9/12/12

RUC @ Mexefest 2012

vodafone-mexefest-2012

     A 7 e 8 de Dezembro, regressou para a sua segunda edição o Vodafone Mexefest, festival criado a partir das cinzas do Super Bock Em Stock. Mais uma vez, o evento situou-se em vários locais de espectáculos situados desde a Avenida da Liberdade até à Estação do Rossio (neste último local, com a novidade do palco Vodafone FM), sendo várias as escolhas de concertos a ver (e, eventualmente, falhar) bem como um constante movimento de pessoas a passear pelas ruas de ambiente gelado, em busca do espectáculo mais a seu gosto.

Dia 1:

A primeira noite do festival começou com sabores nacionais, com Samuel Úria (e convidados, entre os quais se destaca a participação do Grupo Coral 12 Pessoas Ao Todo) a inaugurar (depois de um pequeno atraso) o Teatro Tivoli. Uma sala que aos poucos se foi compondo, com amigos dentro e fora do palco, enquanto se recordava o passado (“Teimoso”, que abriu o concerto) e se celebrava o futuro (“Forasteiro”, single de avanço do próximo longa-duração Grandes Medos do Pequeno Mundo, a sair em Fevereiro do próximo ano). De seguida, seguimos para os cinemas São Jorge (mais especificamente, para a Sala Montepio), onde Os Quais estrearam-se no Mexe Fest, promovidos depois da sua passagem pelo Super Bock Em Stock de 2009. Na bagagem, a dupla formada por Tomás Cunha Ferreira e Jacinto Lucas Pires trouxe o novo disco pop é o contrário de pop, repleto de canções orelhudas, entre as quais se conta “Bandeira”, tema dedicado a Angela Merkel. Um concerto bem mais intimista (uma plateia pequena, mas sentida) e com muito bom humor.

Passámos então pelo Cabaret Maxime, onde já decorria o concerto dos Madrid. Apesar do nome invocar a cultura espanhola e as letras serem cantadas em inglês, trata-se de um projecto brasileiro, composto por Adriano Cintra (membro fundador dos Cansei de Ser Sexy) e Marina Vello (ex-MC dos Bonde do Rolê). O duo paulista foi competente a apresentar os temas do seu disco de estreia homónimo (lançado em Junho deste ano), que revela uma abordagem bem diferente do trabalho que os músicos faziam nas suas bandas anteriores. Com efeito, as canções de Madrid, baseadas em arranjos simples mas belos (e de realçar o efeito da bateria representada num ecrã atrás da dupla, um pequeno toque visual que funcionou muito bem), conjuram um clima mais obscuro e poético, o que assentava perfeitamente na sala onde tocavam. Infelizmente, grande maioria do público pareceu não reagir à música, que assim se tornou como que um elemento figurante de um filme. Uma pena, pois tal também levou a que os músicos falassem mais entre si e não tanto com o público, que entretanto ia abandonando o local para se deslocar ao concerto mais aguardado da primeira noite…

Madrid

Madrid

Falo, claro está, de Alt-J, os britânicos que se tornaram num dos nomes a reter neste ano musical de 2012, graças ao seu disco de estreia An Awesome Wave. A banda, que já se havia estreado cá em Portugal no último Milhões de Festa, regressou ao nosso país, agora com a pressão gerada quer pela recepção positiva do referido concerto em Barcelos, quer pelo facto de terem ganho o prestigiado Mercury Prize deste ano. Com efeito, o recinto do Tivoli encontrava-se com lotação esgotada já muito antes do concerto ter início (ao ponto que muitas pessoas ficaram em espera na imensa fila que se formava à porta) e a banda, respondendo à altura, não desiludiu, capturando a atenção das centenas de espectadores que vibravam a cada nota ou refrão de temas como “Tesselate”, “Fitzpleasure” ou “Matilda”. O entusiasmo era tal que as palavras de gratidão dos músicos perdiam-se nas salvas de aplausos e gritos que dominavam os intervalos entre canções.. Decidiram assim oferecer um bónus, nomeadamente na forma de “Buffalo”, tema inédito da banda-sonora de “Guia para um Final Feliz” (o novo filme de David O. Russel). Grande destaque vai para “Bloodflood” (que ao vivo ganhou uma dinâmica inédita, comparando à versão presente no LP) assim como para “Breezeblocks”. Esta última deixa mesmo o público a cantar “please don’t go..” depois da banda abandonar o palco. Tal é a emoção do coro que os britânicos regressam para um pequeno encore, a oferecer uma brilhante rendição ao vivo de “Taro”, comprovando-se a excelente técnica musical deste projecto oriundo de Leeds.

