2/07/11

José Mário Branco – o poder da palavra

Começar de novo
A partir de perto
A partir de dentro
A partir da base
Bertolt Brecht

Projectado em fundo durante uma parte do espectáculo, o excerto de Brecht caracteriza com particular eficácia uma grande parte do percurso de José Mário Branco. Trata-se de um constante recomeço, de abraço a novos projectos e a novas realidades, seja para trabalhos em nome próprio, seja para outras colaborações artísticas, seja em outros contextos de intervenção política e social. Mas sempre com uma dedicação enorme, mergulhando a fundo em novos desafios e mantendo firme a sua coerência de princípios.

 

O concerto de ontem foi um bom exemplo disso mesmo: um novo projecto, meticulosamente preparado (pelo menos assim pareceu) e magistralmente executado. Inaugurando o Festival do Silêncio (que paradoxalmente comemora Lisboa, a capital da palavra), o espectáculo propunha-se homenagear com a música as palavras de grandes escritores, como Ruy Belo, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena ou Sophia de Mello Breyner. Para isso, José Mário Branco fez-se acompanhar de um grupo de músicos muito especial: o grande contrabaixista do jazz Carlos Bica, o guitarrista José Peixoto (membro dos Madredeus e com colaborações fortes com nomes como  Janita Salomé ou Rui Veloso), o pianista Filipe Raposo (que, para além do próprio Zé Mário, toca “apenas” com Fausto, Janita Salomé ou Vitorino) ou o seu grande camarada Camané.

Depois de um início mais morno, é com “Travessia do Deserto” e “Queixa das Jovens Almas Censuradas” que se sente a primeira reacção mais efusiva do público. E é também nesses temas, em particular no segundo, que se percebe que, independentemente da beleza e do significado das palavras (e como é magnífico o poema de Natália Correia), estas ganham um novo peso e uma nova carga na voz de Zé Mário, que lhes imprime uma alma como se as estivesse a interpretar pela primeira e última vez.

O alcance político não poderia estar afastado de uma performance do músico. Está bem presente em todo o concerto, na escolha das palavras e na forma subliminar de as transmitir. Contudo, esse facto é acentuado na projecção do mito  Mário Cesariny (também David Mourão Ferreira teve direito a uma declamação em vídeo), na versão determinadamente sem refrão de “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, com a projecção do excerto de Camões “… para que tudo fique na mesma?”, ou no clássico “Inquietação”, interpretado a meias com Camané.

 

A presença do fadista em palco não foi marcada apenas pela colaboração com José Mário Branco. Sensivelmente a meio do espectáculo, interpreta a solo três temas, com destaque para a assombrosa versão de “Ser aquele”, um poema de Fernando Pessoa. A introdução de guitarra é prodigiosa e é particularmente sublime a forma como Camané aborda a circularidade da letra, mostrando, uma vez mais e se dúvidas ainda existissem, que o seu percurso é marcado pela portugalidade, mas é muito, mas muito mais do que fado. O seu desempenho valeria de seguida o mais sentido elogio de José Mário, referindo que “a palavra cantada exige todos os recursos da alma e da técnica”, como o fez Camané.

Na fase final, houve o regresso à obra-prima Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, com o arrebatador crescendo de “Perfilados de Medo”, o original de Camané “Este silêncio”, a forte declamação, pelo próprio José Mário, de “Com Fúria e Raiva” (novamente Sophia de Mello Breyner) e o fim calmo e dormente com “Sopra Demais o Vento”. A que se seguiu uma forte ovação de pé do público, que durou largos minutos. Antes de tudo isto, JMB havia apresentado e abraçado calorosamente cada um dos músicos (numa demonstração clara de partilha e cumplicidade) e desejado que, em noite de eclipse lunar, este fosse um bom mote para um excelente festival. Dificilmente haveria melhor forma de o começar.

 

João Torgal

 

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