10/06/16

RUC @ NOS Primavera Sound 2016: Dia 1

1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

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Voltar ao NOS Primavera Sound tem algo do sentimento de voltar a casa. Na sua quinta edição desde que fez do Porto o seu segundo lar, os cantos do parque da cidade já fazem parte da paisagem habitual, revestidas todos os anos por uma paisagem sonora que, mudando, mantém a linha programática que lhe garante o estatuto de ser um dos poucos festivais que vai além do “ambiente”.

Numa entrevista recente, o vereador da cultura de Barcelona Jaume Collboni afirmava uma política cultural que passasse por um combate aos festivais “cogumelos”, que surgem e desaparecem sem deixar rasto para além da cicatriz turística, em detrimento de uma defesa dos eventos que, efectivamente, construíssem cidade, em conjunto com o Município. “O dinheiro dos contribuintes usado para financiar os festivais não deve estar justificado unicamente pelo aporte económico, mas sim pela sua contribuição social.” Lado a lado nesta luta estão os dois grandes estandartes musicais da capital catalã: o Primavera Sound e o Sónar. Com uma programação que vai muito além das semanas fulcrais, são festivais que respiram do mesmo ar da cidade em que habitam, e que em todo o ano se notam na estrutura da cidade. No caso do Primavera, são dezenas de concertos ao longo do ano, gratuitos e promovendo novas bandas nacionais, no “Primavera als Barris”, para além do dia gratuito no Parc del Fórum, dos concertos espalhados da Ciutadella ao CCCB, e o foco dado à cidade em toda a comunicação do festival. O Primavera não seria o mesmo sem Barcelona, e Barcelona não seria a mesma sem o Primavera.

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Felizmente na passagem para o Porto a política mantém-se. No quadro dos grandes festivais, o Primavera destaca-se no vanguardismo social com que se apresenta. Ajudado pela semelhança de carácter entre catalães e portuenses, o NOS Primavera Sound é Porto dos pés à cabeça, imagem que se tem reforçado ao longo dos anos. A Câmara Municipal ostenta esta aliança com um orgulho nortenho merecido, assumindo o festival como um projecto da cidade, e oferecendo condições que, efectivamente, o tornam único. Seja pela movimentação da cidade em torno do festival, com a ajuda à reabilitação de partes mais esquecidas da cidade com eventos como o dia 0 gratuito, este ano no Passeio das Virtudes, pela presença da marca “Porto.” no recinto ou pela transposição do melhor do comércio de rua para dentro de portas. No recinto temos casas de chá, mercearias, barbearias, e, a jóia da coroa, uma selecção das melhores tasquinhas do Porto. Não é em todos os festivais que podemos saborear uns da Padaria Ribeiro, ou em que as sandes de pernil e queijo da serra do Guedes competem com os Shellac como melhor nome residente.

É portanto com positivismo que somos recebidos no Parque da Cidade, com um primeiro dia enevoado mas quente, naquela que se espera a edição mais cheia de sempre (pela primeira vez os passes gerais esgotaram). É neste ambiente quase letárgico e ameno que se dá o pontapé de partida. Seguindo a política duvidosa de colocar os portugueses a abrir as hostes, coube aos Sensible Soccers estrear o Palco Super Bock. Em modo apresentação de “Villa Soledade”, divagaram pelos temas deste último, sem grandes emoções. A luz excessiva e o ainda esparso público não estão do lado deles, e a dimensão contagiante e eléctrica que se notou no excelente concerto no Salão Brazil perde-se na paisagem e nas conversas e danças lentas da multidão.