Alt-J

Alt-J

Depois do concerto mais mediático da noite, demos uma corrida até à Estação do Rossio, de modo a poder apanhar o concerto de Cody ChesnuTT. A caminho, cruzámo-nos com o Vodafone Bus (infelizmente, ia na direcção contrária e o tempo escasseava..) que se deslocava em ambiente de festa com os Nice Weather for Ducks a fazer o seu melhor para chamar a atenção de todos os transeuntes que corriam para apanhar um ou outro concerto. Estes meios de transporte (ao quais se juntava a novidade deste ano dos shuttles de cor branca) não só eram uma opção mais cómoda, como também simbolizavam bem a essência do nome atribuído ao festival.

Chegamos ao Rossio a meio do espectáculo de Cody ChesnuTT e “movimento” é igualmente a palavra de ordem. O prodígio da soul, responsável pelo brilhante The Headphone Masterpiece (do qual infelizmente não se ouviu nenhum tema nesta estreia ao vivo em Portugal), encontrava-se de cabeça protegida pelo capacete que usava, mas com a alma completamente exposta na sua voz. Fez-se acompanhar de um quarteto de músicos, os quais trouxeram à vida os capítulos de Landing On A Hundred (trabalho deste ano que marcou o regresso do músico norte-americano, se bem que com uma temática mais gospel, muito na veia do clássico “What’s Going On” de Marvin Gaye), canções cheios de ritmos funk que cativaram tudo e todos na plateia, sendo raro avistar pessoas que não estivessem a dançar. Destaque para “Parting Ways”, em que o músico se lançou ao encontro do público) ou “Love Is More Than a Wedding Day”, que pôs um público a cantar em harmonia, bem como o encore emotivo, no qual o músico anuncia em primeira mão o seu regresso a Lisboa para dia 16 de Março, na Aula Magna.

Seguimos pois em direcção do Ateneu Comercial de Lisboa, onde se dá a surpresa mais negativa dessa noite do Mexefest: The 2 Bears, projecto paralelo de Joe Goddard (dos Hot Chip) era o nome que fazia muitos deslocarem-se ao referido local, com esperança de ouvir os tons electro-pop que caracterizam o seu LP de estreia Be Strong. Em vez disso, encontrámos Goddard e o parceiro Raf Rundell a fazer um dj set com escolhas algo eclécticas, mas que em nada se assemelhavam à sonoridade cuidada presente no disco. A casa encontrava-se algo composta (muitos a aproveitar as altas horas da noite para dançar), mas a grande maioria ficava-se pela breve passagem. Assim, regressámos ao Cabaret Maxime, onde ainda conseguimos apanhar os temas finais do concerto dos Gala Drop, projecto que cresce a largos passos enquanto promove o seu longa-duração Broda, hipnotizando um público bem mais numeroso (e concentrado na música) daquele que se encontrava presente há umas horas atrás no espectáculo dos Madrid.

Dia 2:

A segunda noite do Vodafone Mexefest não foi um rescaldo da noite passada sem surpresas. Com efeito, o melhor estava mesmo para vir e o ambiente de (muitas) mais pessoas a deslocarem-se pela Avenida da Liberdade era prova expectante disso mesmo.

