26/04/15

RUC @ Record Planet Mega Record & CD Fair | Utrecht | 11-12.04.2015

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Já passou uma semana e ainda não desligámos a ficha. Ainda sentimos o buzz da feira, a adrenalina de encarar caixotes com centenas de discos. Dito isto, difícil será escrever e descrever o que ali se passou de forma isenta ou imparcial.

Começamos por dizer que as expectativas eram altas, mas sendo uma primeira vez, as desconfianças equilibravam os pratos balança.

Nas vésperas do primeiro dia falámos de discos, de quantos estávamos à espera de comprar, de quais gostaríamos de encontrar, de quanto dinheiro estávamos dispostos a gastar, de como seria o plano de ataque… E basicamente a estratégia passava por nos mantermos juntos, a diggar e a trocar impressões sobre o que íamos encontrando. O que não sabíamos era que o recinto iria acolher ao mesmo tempo uma feira de antiguidades e um evento tipo comic-con. Para entrar na feira de discos propriamente dita, tínhamos de atravessar a feira de antiguidades e, meus caros, já por essa altura se vislumbravam caixotes de discos espalhados por todo o lado!
Uma vez dentro do recinto, bastou um par de segundos para que tudo o que fora previamente planeado caísse por terra. Um dos 3 elementos mergulhou abruptamente no primeiro caixote que encontrou e os dois elementos restantes pareciam baratas em armários de doces.

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Quando finalmente nos libertámos desses caixotes e chegámos à feira, perdemos a noção do tempo e do espaço. Não sabíamos para que lado ir, por onde começar, nem que horas eram. À nossa frente estavam cerca de 500 dealers, vindos de todos os cantos do mundo e dezenas de corredores para percorrer. Separámo-nos sem dar por isso. Foi um deslumbramento instintivo. A partir daqui torna-se muito complicado descrever o que se passou, porque diggar em caixotes com centenas de discos ao lado de dezenas de pessoas é como mergulhar no fundo do mar sem equipamento. Quando se volta à tona para respirar, não se sabe muito bem o que se viu, nem onde se esteve.

A feira estava dividida em 3 secções principais, a saber: Metal/Punk/Alternative, Golden Oldies/Progressive/Beat e finalmente a área que mais nos interessava, Dance/Black Music/House. Para além dessas, havia ainda uma dedicada a generalidades. Apesar destas divisões, acabámos por comprar discos da Philadelphia International em bancas de Punk, Prelude em bancas de Prog, Salsoul em bancas de Heavy Metal e assim sucessivamente, até onde a vossa imaginação vos levar. Ora isto, se por um lado era bom, por outro demonstra a dificuldade em gerir tempo e espaço. Saber que um bom disco pode estar em qualquer lado pode levar uma pessoa a picos de loucura momentânea. Apostar em bancas de punk e de metal tem as suas vantagens e desvantagens: por um lado, os discos de soul e funk poderão estar menos cotados por não ser a área de especialidade do vendedor; por outro, é mais improvável encontrarmos nessas bancas Andy Beys, Gil Scott Herons e afins. Contudo, mesmo nas bancas dedicadas ao soul e funk encontrava-se de tudo um pouco: discos sobrevalorizados e subvalorizados. Vendedores que não regateavam e outros dispostos a negociar o preço final. Seleções fraquinhas e outras absolutamente magistrais. Gastar metade do tempo no metal e punk à procura de um Donald Byrd a dois euros pode não valer um dia, mas certamente que merece umas horas de dedicação à procura de um qualquer diamante sonoro, ao lado dos Iron Maidens.

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Havia também no recinto um espaço para leilões, sítio para fumadores (graças a Deus!), vários espaços para comer, um bar, venda de merchandising e um palco de actuções ao vivo que, na minha opinião, foi o ponto mais baixo da feira. As actuações estavam ao nível de um programa da tarde de domingo da TVI – faltavam apenas as Cristinas Ferreiras desta vida para nos atormentar ainda mais. E o pior é que se ouvia por todo o lado, servindo de banda sonora a cada pérola encontrada.

Mas nada nos poderia tirar o entusiasmo. De banca em banca, de caixote em caixote, as aquisições surgiam de forma fluída. Basicamente, podíamos optar por ir directamente às secções que nos interessavam – poupando assim muito tempo, mas tendo de lidar com preços mais altos – ou podíamos atacar caixotes de 1, 2, 3, 4 ou 5€ – perdendo muito mais tempo, mas (no meu caso) multiplicando o gozo de encontrar pérolas no meio das pechinchas. É claro que também vimos discos a 300, 500 ou mais de 1000€, mas isso seria a liga dos campeões e nós jogamos nas distritais.

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E assim o tempo ia voando. E todas as necessidades básicas eram esquecidas; fome, ir à casa de banho, necessidade de nicotina, dores nas costas, dedos, pernas e pés… só demos por isso no fim do dia. Parecia que tínhamos ido ao ginásio.

No segundo dia da feira, a história repete-se. Mais planos feitos de véspera que foram por água abaixo, mais descontrolo, alegria e ansiedade. Enfim, apenas diferem as últimas horas do evento, quando começámos a ver várias bancas a colar anúncios de “50% off ”, “buy 1 take 2”, “30% off on collector’s items”… A energia, que por essa altura já fraquejava, recebe assim um boost revigorante e lá vamos nós para um final round!ruc 4

Resumindo, era impossível não sair de lá com dezenas de discos. A realidade suplantou as expectativas. A ideia de que a feira poderia facilmente prolongar-se por uma semana, um mês ou até um ano, surge-nos com normalidade – o que só vem comprovar o grau de adição atingido por estes 3 elementos aqui representados.
No final fazem-se as contas aos estragos, amarrota-se o papel do multibanco e verte-se uma lágrima. Mista de dor e alegria.
Para concluir a viagem em beleza, passámos a última noite a rodar alguns dos discos no bar Het Hart, no centro de Utrecth – cereja no topo do bolo.

Conselhos: apostar nas caixas de 1 a 5 euros (principalmente nas secções de soul e funk), guardar mais de metade do dinheiro para o segundo dia, aproveitar as promoções de fecho de loja e levar um gira-discos portátil (tantos que ficaram para trás… muitos por não se ter a certeza se seria uma aposta certa ou errada). Ah e comprem warffenfooffells (baptizadas assim por nós). São umas bolachas tipo waffle, com creme no meio. Cada cem gramas têm 500 calorias, portanto o pacote dá para vos fazer aguentar na feira o dia inteiro.

Agora é hora de ir para casa ouvir as pérolas e começar a poupar. Para o ano há mais!

Filipe Cravo e João Gaspar

Toda a reportagem pode ser acompanhada com mais pormenor em www.magia-negra.org.

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