SENSIBLE SOCCERS _ 1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

SENSIBLE SOCCERS
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No segundo concerto da noite, as US Girls lutaram ainda com um público em aquecimento. E pouco contribuiram para que isso se alterasse. Com uma duvidosa performance em palco, entre o maníaco-depressivo e o adolescente insuportável, a americana Meghan Remy fazia-se acompanhar apenas por outra rapariga, também nas vozes, e um cowboy quase Lynchiano, que aparecia e desaparecia aleatoriamente em solos de guitarra. A música essa surgia magicamente do PA. Também sem convencer seguiram-se os Wild Nothing. Num registo monótono e sem grandes surpresas relativamente aos últimos concertos desta tour, centraram a actuação no seu último disco “Life of Pause”, arrancando poucas palmas e entusiasmo do público já composto. Aquilo que podia ter sido uma bonita simbiose ao por do sol no parque da cidade acabou por ser uma memória aborrecida dos anos dourados da cultura “indie”, já sem cor nem forma.

Foi assim com grande satisfação que o público recebeu, quase aliviado, os Deerhunter. Regressados ao parque, agora com “Fading Frontier” na bagagem acrescentando ao espólio instrumental umas congas e um saxofone. Bradford Cox, de boné, camisa e gravata, continua maestro majestoso do caos concertado, levando-nos pelo pop rock por vezes mais punk, por vezes mais ácido, desta vez também por vezes quase tropical, mas sempre envolvente. Do alinhamento é impossível não destacar a sempre deliciosa “Agoraphobia”, o já quase hino “Desire Lines”, e a afirmação de “Snakeskin” como grande tema cantado já por grande parte das linhas da frente.

DEERHUNTER _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

DEERHUNTER
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Era já noite quando Julia Holter subiu a palco, e não podemos deixar de agradecer o ambiente que a recebe. Isolada nesta clareira do parque da cidade, a colina relvada rodeada de árvores e arbustos é banhada com as luzes lentas e hipnagógicas, colorindo os já milhares de pessoas que, sentadas, se rendem à música americana. Simpática e comunicante, dirige um ritmo constante, entre temas antigos e novos num concerto onde “Have You in My Wilderness” dominou, pairando entre a pop mais calma e introspectiva e as improvisações quase noise instrumentais. Ainda que sem nada de verdadeiramente novo, continua a ser bom deixar-nos perder na música de Julia Holter,

Às 22h20 o Palco NOS estava completamente cheio para receber o nome mais esperado da noite. Depois de um concerto memorável no Coliseu, em 2013, os islandeses regressaram ao Porto perante grande expectativa. Reduzidos a três elementos, o que por si só é um desafio para uma banda que muito vive de cordas e teclas, em estreia em festivais, e com os relatos de Barcelona a elevar alto a fasquia, pouco se sabia do que esperar destes renovados Sigur Rós. Por detrás de uma grade densa, em que projecções quase aurora boreal se reflectiam, iniciaram o concerto com “Óveður”, o único vislumbre do anunciado novo álbum. Meio deslocada do restante alinhamento, curta de ritmos galopantes e agressivos, parece quase um prelúdio daquilo que lhe seguiria. A grade sobe e a banda avança para a frente do palco, onde começam lentamente em passagem tipo “greatest hits” por “Staralfur”, “Saeglopur” e “Glosoli”. Ainda que “Vaka” continue a fazer rolar algumas lágrimas pelo público, os temas não sobrevivem ao ar livre e à notória falta instrumental. A transformação meio electrónica que receberam não resulta na totalidade, e não deixa de ser apenas uma leve amostra do potencial musical (e emotivo) com que estes temas coroaram no passado os Sigur Rós.

SIGUR ROS _1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

SIGUR ROS
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Só com “Ný Batterí”, e com um salto para uma instrumentação mais forte e quase marcial, em que revisitam parte do seu “( )” e do último “Kveikur”, conseguem fazer reavivar um concerto e subir o ânimo do parque. O espectáculo de luzes esse é magnífico, aproveitando o gradeamento inicial, sempre em movimento, e envolvendo o palco todo num cenário mágico que nos leva pelo imaginário dos escandinavos. Mas se as luzes compensam a falta instrumental, a música ainda que forte e mais eficaz continua a falhar, e começa a cansar, com quase hora e meia de concerto. “Popplagio”, já em encore, acaba por dar dar um fôlego que lhes permite terminar vitoriosos, e é sobre um aplauso intenso que, na frente do palco, se estendem em vénias a um público rendido.