Iniciou-se com um dos nomes mais aclamados e esperados do cartaz: Michael Kiwanuka, cantautor de 24 anos, a provocar mais uma enchente de pessoas em fila à porta do Teatro Tivoli (desta feita, bem mais cedo que na noite anterior). O artista galardoado com o prémio da BBC “Sound Of 2012” começou o espectáculo já com a casa cheia (e com um acesso mais dificultado, em relação à noite passada, devido a uma das entradas estar encerrada) a interpretar o tema “I’ll Get Along” numa vertente mais funky do que a versão retratada no disco dava a entender. Tais diferenças (algo leves) entre as gravações editadas em disco e as interpretações ao vivo fizeram-se sentir um pouco por todo o concerto, como foi o caso de “Tell Me a Tale” (com um arranjo final brilhante, a fazer recordar Jethro Tull). Já outros temas, como “Worry Walks Beside Me” e “Rest”, mostraram o profissionalismo vocal do jovem londrino, que consegue soar tal qual como nos seus discos bem como dar a entender o quão natural e sentida é a sua voz (muito à semelhança de Otis Redding ou Donny Hathaway). Kiwanuka não escondeu as suas influências (a provar, foi uma versão belíssima do clássico “May This Be Love” de Jimi Hendrix, que o músico revelou como a principal inspiração que o levou a pegar numa guitarra) nem o seu apreço pelo povo português (referiu que não esperava uma plateia tão recheada e pediu desculpa por não vir mais vezes ao nosso país.. algo estranho, tendo em conta a presença dele no último Cascais Cool Jazz Fest), o qual respondeu com aplauso e entusiasmo. Nessa nota, de se realçar o coro tímido que se juntou à voz do músico em “Home Again” (tema-título do seu LP de estreia), talvez o momento mais bonito deste concerto, que inaugurou a derradeira noite do Mexefest.

Michael Kiwanuka

Michael Kiwanuka

No intervalo dos dois espectáculos mais mediáticos dessa noite, ainda pudemos fazer uma breve passagem pela Sala Manoel de Oliveira (dos Cinemas São Jorge) e espreitar o projecto do português David Santos, mais conhecido por Noiserv. O músico enquanto chamariz surpreende, pois o local já se encontrava bastante recheado, o que provou que havia muitas pessoas com o desejo de ver boa música nacional. Do que vimos do concerto, ecoaram na sala sobretudo temas de One Hundred Miles From Thoughtlessness, disco lançado em 2008, enquanto decorriam animações feitas a computador em tempo real (cortesia da rapariga ao lado do músico em palco). A única excepção foi “The Sad Story Of A Little Town” (do disco A Day In The Day Of The Days), após a qual abandonamos o São Jorge, atravessando a Avenida já quase em modo piloto automático para ver Django Django, os “Alt-J do sábado”.

