutilantes, as rimas de Skepta permitiram a formação de um enorme e no mínimo perigoso moshpit, enquanto o público debitava incessantemente as rimas do MC de Tottenham. Percorrendo o seu recente trabalho de uma ponta à outra, o curto concerto teve como momentos altos “That´s Not Me”, uma versão de “I Love U” de Dizzee Rascal (aqui acompanhado pelos Section Boyz) e naturalmente “Shutdown”, tema perfeito para terminar um divertido, caótico e violento concerto.

Com algumas nódoas negras e pequenas gotas de sangue, ainda nos tentámos arrastar até ao SonarLab para ouvir Stormzy, mas o seu som, quase grime-pop, deixou no ar a certeza de que era um qualquer “grime para meninos”.

FATBOY SLIM

Não sabemos ao certo quando o mosquito EDM decidiu picar Norman Cook, mas ao tentar fazer um update aos já clássicos “Hey Mama” e “Weapon of Choice”, conseguiu a proeza de destruir tudo o que de bom construiu numa carreira de quase 30 anos. Bravo! E já agora, remistura electro-pindérico-house de “Psycho Killer” dos Talking Heads? Sacrilégio!

BOYZ NOIZE

No Sonar Pub houve uma tentativa de ode à cultura rave. Tentativa esta, feita por Boys Noize, apresentando o seu último álbum Mayday (2016). Infelizmente foi um espetáculo que andou entre vários altos e baixos, misturando temas antigos com novos. O problema está mesmo no novo álbum, que não só deixou muito a desejar como pouco funciona ao vivo.

FOUR TET (Dia 1) + LAURENT GARNIER (Dia 2)

A reformulação do SonarCar em espaço tendencialmente fechado produziu alguns dos maiores engarrafamentos de público do festival – espaço circular de considerável tamanho e ladeado por cortinas vermelhas, poucos foram aqueles que não quiseram deixar de marcar presença nos DJ sets de 7 horas de Four Tet e Laurent Garnier.

Conhecidos pelo seu conhecimento enciclopédico do mundo da música, comprovaram-no com os ingredientes que normalmente pautam os seus sets, mas maximizando-os.

Se Four Tet com o avançar da noite ia deixando de parte a soul e disco, dando lugar a temas que ora invocavam o techno ora remetiam para o imaginário de graves sujos do dubstep, Laurent Garnier preferiu caminhar sempre em terreno seguro, nunca se afastando muito dos domínios house e techno, ainda que de uma forma bem mais transversal que Four Tet.

Uma aposta arriscada da organização que, cremos nós, será replicada nos anos seguintes, esperemos que num espaço maior e que dê azo a um número menor de filas.

Texto de Miguel Marques e João Baptista

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