Intensidade e fôlego foi o que não faltou aos Parquet Courts. Imparáveis do início ao fim do concerto, não falharam à expectativa daqueles que os consideram parte da esperança no futuro do rock. E este futuro faz-se a olhar para trás. No tecido instrumental não faltaram referências que vão dos Talking Heads aos Sunn 0))), e que muito devem à esquizofrenia escura dos Velvet Underground de White Light/White Heat. “Human Performance”, disco lançado em Abril passado, foi a malha central, e a passagem do estúdio ao palco faz-se do melhor modo possível, electrizando um público com espaço a mosh pits. Num cartaz feito de memórias e velhas glórias, é um alívio receber a entrega dos Parquet Courts, e esperar que regressem para um concerto em sala, onde o contacto e a presença em palco não deverão dar tréguas.

ANIMAL COLLECTIVE _ 1º dia _ NOS PRIMAVERA SOUND 2016 #nosprimaverasound _ © Hugo Lima | www.hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography

ANIMAL COLLECTIVE
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Dezasseis anos depois de se terem estreado com “Spirit They’re Gone, Spirit They’re Vanished”, o espólio dos Animal Collective faz parte de grande parte do crescimento musical de muitos que os esperam no parque da cidade. Na hora que lhes compete podiam congregar todas as histórias que criaram ao longo dos anos, as divagações encantadas de Sung Tongs, uma “Fireworks” cantada a plenos pulmões, saltos e festa à la “Lion in a Comma”, e mesmo juntando os últimos hits de Tomorrow Supernatural e do último Painting With. Podiam juntar tudo num grande hino aos Animal Collective, numa celebração da vida e todas essas coisas bonitas que vemos em tantas outras bandas históricas que povoam estes e outros cartazes. A banda de Noah Lennox decide no entanto demitir-se, condignamente, desse estatuto, e apresenta-se actual, com os seus temas actuais, numa actuação que continua futurista, inovadora e emocionante.

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ANIMAL COLLECTIVE
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Num contínuo sem (quase) pausas, uma gigante tela que faz jus a “Painting With”domina o palco com traço Joan Miró, uma projecção de psicadelismos frenéticos, e três grandes estátuas de uma Ilha da Páscoa do Surrealismo Abstracto. Ainda que calado e envolvido em si mesmo, é Noah Lennox quem dirige o rumo da viagem, e também aqui os Animal Collective encontram o Grim Reaper, adivinhando-se quase uma “Crosswords” ou “Boys Latin” a surgir entre a intrincada malha electrónica. Geologist é um cuidadoso trabalhador do som que a forma, dividindo-se entre a confusão instrumental que defronta, e Avey Tare, de t-shirt de Mickey Mouse, boné na cabeça e sorriso na cara, lança os gritos selvagens e confusão vocal. Com momentos muito “Sung Tongs” em que quase (e por pena não) se adivinha uma “Leaf House”, e por ritmos muito “Reverend Green”, é o foco electrónico que comanda, e que nos leva desde ambientes quase puros de club a ragas indianas e tropicalismos distantes. Em palco, os novos “e velhos) temas vêem-se dotados de uma nova roupagem, que só nos faz lamentar que não transpareça para o trabalho de estúdio, com Burglars, Hocus Pocus e Flori-Da-Da a impor-se ao alinhamento. Em 2016, os Animal Collective continuam a lembrar-nos do tempo em que vivemos, e a afirmar-se como dos projectos mais vanguardistas da pop actual.

O Primavera continua por mais dois dias, com grandes expectativas para Brian Wilson, Air, Battles, Floating Points e Moderat, entre os vários grandes nomes que constituem o cartaz.

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Texto de Guilherme Queiroz

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2018-02-21T01:30:30+00:00
Wed, 21 Feb 2018 01:30:30 +0000