Noiserv

Noiserv

A chegar ao Tivoli, é notória a multidão que se reunia no interior (e no exterior.. mais uma vez, uma fila que não se avistava o fim) do teatro, sobretudo em frente ao palco. Surpreendente é o facto de tal multidão parecer não só rivalizar com o número de pessoas presente nos concertos de Alt-J e de Michael Kiwanuka, mas mesmo ultrapassar esse mesmo montante em duplicado. Em retrospectiva, tal não nos espanta, pois embora os Django Django não tenham ganho o Mercury Prize, possuem já uma enorme base de fãs no nosso país graças a singles contagiosos como “Hail Bop”. E com efeito, foi esta mesma música (após a breve “Introduction”, que também dá início ao álbum homónimo) que abriu as festividades e transformou o Tivoli num espaço de dança como até então não se tinha visto neste festival. Os escoceses apresentaram-se com vestes semelhantes e, ao substituírem os elementos mais electrónicos dos seus temas por riffs de guitarra igualmente energéticos (tal levou a que “Default”, um dos temas mais publicitados do LP de estreia, ficasse algo irreconhecível ao início), deram novo vigor à sua música, que assim se tornou num rock dançável e contagiante, a fazer lembrar os compatriotas Franz Ferdinand em inícios de carreira. Rock vigoroso que dominou o Tivoli durante uma hora que passou a correr, graças aos ritmos acelerados de “Storm” ou “Skies Over Cairo”, bem como aos ambientes transcendentais criados por “Life’s a Beach” e “WOR”. Após esta última, a banda despede-se (bem como grande parte do público, que segue em frente para aproveitar mais concertos) mas os resistentes permanecem, com a esperança de mais uma canção. E assim aconteceu o desejado encore, com “Silver Rays” a colocar um ponto final definitivo naquele que foi aclamado por muitos como o melhor concerto do Mexefest. E a banda oriunda de Edimburgo, surpresa e contente com a recepção calorosa do público português, despede-se com a promessa de voltar em breve.

Django Django

Django Django

De saída do Tivoli, voltámos à Sala Manoel de Oliveira no São Jorge para assistir ao aguardado regresso dos Efterklang a solo nacional, cuja entrada já se mostrava repleta de interessados em ver (ou rever) o colectivo dinamarquês, que se apresentou aqui enquanto sexteto. Um concerto marcadamente centrado no último registo Piramida e que se desenvolveu como um constante jogo de provocação entre a sonoridade indie-pop própria da banda e um público que teimava (na sua maioria) em permanecer sentado. Ao sair (infelizmente, não deu para ver o espectáculo na íntegra.. felizmente, também já anunciaram o seu regresso a Portugal no próximo mês de Maio), já se notava inclusive uma grande parte dos espectadores do lado esquerdo do palco de pé e a dançar ao som do grupo de Copenhaga.

Efterklang

Efterklang

Porém, os passos de dança que se faziam notar no São Jorge eram mínimos comparando-se à actividade que se registava no Ritz Clube, cortesia dos Escort. Trupe nova-iorquina descrita como uma “orquestra disco”, uma descrição justa e igualmente redutora. A verdade é que os Escort são nada mais nada menos que uma força da natureza, composta por dezassete membros (dos quais apenas dez estiveram presentes neste concerto, por razões de espaço..) liderados pela senhora (e que senhora!) de seu nome Adeline Michèle e que apresentam um som funk capaz de queimar calorias que pega em influências como Chic ou Kool & The Gang e multiplica o seu poderio por cem. Um concerto fantástico, que em nenhum momento deu sinais de abrandar quer da parte da banda, quer do público. Houve homenagens a clássicos (“Bad Girls” de Donna Summer), bem como rendições ao vivo de temas como “Why oh Why” ou “All Through the Night” do seu disco de estreia homónimo (lançado o ano passado). Em suma, festejou-se a noite como se não houvesse amanhã, inclusive com cânticos de aniversário (dedicados a Eugene Cho, um dos mestres por detrás do projecto) e com um encore que pareceria interminável se tivéssemos a falar de qualquer outra banda do festival.

Depois, já a marcar o final do Mexefest, enquanto no Cabaret Maxime o ambiente se encontrava a cuidado de Branko (cortesia da editora Enchufada, que nessa noite teve o local ao seu dispor), no Ritz Club era Moodymann (alcunha do exímio produtor Kevin Dixon Jr.) que dava seguimento às pegadas de dança provocadas pelos Escort, com um DJ set cheio de pérolas (antigas e recentes) dos géneros funk e soul, com temperos de house. Assim foi o Vodafone Mexefest, para o ano há mais.

Crónica por Pedro Nora

Fotografias por Fausto da Silva

7
19
54
0
GMT
GMT
+0000
2018-02-18T19:54:37+00:00
Sun, 18 Feb 2018 19:54:37 +0000