5/12/11

Vodafone Mexefest (dia2)

Início de noite na Sociedade Geografia de Lisboa. Uma grande fila à porta poderia indiciar uma sala cheia para assistir a Filho da Mãe. Pura ilusão… cerca das 9 da noite havia muitos espaços vazios e não se percebeu o porquê de manter tanta gente na rua. Musicalmente falando, uma sala sumptuosa e palaciana recebeu uma guitarra imensa. Com semelhanças estéticas com Norberto Lobo, Filho da Mãe é daqueles músicos que parece que o instrumento é uma extensão do seu corpo e que, ao ouvi-lo a solo, dá a sensação de se desmultiplicar em dois ou três guitarristas. E, naturalmente, não estou aqui a falar dos momentos em que recorre a samplagem, dando um toque de maior complexidade e aumentando o universo criativo da sua música. Tudo isto com algum sentido de humor, como quando, de forma caricata, se virou para uns espectadores e disse: “Tira isso daí… é o título da música”. Uma belíssima surpresa.

De seguida, subida até ao Tivoli para ver os Dead Combo. Por falar em sentido de humor peculiar e na guitarra enquanto extensão do corpo, esses são rótulos que cabem na perfeição a Tó Trips. Depois da entrada ao som do tradicional “Por Riba se Ceifa o Pão” e de um início algo prejudicado pela qualidade do som, cheio de graves e distorções, esse factor foi melhorando ao longo do tempo e Trips e Pedro Gonçalves (2ª guitarra, contrabaixo, kazoo e melódica) puderam então mostrar todo o talento da banda, desta feita de uma forma mais rude e ríspida do que em outras ocasiões (a versão de “Blues da Tanga” foi um bom exemplo). Com Tó Trips a revelar algum excesso de catarse porventura desnecessário e apesar da desatenção de algum público (simplesmente à espera de James Blake), os Dead Combo voltaram a mostrar, contudo, porque são uma das melhoras bandas portuguesas ao vivo, terminando da melhor forma com o abandono de palco ao som do sample gravado de “Marchinha do Santo António Descambado”.

Cinco meses depois de praticamente ignorado no Alive, num espaço perfeitamente desajustado e com péssimas condições de som, tudo foi diferente no concerto de James Blake no Mexefest. Desde logo pelo público, que se dirigiu em massa ao Tivoli e que prestou a devida vénia ao jovem britânico (por vezes até demais). Por outro lado, um espaço fechado e mais recatado e um som bem calibrado garantiram as condições perfeitas para o espectáculo de James Blake, algo que o próprio soube reconhecer, destacando as diferenças significativas entre estas primeiras duas passagens por Portugal. Depois, a beleza de “Lindesfarme” (o fantasma de Bon Iver), o brilhantismo das progressões vocais de “I Never Learnt to Share” ou o poder dançável de “CMYK” fizeram o resto, com o músico a ser acompanhado por um guitarrista e por um excelente baterista. Por falar em “CMYK”, o que também surpreende (goste-se ou não) é a forma como, apesar do hype que o álbum homónimo teve, o músico não renegar os primórdios dubstep mais brutos e menos melódicos, não só ao tocar temas dos primeiros EP’s, mas também, por exemplo, na forma como desconstruiu o final de “Limit to Your Love”. O grande single “Wilhelms Scream” e, já em encore e a solo (só voz e piano),  a deslumbrante versão de “A Case of You”, original de Joni Mitchell, fecharam um concerto incrível, a verdadeira estreia de James Blake em Portugal.

No final de James Blake, ainda é tempo de ouvir os últimos 5 ou 6 temas de Toro y Moi. Longe vão os tempos chatinhos e monocórdicos do disco A Causers of This. O óptimo segundo longa-duração já dava pistas inequívocas dessa mudança, mas, ainda assim, para quem se recorda do longo bocejo que foi o concerto do Milhões no ano passado, é impossível não se ficar surpreendido com a transfiguração ao vivo. O som é muito mais orgânico e potente, com baixo e bateria a terem uma importância forte, repleto de aspectos funky irresistivelmente dançáveis e com a música a ganhar uma nova dimensão. Destaque para os últimos temas, com o maravilhoso “Elyse” a crescer para paragens muito mais ritmadas do que se imagina em disco e “Low Shoulder” a ganhar um novo estímulo. Uma nova vida para Toro y Moi e fica o desejo de o ver na íntegra num futuro próximo.

Por fim, muito público para ver Lindstrom no Maxime e Blood Red Shoes no Metro, praticamente a fechar o Vodafone Mexefest. Um festival que, fora algumas falhas de organização já apontadas (algumas delas desesperantes), fica marcado por uma programação coerente e por um nível qualitativo elevado, liderado por um dos concertos do ano em Portugal, o de James Blake, pois claro.

Texto: João Torgal

Fotos: Fausto da Silva

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Wed, 21 Feb 2018 01:25:01 +0000