10/07/11

Festival Alive, dia 4 – um concerto quase memorável

No último dia, surgiu mais um contratempo: o cancelamento de Dizzee Rascal, tendo sido substituído pelos Diabo na Cruz.

Crónica de alguns concertos acompanhados no derradeiro dia da edição de 2011 do Alive

Foals
Depois de um disco viciante e mais dançável chamado Antidotes, os Foals regressaram no ano passado com Total Life Forever. Mais calmo e maduro, com mais melancolia nos teclados e guitarras, foi um verdadeiro passo em frente e uma das obras maiores de 2010, pelo que  era com imensa expectativa que se aguardava pela estreia da banda britânica em Portugal. Desde “Blue Blood”, que abriu o espectáculo com uma maravilhosa vocalização inicial e com  um crescendo rítmico imparável, se percebeu que todo o carisma e intensidade dos Foals em palco iriam ser acompanhados por uma rendição total do público (mesmo sem a banda proferir grandes palavras). Só interrompida pela pujança dançável de “Cassius”, continuou de seguida uma sequência arrasadora de Total Life Forever, com versões mais preenchidas e prolongadas, finalizadas com uma componente instrumental apoteótica. Terminaria com o sublime “Spanish Sahara”, com a devida dose de delicadeza e fragilidade iniciais e, com a revolta final deste magnífico tema de homenagem ao povo do Sahara ocidental, a ser entoada em coro pelo público. O mesmo se passaria com “Red Socks Pugie” no regresso a Antidotes, a que se seguiria “Electric Bloom”, a mostrar o lado mais matemático e rítmico dos Foals no seu registo de estreia. Este último teve direito a uma percussão reforçada e incomparavelmente superior à da versão em estúdio, com um tambor que o vocalista Yannis Philippakis levou até junto do público na parte final do tema. O concerto estava a ser incrível, daqueles momentos emblemáticos que se sentem quando se vê a banda certa, no momento certo da sua carreira. Mas eis que, 45 minutos depois do início e quando os Foals se preparavam para interpretar o tema seguinte, a organização determinou o fim do concerto e colocou de imediato som nos ecrãs antes que o público pedisse entusiasticamente um encore.  Percebe-se a necessidade de cumprir horários, mas quando houve o cancelamento de um dos nomes posteriores do palco, fazia todo o sentido haver maior flexibilidade. Podia ter sido um concerto memorável, não o quiseram.

Gold Panda
Depois do concertão dos Foals, ainda houve tempo para espreitar parte de Gold Panda, mas já não para ouvir “You”, um dos grandes singles dançáveis do ano que passou. Parece que o senhor começou por dizer que não era um DJ e até se percebe a referência, se tivermos em atenção o contraste com grande parte do que , a partir do 2º dia, se passou no palco Optimus Clubbing. Algures entre o techno e uma certa abordagem próxima do chill-wave mais ambiental, o britânico mostrou as suas composições electrónicas para um público manifestamente reduzido. Com um registo nada monocórdico, alternando entre uma toada mais melódica e outra mais agressiva, repleta de graves, o músico pareceu confirmar as boas impressões deixadas no ano passado no festival Milhões de Festa.

Tv on the Radio
Era um dos nomes mais aguardados do festival e, caso se tivesse de resumir o concerto em poucas palavras, poderia dizer-se que foram 40 minutos morninhos e 20 finais avassaladores. O início começou relativamente frouxo, talvez um pouco pela falta de rodagem dos temas novos (embora o alinhamento até tenha sido algo repartido entre os vários discos), mas principalmente pelo som. Demasiado estridente, com os instrumentos pouco definidos, o trompete a ter uma percepção escassa e a faltar muita da vibração e do groove que marcam o som da banda nova-iorquina. Entre temas mais lentos e outros mais ritmados, com destaque natural para o imponente timbre agudo e a alma negra na voz de Tunde Adepimpe (acompanhado nos momentos mais spoken por Kyp Malone), o espectáculo ia aproximando-se perigosamente do fim sem grande chama. Até que “Red Dress” de Dear Science marcou a viragem. Foi o início de uma sequência arrasadora, que colocou em êxtase um público até aí relativamente calmo, e que incluiu “Repetition” do novo Nine Types of Light, “Staring at the Sun” e o grande single “Wolf Like Me”. Um final perfeito a deixar uma sensação de estranheza, própria de quem assisitiu a um concerto profundamente irregular.

Orelha Negra
Depois de um disco surpreendente em 2010, os Orelha Negra regressam este ano aos grandes festivais, tendo passado ontem pelo Alive e fechando Paredes de Coura daqui a mês e pouco. Com bateria (com uma cadência impressionante), baixo, teclados e programações electrónicas, o projecto português começou com a intro “A Memória” (com manipulação de diversas citações) e o calor soul de “Since You’ve Been Gone”, a que pouco depois se seguiria o fabuloso “M.I.R.I.A.M.”, com sractch, samplagem vocal e pormenores jazzísticos. Mas , pese embora ainda haja outros temas incríveis, como “A Cura”, os concertos de Orelha Negra são muito mais do que a recriação ao vivo dos seus originais. Tem enorme destaque a profunda improvisação instrumental sobre fundos que recorrem a samples tão diversos como de Beyoncé, Chemical Brothers, Beastie Boys, James Brown, Fatboy Slim,  Da Weasel, MC Hammer e muito mais. E foi com essa amálgama de sons, fundida de forma irresistível, que, apesar do cansaço de 4 dias de festival, a banda portuguesa levou o público ao rubro. Depois da óptima impressão com que, mesmo à distância e sem dar a atenção devida, fiquei do concerto do Sudoeste no ano passado, os Orelha Negra voltaram a confirmar ontem que são já uma das grandes bandas ao vivo em Portugal.

Para o ano, o Alive regressa e já há datas confirmadas: 12, 13 e 14 de Julho, novamente no Passeio Marítimo de Algés.

João Torgal

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